Quando os guardiões entram em guerra: crise
por Carmem Leitão e Leonardo Avritzer
Na manhã de 8 de setembro, Mendonça determinou monocraticamente o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal (PF) e de Leandro Almada da direção de Inteligência Policial. Segundo o ministro, seis relatórios produzidos entre 3 e 31 de agosto revelariam um ‘monitoramento sistemático e ilegal’ de sua atuação e de sua relação com o advogado-geral da União, Jorge Messias. A ordem também mandou a Corregedoria da PF abrir procedimentos penais e disciplinares e suspendeu a produção ou circulação de relatórios de inteligência destinados a analisar funções jurisdicionais, advocacia pública e polícia judiciária. Mendonça submeteu a cautelar à Segunda Turma. Até o fechamento deste texto, ele, Luiz Fux e Nunes Marques haviam votado por mantê-la; Gilmar Mendes pedira vista, e a AGU anunciara recurso, questionando o alcance da decisão sobre uma função cuja nomeação e exoneração cabem ao presidente da República[1].
A alegação de monitoramento ilegal não deve ser reduzida em importância, uma vez que nenhuma democracia pode normalizar o uso de estruturas de inteligência para escrutinar magistrados(as), integrantes da advocacia pública ou policiais sem finalidade definida e sem base legal. Mas a gravidade da denúncia tampouco afasta as exigências do devido processo. Como a decisão foi proferida pelo ministro que se identifica como vítima dos relatórios e alcança a alta direção de outra instituição de Estado, competência, proporcionalidade, imparcialidade e controle colegiado passam a integrar o próprio problema. A escolha democrática exige uma apuração independente, verificável e passível de revisão, em lugar do confronto personalizado.
O episódio acrescenta outro problema. A sequência de relatórios da PF, o uso do material por Moraes, a reação de Mendonça, o afastamento da cúpula policial e o recurso anunciado pela AGU correm o risco de transformar o controle institucional em um ciclo de ação e retaliação. Cada elo pode invocar um argumento jurídico; o efeito acumulado, sem um centro decisório imparcial, é corroer a confiança pública e transformar a autoridade do cargo em extensão do conflito pessoal.
No Brasil de 2026, esse mecanismo enfrenta uma eleição apertada. O Datafolha de agosto registrou, em eventual segundo turno, 62% para Flávio Bolsonaro e 29% para Lula entre evangélicos; entre católicos, Lula tinha 54% e Flávio, 36%. A margem de erro do recorte religioso era maior do que a da amostra total. Em 7 de setembro, a Quaest apontou empate numérico de 41% a 41% entre os dois no conjunto do eleitorado. Como a pesquisa foi realizada entre os dias 3 e 6, já sob a crise no STF, seu resultado recomenda prudência: há um canal plausível de mobilização, mas ainda não há evidência de que o episódio tenha deslocado votos. Identificar um mecanismo não é, portanto, medir seu efeito[2].
Na Paulista, Flávio falou em acabar com o ‘consórcio Lula-Moraes’, disse que o ministro ‘vai cair’ e prometeu até cinco indicações ao Supremo, contando com aposentadorias, a vaga aberta e afastamentos que ainda são hipóteses. O próprio Flávio tornou literal essa equivalência ao declarar: ‘Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes’. Alfredo Gaspar formulou uma associação semelhante: ‘não existe Alexandre sem Lula, nem Lula sem Alexandre’[3]. No dia seguinte, a ordem de Mendonça contra a cúpula da PF ofereceu novo combustível a esse enredo, embora não comprove qualquer coordenação entre a decisão judicial e a campanha. Religião, ressentimento anti-STF e projeto de poder circulam na mesma narrativa.
A apropriação foi imediata. Depois do afastamento, Flávio afirmou que um suposto ‘grupo especial de Lula’ na Polícia Federal fora ‘desmascarado oficialmente’ e apresentou Andrei Rodrigues como operador do presidente[4]. Essa fala retórica de campanha mostra a velocidade com que uma cautelar judicial pode ser convertida em ativo eleitoral e incorporada à narrativa que funde governo, polícia e adversários no Supremo[5].
Além das eleições de outubro, esta crise terá desdobramentos no próximo governo. Entre 2027 e 2030, estão previstas as aposentadorias compulsórias de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes, o que coloca três indicações ao STF no horizonte do mandato presidencial. Um governo de Flávio Bolsonaro poderia interpretar a vitória como um mandato para redesenhar o Supremo. Uma reeleição de Lula, por sua vez, enfrentaria uma oposição capaz de transformar decisões administrativas, nomeações e políticas de direitos em novos episódios de crise[6].
Certamente, uma resposta institucional que não pode esperar pelo resultado das urnas. O STF precisa apurar, de modo colegiado, transparente e tempestivo, as condutas atribuídas a Moraes e Mendonça, com regras claras e consistentes sobre impedimentos e conflitos de interesse. Cobrar explicações de Moraes não absolve Mendonça, e investigar Mendonça não transforma Moraes em vítima de uma trama.
Há sinais de que os freios institucionais ainda operam, uma vez que a cautelar foi submetida à Segunda Turma, um pedido de vista interrompeu a conclusão imediata, a AGU anunciou recurso e Fachin já havia aberto procedimento próprio para colher explicações dos envolvidos. Esses mecanismos, porém, somente representarão avanço se produzirem controle efetivo, e não mero alinhamento entre grupos.
[1] STF, Petição 16.662/DF, decisão do min. André Mendonça, 8 set. 2026, íntegra: https://static.poder360.com.br/uploads/2026/09/STF-Mendonca-afasta-Andrei-8set2026.pdf; CartaCapital, ‘Mendonça determina afastamento de Andrei Rodrigues do comando da PF em nova escalada da crise no STF’, 8 set. 2026; CNN Brasil, ‘Gilmar Mendes pede vista e adia análise de afastamento de diretor da PF’, 8 set. 2026; UOL, ‘AGU vai contestar afastamento e defender permanência de Andrei na PF’, 8 set. 2026.
[2] Datafolha/Folha de S.Paulo, “Lula lidera entre mulheres e mais pobres, e Flávio Bolsonaro, entre evangélicos”, 22 ago. 2026, registro TSE BR-04496/2026; Quaest/UOL, “Quaest: Lula e Flávio Bolsonaro têm empate numérico no 2º turno”, 7 set. 2026, registro TSE BR-01720/2026.
[3] Folha de S.Paulo, ‘Flávio Bolsonaro liga Lula a Moraes em ato na Paulista com defesa de Mendonça’, 7 set. 2026; UOL, ‘Flávio diz que quem vota em Lula vota em Moraes e que ministro vai cair’, 7 set. 2026; SBT News, ‘Flávio: não permitirei que Lula indique mais 4 Moraes ao STF’, 7 set. 2026. A frase literal ‘Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes’ foi pronunciada por Flávio Bolsonaro; Alfredo Gaspar disse: ‘não existe Alexandre sem Lula, nem Lula sem Alexandre’.
[4] Folha de S.Paulo, ‘Flávio Bolsonaro associa Lula a crise no STF e diz que grupo do petista na PF foi desmascarado’, 8 set. 2026. As expressões reproduzem a manifestação do candidato e não constituem conclusão factual sobre a Polícia Federal.
[5] Folha de S.Paulo, ‘Flávio Bolsonaro associa Lula a crise no STF e diz que grupo do petista na PF foi desmascarado’, 8 set. 2026. As expressões reproduzem a manifestação do candidato e não constituem conclusão factual sobre a Polícia Federal.
[6] TSE, calendário e ordem de votação das Eleições 2026; Nexo, “Próximo presidente deve indicar 3 ministros do Supremo”, 24 set. 2025; Câmara dos Deputados, cadastro da Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional. A terceira indicação dependerá do momento da aposentadoria de Gilmar Mendes, prevista para 30 dez. 2030, e de não haver antecipações ou mudanças legais. A lista formal de integrantes da frente não deve ser confundida com identidade religiosa ou disciplina de voto.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “