
A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que extinguir o voto feminino no Brasil exigiria “rasgar” a Constituição. A declaração ocorre após uma investigação da BBC News Brasil mapear a circulação de discursos de influenciadores que questionam o sufrágio das mulheres nas redes sociais e em podcasts.
Única mulher entre os integrantes atuais do STF, Cármen Lúcia disse que o direito universal ao voto não pode ser retirado por lei. “Não se pode extinguir porque esbarra no impedimento constitucional óbvio, específico, expresso”, afirmou a ministra.
O debate ganhou projeção em junho, quando o influenciador Paulo Figueiredo, ligado à família Bolsonaro, declarou em uma live que “mulheres votam estatisticamente mal. Principalmente mulheres solteiras”. O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) repudiou a fala e defendeu que a direita busque convencer as mulheres de suas propostas.
A investigação identificou vídeos que atribuem ao voto feminino problemas sociais e mudanças consideradas negativas para os homens. Um dos nomes desse circuito é Renato Amoedo, conhecido como Renato 38ão, que disse em um podcast que a independência financeira das mulheres decorreu de benefícios estatais e afirmou: “Elas são baratas porque são pobres”. Ele recusou entrevista.

Podcasts e propostas de “voto familiar” ampliam debate
No Redcast, canal com pouco mais de um milhão de inscritos no YouTube, Ana Hering, integrante do MBL e candidata a deputada federal por São Paulo pelo partido Missão, disse que “o mundo começou a desandar quando a mulher começou a dar a opinião dela. E começaram a ouvir”. Ela afirmou posteriormente que fazia uma piada e negou que a frase represente seu posicionamento.
Na mesma conversa, Hering sustentou que mulheres se interessam menos por política e tenderiam a “comprar discursos prontos”. A neurocientista Suzana Herculano-Houzel, pesquisadora da Universidade Vanderbilt, contestou a ideia de diferenças cognitivas definidas pelo gênero: “Sem sombra de dúvida é besteirada pura essa ideia de que homens têm um cérebro assim e mulheres têm um cérebro assado”.
O sexto fascículo do “Livro Amarelo”, que reúne textos ligados ao partido Missão, apresenta a noção de “democracia familiar” e defende a família como “célula política”. Renan Santos, candidato presidencial da sigla, disse à CNN Brasil que o voto familiar não integra seu programa. Em julho, o partido afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo que os fascículos têm caráter ensaístico e não constituem proposta programática.
Um grupo de deputadas federais pediu à Procuradoria-Geral da República que apure se as falas de Paulo Figueiredo e o conteúdo do “Livro Amarelo” buscam intimidar mulheres e deslegitimar sua participação eleitoral. Para Cármen Lúcia, ataques a direitos fundamentais exigem vigilância: “Há sempre alguém que quer o retrocesso”.