Entrevista à TV Globo expôs indefinições sobre ajuste fiscal, exploração de petróleo e composição de eventual governo; candidato também minimizou o 8 de Janeiro e voltou a defender Jair Bolsonaro
Da Redação
A sabatina de Flávio Bolsonaro (PL) na TV Globo, na noite de sexta-feira (16), foi marcada por respostas evasivas, ataques ao Presidente Lula e declarações que deixaram questões centrais de seu programa de governo sem esclarecimento. Em pouco mais de 40 minutos, o candidato exaltou bandeiras do bolsonarismo, defendeu o pai, minimizou a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 e apresentou acusações que não foram sustentadas pelos dados disponíveis, segundo análise publicada pelo JOTA e reportagem da Agência Brasil.
A entrevista com a jornalista Renata Lo Prete também evidenciou a dificuldade de Flávio em detalhar como pretende executar suas propostas econômicas. Embora tenha afirmado que não acabará com a política de reajuste do salário mínimo nem com os pisos constitucionais de saúde e educação, ele não explicou como pretende realizar o ajuste fiscal que defende.
O senador tem prometido reduzir em mais de R$ 200 bilhões a dívida da União, vender imóveis públicos que considera abandonados e arrecadar R$ 100 bilhões com a exploração de petróleo na Margem Equatorial. A estimativa sobre o petróleo, porém, não considera o cronograma da Petrobras, que não prevê o início da exploração antes de 2033. Flávio também propôs extinguir pelo menos dez ministérios, sem apresentar detalhes suficientes sobre o impacto administrativo e financeiro das mudanças.
Na avaliação da analista política Marianna Holanda, do JOTA, a sabatina acabou funcionando como espaço de propaganda eleitoral. O candidato desviou de perguntas, retomou palavras de ordem da direita e deixou sem resposta questões sobre a execução de suas propostas.
Flávio minimiza o 8 de Janeiro e defende o pai
Questionado sobre a tentativa de golpe de Estado, Flávio negou que a invasão e a depredação das sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, tenham configurado uma tentativa de golpe. Classificou como “farsa” o julgamento que condenou Jair Bolsonaro e minimizou a participação dos envolvidos nos ataques, afirmando que uma mulher com uma Bíblia não estaria tentando dar um golpe.
A resposta ignorou o contexto da invasão de prédios públicos por milhares de apoiadores do ex-presidente, que agrediram policiais e depredaram instalações do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal.
Flávio voltou a defender Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão pela tentativa de golpe. Embora tenha afirmado que não discutiu com o pai uma eventual função em seu governo, o senador já declarou anteriormente que concederia indulto ao ex-presidente.
Sobre o irmão, Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos, Flávio afirmou que ele não será ministro das Relações Exteriores caso vença a eleição. Não esclareceu, porém, se Eduardo poderia ocupar outra posição no governo.
Escala 6×1 e armas: mudanças de discurso sem detalhamento
A entrevista também expôs uma mudança de posição de Flávio sobre o fim da escala 6×1. Depois de meses de críticas à redução da jornada, o senador afirmou apoiar a medida aprovada pelo Senado e promulgada na sexta-feira (16). Disse ter ouvido trabalhadores durante a campanha e declarou que a extinção da escala seria compatível com sua defesa de maior liberdade para organizar a jornada de trabalho.
Flávio afirmou que pretende manter as leis trabalhistas, mas defendeu que o trabalhador possa escolher sua escala. A declaração não esclareceu como essa liberdade seria regulamentada nem como seria conciliada com a proteção dos direitos trabalhistas.
Na segurança pública, voltou a defender a classificação de facções como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações narcoterroristas, sem explicar quais mudanças práticas a medida produziria no combate ao crime organizado. Também defendeu facilitar o acesso da população a armas e evitou responder sobre seu apoio a uma proposta que retiraria a identificação de cápsulas de munição utilizadas pelas forças de segurança, mecanismo importante para investigações criminais.
Acusações sobre queimadas são contrariadas por dados oficiais
Durante a sabatina, Flávio acusou o governo federal de registrar o maior número de queimadas da história na Amazônia. A afirmação foi contestada pelos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que monitora focos de calor desde 1989.
Segundo a Agência Brasil, até 15 de outubro a Amazônia havia registrado 9.544 focos de calor, número distante dos maiores índices da série histórica. Portanto, os dados disponíveis não sustentam a afirmação do candidato de que outubro de 2026 teria sido o mês com mais queimadas da história da região.
A declaração exemplifica o uso de acusações políticas sem sustentação nos números apresentados por órgãos oficiais.
Caso Vorcaro e filme sobre Jair Bolsonaro
A relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso no contexto das investigações envolvendo o Banco Master, também foi abordada. Flávio voltou a afirmar que não houve irregularidade na busca de recursos para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.
De acordo com a Agência Brasil, o candidato afirmou ter procurado diversos possíveis investidores e que Vorcaro concordou em financiar o projeto quando, segundo ele, ainda não havia problemas conhecidos envolvendo o banco. A reportagem destaca, porém, que Flávio continuou cobrando recursos do empresário mesmo depois de virem a público suspeitas de fraude relacionadas ao Master.
O candidato não apresentou, na entrevista, esclarecimentos capazes de encerrar as dúvidas sobre a negociação. A existência de questionamentos sobre o financiamento, contudo, não equivale, por si só, à comprovação de irregularidade.
Ajuste fiscal continua sem explicação
A principal lacuna econômica da entrevista foi a ausência de uma explicação consistente sobre como Flávio pretende reduzir a dívida pública sem comprometer serviços e políticas essenciais. O candidato citou a venda de imóveis públicos, a exploração futura de petróleo e a redução do número de ministérios, mas não apresentou uma demonstração detalhada de como essas medidas produziriam os resultados prometidos nem de quando os recursos estariam disponíveis.
O senador também afirmou que pretende acabar com a possibilidade de reeleição presidencial, deixando em aberto a duração do mandato. A mudança dependeria do Congresso Nacional e, segundo ele, poderia valer já para o próximo mandato. A proposta prevê ainda restrições à candidatura de parentes do presidente na eleição seguinte.
A sabatina terminou sem respostas claras sobre pontos relevantes do programa de governo, enquanto o candidato priorizou a defesa do legado político da família Bolsonaro e críticas ao atual governo. A análise do JOTA e a reportagem da Agência Brasil convergem ao apontar a distância entre as declarações de campanha e a apresentação de propostas verificáveis, especialmente na economia e em temas nos quais Flávio fez acusações sem apresentar provas.
Checagem desmente versões de Flávio sobre Bolsa Família, juros e prestação de contas do filme
A checagem do Fato ou Fake, publicada pelo Valor Econômico, identificou afirmações falsas ou imprecisas na sabatina de Flávio Bolsonaro à TV Globo. Entre os pontos analisados estão a prestação de contas do filme Dark Horse, a taxa básica de juros, os reajustes do Bolsa Família e as regras para abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Sobre o filme que retrata Jair Bolsonaro, Flávio afirmou que a produtora havia prestado contas de todos os recursos recebidos. A declaração foi classificada como falsa pela checagem: o documento apresentado pela empresa não continha notas fiscais, recibos ou comprovantes bancários suficientes para demonstrar a origem e a destinação dos valores. O financiamento, que recebeu R$ 61 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, é investigado pela Polícia Federal e pelo STF. Flávio também é investigado no caso, que apura suspeitas relacionadas às transferências, sem que isso represente comprovação de culpa.
Na área econômica, a afirmação de que a dívida brasileira chegou a R$ 11 trilhões foi considerada verdadeira, com uma ressalva importante: o indicador de R$ 11,1 trilhões divulgado pelo Banco Central em agosto de 2026 inclui as dívidas do governo federal, estados, municípios e INSS. Portanto, não corresponde exclusivamente à dívida do governo federal.
Já a comparação feita por Flávio sobre os juros foi classificada como imprecisa. O candidato disse que o boletim Focus de outubro de 2022 projetava uma taxa de aproximadamente 7% para o período atual e comparou essa expectativa à Selic então vigente, de 13,75% ao ano. A checagem esclareceu que o Focus reúne previsões de instituições financeiras, sujeitas a mudanças, e que os relatórios citados não traziam projeção para 2026. Assim, a comparação não permite afirmar qual seria a taxa de juros sob outro governo.
Flávio também atribuiu exclusivamente a Jair Bolsonaro a elevação do Bolsa Família para R$ 600. A checagem classificou a declaração como imprecisa: embora o governo Bolsonaro tenha iniciado parte da elevação, o aumento de R$ 400 para R$ 600 foi estabelecido por emenda constitucional aprovada pelo Congresso Nacional. A reportagem também registrou que o governo do Presidente Lula anunciou a correção do benefício para R$ 691, com pagamentos previstos a partir de 19 de outubro de 2026.
Por fim, o candidato afirmou que o Senado seria obrigado a iniciar um processo de impeachment contra ministros do STF quando houvesse suspeita de crime de responsabilidade. A checagem esclareceu que a legislação atribui ao Senado competência para processar e julgar esses casos, mas não determina abertura automática. O recebimento e o andamento de uma denúncia dependem das etapas previstas na legislação.
As verificações mostram que, embora algumas declarações de Flávio tenham base em dados reais, outras omitem informações decisivas ou apresentam interpretações que não correspondem ao funcionamento das leis e dos indicadores econômicos.