
Um mercado milionário de advogados e lobistas que prometem acesso ao entorno do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a atuar em pedidos de perdão presidencial. Intermediários chegam a cobrar até US$ 3 milhões de condenados interessados em levar seus casos diretamente à Casa Branca, contornando o procedimento tradicional do Departamento de Justiça.
A prática foi revelada em uma investigação do programa “60 Minutes”, da CBS. Os chamados “pardon brokers”, ou intermediários de perdões, vendem principalmente a capacidade de chegar a pessoas próximas a Trump. A atuação não é ilegal, mas levanta questionamentos sobre a influência do dinheiro no acesso ao presidente e sobre a diferença de tratamento entre condenados ricos e aqueles que dependem exclusivamente dos canais oficiais.
Um dos casos acompanhados é o de Ammon Covino, condenado por tráfico ilegal de animais silvestres e que cumpriu 23 meses de prisão. Ele havia solicitado um perdão pelo procedimento convencional do Departamento de Justiça e teve o pedido rejeitado. Posteriormente, entrou em contato com intermediários que afirmavam ser capazes de levar o caso diretamente ao entorno presidencial.
Entre eles estavam os lobistas Jacob Wohl e Jack Burkman, aliados de Trump conhecidos por ações políticas controversas. Os dois responderam ao contato de Covino em apenas sete minutos e afirmaram que poderiam trabalhar para conseguir o perdão. O preço apresentado foi de US$ 300 mil.
Segundo os intermediários, parte do dinheiro seria usada para comprar ingressos para eventos, frequentar Mar-a-Lago, participar de encontros com a presença de Trump e contratar pessoas com acesso a integrantes influentes do governo. “O que fazemos é mobilizar membros do Congresso para ligar para ele”, afirmou Burkman durante uma conversa gravada com câmera escondida.
A estratégia descrita por eles incluía pressionar Trump por diferentes canais até que o presidente assinasse o perdão. Burkman também orientou Covino a apresentar sua condenação como resultado de uma perseguição política ocorrida durante o governo de Barack Obama, argumento semelhante ao usado pelo próprio Trump ao criticar investigações e processos contra ele.
O rapper Boosie Badazz relatou experiência semelhante. Após ser condenado por uma acusação relacionada a arma de fogo, ele contratou Wohl e Burkman e desembolsou US$ 600 mil antecipadamente. Segundo o artista, a impressão transmitida pelos intermediários era clara: pagando o valor solicitado, o perdão seria obtido.
Incredible journalism.
60 Minutes has a convicted felon go undercover to talk to “pardon brokers,” people who will try to get you a pardon from Trump if you pay them.
This administration’s corruption has created entire new job categories. pic.twitter.com/UMhizhWmxp
— Richard Hanania (@RichardHanania) September 14, 2026
Mensagens apresentadas pela reportagem mencionam nomes como Laura Loomer, Erika Kirk, o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, e Natalie Harp, assistente próxima de Trump. Os quatro negaram participação no caso. Boosie não recebeu o perdão e agora processa os intermediários para recuperar parte do dinheiro.
A reportagem identificou cobranças que chegam a US$ 3 milhões por serviços relacionados à tentativa de obter clemência presidencial. Para Mark Osler, professor de Direito da Universidade de St. Thomas, em Minnesota, a quantidade de dinheiro envolvida cria condições favoráveis à corrupção. Ele trabalha há 15 anos auxiliando gratuitamente condenados sem recursos a apresentar pedidos de perdão.
Os dados levantados pelo programa também mostram que cerca de 70% das medidas de clemência concedidas por Trump em seu segundo mandato não passaram pelo processo tradicional do Departamento de Justiça. Quando são incluídos os participantes dos atos de 6 de janeiro de 2021 beneficiados pelo presidente, o índice sobe para 92%.
A investigação ainda identificou casos em que perdões foram concedidos após grandes doações políticas ou negócios envolvendo interesses ligados a Trump. Um empresário condenado por fraude recebeu o benefício depois que ele e a mulher doaram quase US$ 2 milhões para apoiar a reeleição do republicano.
Outro caso citado envolve o fundador da Binance, condenado após admitir falhas nos controles contra lavagem de dinheiro da corretora de criptomoedas. Ele recebeu o perdão depois que a empresa impulsionou um empreendimento de criptomoedas ligado à família Trump. As partes envolvidas negam que exista relação entre os negócios e a decisão presidencial.
Um executivo do setor de saúde condenado por crimes tributários foi perdoado depois que sua mãe pagou US$ 1 milhão para participar de um evento de arrecadação em Mar-a-Lago.
Advogados sempre cobraram para preparar pedidos de clemência, normalmente alguns milhares de dólares. Agora, a promessa de acesso direto ao entorno presidencial movimenta centenas de milhares ou milhões de dólares.
Covino reconheceu que considera o sistema injusto, mas admitiu que pagaria os US$ 300 mil caso tivesse condições e acreditasse que isso aumentaria suas chances. “Não gosto do fato de ser necessário pagar uma quantia tão grande por causa de quem você conhece. Mas, se é assim que o jogo funciona, então é assim que o jogo funciona”, afirmou.