Reportagem da BBC inventa ausência de cobertura chinesa sobre desastre no Tibete

BBC NEWS
Foto: Reprodução/BBC News Brasil

Uma análise de arquivos públicos feita pelo DCM encontrou afirmações falsas no centro da reportagem em que a BBC News acusou a China de esconder imagens e informações sobre as inundações e os deslizamentos ocorridos em Gyirong, no Tibete. A reportagem foi reproduzida pela Folha de S.Paulo, e afirma que as cenas chegaram “às telas de todo o mundo”, “exceto na China”, e que o principal telejornal do país havia transmitido “apenas uma única imagem estática”, afirmando ser difícil encontrar vídeos ou publicações sobre o desastre e que havia “quase nenhuma filmagem gerada por usuários”.

Vídeos da televisão estatal, reportagens chinesas, registros de redes sociais e depoimentos publicados antes do texto mostram que as imagens foram exibidas, o desastre teve ampla circulação e familiares e testemunhas falaram publicamente. O assunto também é o mais comentado nas redes sociais chinesas nesses últimos dias.

Em 26 de agosto, dia da tragédia, o Xinwen Lianbo, telejornal da CCTV exibiu uma reportagem de 1 minuto e 28 segundos com imagens do desastre, desmentindo a alegação da “única imagem estática”. O segmento mostrou uma gravação vertical do vale, cenas identificadas na tela como “imagens gravadas por celular”, lama, rios, estradas destruídas, caminhões, máquinas e equipes de resgate.

A BBC cita que na edição de 27 de agosto, o Xinwen Lianbo abriu com o lançamento da “Seleção de Textos de Xi Jinping sobre Cultura” e que não cobriu mais o desastre. Mas, o próprio telejornal dedicou duas matérias consecutivas sobre a tragédia após o bloco sobre o livro de Xi Jinping. A primeira, sobre a chegada do primeiro-ministro Li Qiang a região do desastre e outra, de mais de 4 minutos, com imagens de helicópteros, drones, máquinas, estradas destruídas e equipes no vale.

Os dois segmentos somaram 5 minutos, mais tempo que o item sobre o livro, que ocupou só 2 minutos. A edição ainda apresentou, perto do final, outra matéria sobre a destruição no Nepal. No dia seguinte, antes da publicação original da BBC, quatro coberturas e outros blocos minoritários ligados à catástrofe ocuparam quase 12 minutos dos 30 minutos da programação do Xinwen Lianbo de sexta (28). A cobertura foi focada nas operações de resgate e nas ações do governo Chinês, mas mostrou extensivamente as consequência do desastre.

O desastre também teve grande circulação nas redes chinesas. Em um registro independente do Weibo feito às 12h23 de 27 de agosto, “Deslizamento no Tibete deixa 3 mortos e 558 desaparecidos” ocupava o primeiro lugar entre os assuntos mais buscados. Outro tópico sobre a tragédia estava na segunda posição, e referências ao resgate, ao porto de Gyirong, aos desaparecidos e ao lago represado apareciam em diferentes posições entre os 50 primeiros.

Às 7h06 do mesmo dia, a Caixin, grupo de jornalismo privado e sem associação ao governo chinês, publicou que “imagens de vigilância circulando na internet” mostravam dezenas de pessoas fugindo, a massa de lama avançando do Nepal, o estacionamento de dois andares desabando e veículos sendo submersos. O The Paper, jornal estatal digital da China, publicou imagens aéreas, comparações do local antes e depois, entrevistas com viajantes e explicações de especialistas sobre a cadeia de eventos provocada pelo colapso glacial.

O texto da BBC ainda afirma que é ” praticamente impossível” ter notícias de familiares e vítimas do desastre. Veículos chineses entrevistaram a senhora Fang, que precisou recuar de carro enquanto água, árvores e postes avançavam por uma estrada a cerca de quatro quilômetros do porto. Um jornal de Beijing ouviu Losang, que procurava a mãe, o irmão, duas irmãs e três sobrinhos. No Weibo, a esposa de um operador de escavadeira publicou um apelo ainda na noite de 26 de agosto.

Weibo China
Vídeo anexado da publicação é da esposa pedindo ajuda para localizar o marido. Foto: Reprodução/Weibo

Os números oficiais também foram divulgados rapidamente e sem esconder a gravidade, diferente do que foi afirmado na reportagem. Na noite de 26 de agosto, a China informou 3 mortos e 265 desaparecidos. Na manhã seguinte, o balanço passou para 3 mortos e 558 desaparecidos. Em 28 de agosto, eram 5 mortos e 558 desaparecidos; às 1h de 29 de agosto, 7 mortos e 554 desaparecidos. Os dados podem ser imprecisos, mas é incorreto afirmar que Pequim evita comentar sobre os números.

Jornais e revistas científicas publicaram análises sobre o colapso de uma geleira no lado nepalês e relacionaram a instabilidade do gelo ao aquecimento regional e global. Houve explicações sobre a velocidade estimada do fluxo, o desnível, os lagos glaciais e o risco de novos eventos no Himalaia.

No entanto, ainda existem evidências de controle e remoção seletiva de contéudo. A China Digital Times, portal independente de noticias, documentou o desaparecimento de um artigo crítico publicado no WeChat e relatou testes nos quais duas sequências específicas da câmera de segurança não podiam ser reenviadas, embora outros vídeos circulassem.

A International Campaign for Tibet, usada pela BBC como fonte da acusação de censura, afirmou ter recebido relatos de pessoas no local, mas não apresentou provas com sites, capturas, nomes, horários ou número de publicações removidas. A entidade atua em defesa da causa tibetana.

A China restringe o acesso de jornalistas estrangeiros ao Tibete, controla a cobertura local e dificulta a verificação independente dos balanços oficiais. Essas limitações são reais e deixam perguntas abertas sobre vítimas, prevenção, responsabilidades e o que ocorreu no núcleo atingido. A BBC, porém, usou esse contexto para alegar que a cobertura do desastre na mídia chinesa é praticamente inexistente.

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