Durante sabatina na TV Globo, o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) tentou se apresentar como o defensor dos aposentados ao afirmar categoricamente que não pretende desvincular os reajustes da Previdência do salário mínimo. A promessa, no entanto, soa como pura demagogia diante das evidências de que sua própria equipe econômica e empresários que financiam sua campanha desenham um cenário de profundo retrocesso social.
Promessa de palanque versus realidade da equipe
A fala tranquilizadora de Flávio — “Aposentado, fique tranquilo. Não caia nessa ‘fake news’ do PT” — contrasta frontalmente com a atuação de sua coordenadora econômica, Daniella Marques, e de assessores diretos.
Integrantes das entidades envolvidas na elaboração dessas ideias participam da equipe econômica do candidato. Entre eles estão Alexandre Ywata e Anne Caroline Marciquevik Alves, diretores da Fundação Internacional para a Liberdade (FIL Brasil). A entidade participou da elaboração do projeto empresarial e tem Paulo Guedes, ex-ministro da Economia de Jair Bolsonaro, como presidente de honra. São esses mesmos atores que, nos bastidores, defendem o endurecimento das regras previdenciárias para viabilizar um ajuste fiscal de até 2% do PIB.
O projeto “Brasil de Amanhã” e o tesouraço nos direitos
O verdadeiro rosto da política previdenciária de Flávio não está em seus discursos de campanha, mas no documento “Projeto Brasil de Amanhã”, entregue ao candidato por cerca de 500 empresários em São Paulo. O plano é claro e cruel: elevar a idade mínima de aposentadoria para 67 anos — dois anos a mais para homens e cinco para mulheres — e desvincular o piso dos benefícios do salário mínimo.
Na prática, os menores benefícios perderiam o ganho real, corroendo o poder de compra de milhões de idosos e pensionistas que dependem desse recurso para sobreviver.
Plano de governo vago esconde o verdadeiro ajuste
Registrado no TSE, o plano de governo de Flávio é um exercício de omissão. A página 69 promete uma “ampla revisão normativa infralegal” na área previdenciária, sem especificar limites ou garantias. O documento não assume nenhum compromisso com a manutenção das idades mínimas atuais, das regras de cálculo ou dos mecanismos de reajuste.
O plano dedica espaço à digitalização do INSS, ao combate a fraudes e à modernização administrativa, mas não estabelece compromisso específico com a manutenção das idades mínimas atuais, das regras de cálculo das aposentadorias ou dos mecanismos de reajuste.
Também não esclarece como seria feita a anunciada revisão das normas previdenciárias.
O programa de Flávio afirma que pretende manter políticas sociais e estimular a transição de beneficiários para o mercado de trabalho, mas não apresenta compromissos individualizados sobre valores, critérios de renda e condições de permanência no Bolsa Família.
No caso do Benefício de Prestação Continuada (BPC), o documento também não detalha como pretende preservar as regras atuais.
Isso é relevante porque mudanças nos critérios de acesso, fiscalização e permanência podem reduzir a cobertura de uma política pública mesmo sem que o programa seja formalmente extinto.
O projeto empresarial apresentado ao candidato acrescenta ainda propostas de revisão cadastral e de critérios relacionados ao Bolsa Família.
Essa ambiguidade calculada serve apenas para ocultar o “tesouraço” de até R$ 250 bilhões discutido por sua equipe, cujo alvo óbvio são as despesas obrigatórias com a proteção social.
A experiência recente mostra que reformas previdenciárias são uma das formas mais relevantes de alterar despesas obrigatórias. Por isso, uma promessa de ajuste de grande magnitude precisa vir acompanhada de uma explicação clara sobre quais mecanismos serão utilizados.
A pergunta não é apenas se Flávio pretende ou não desvincular aposentadorias do salário mínimo. É como pretende economizar o equivalente a 2% do PIB sem mexer nas despesas que representam parcela significativa do orçamento público.
O fantasma de Milei e o risco da privatização à la Chile
Os alertas sobre os rumos de um eventual governo Flávio Bolsonaro ganham contornos trágicos ao observar as experiências internacionais defendidas por sua ala econômica. Na Argentina, a política de austeridade de Javier Milei — citada como referência por Daniella Marques — eliminou a moratória previdenciária e reduziu em 53% as novas aposentadorias, jogando os idosos abaixo da linha da pobreza. No Chile, o modelo de capitalização individual implantado na ditadura de Pinochet resultou em benefícios que mal cobrem a metade do salário mínimo, enriquecendo as administradoras privadas à custa da miséria dos trabalhadores.
A tentativa de Flávio de enganar o eleitorado com promessas vazias na TV Globo esconde uma agenda de destruição de direitos. A falta de transparência do candidato é a maior prova de que seu governo será extremamente prejudicial ao povo. A Previdência é um direito conquistado com décadas de contribuição, e não um privilégio a ser cortado para agradar o mercado financeiro.