
As eleições de 2026 deram vitória a três candidatos investigados ou formalmente acusados de ligação com facções e milícias: Ney Santos (Republicanos) e Márcio Rezende (PSD), eleitos deputados federais, e Marcio Canella (União Brasil), eleito deputado estadual no Rio de Janeiro. Os nomes fazem parte de um levantamento da revista piauí, que identificou ao menos 23 candidatos nessa situação. As suspeitas alcançam também Júnior Mano, eleito primeiro suplente de senador no Ceará.
O levantamento cruzou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com relatórios do Ministério Público e inquéritos policiais. O número de candidatos investigados por suspeita de vínculos com grupos criminosos passou de dez, em 2018, para 20, em 2022, e 23 neste ano. O Comando Vermelho aparece em investigações relacionadas a 11 candidaturas, e as milícias, a cinco. Para o diretor-executivo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato Sérgio de Lima, o resultado reflete a influência crescente dessas organizações sobre os territórios e o comportamento dos eleitores.
No Rio, Márcio Rezende foi eleito para a Câmara com cerca de 75 mil votos. A PF investiga relações do grupo político de sua família, em Macaé, com Poliana Krisma Dutra, viúva de uma liderança da facção Amigos dos Amigos. Ela é investigada por atuar na campanha da filha de Rezende em comunidades controladas pela facção, onde a polícia suspeita de restrições a outros candidatos. A assessoria de Rezende nega vínculo com o crime organizado. Já Canella recebeu 197.178 votos para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Segundo a Piauí, a PF encontrou um fuzil em seu carro durante uma operação que apurava lavagem de dinheiro por meio de postos de combustível. O político nega ligação com organizações criminosas e diz ser alvo de perseguição política.
Júnior Mano, deputado federal eleito primeiro suplente na chapa de Cid Gomes (PSB-CE) ao Senado, é investigado pela PF por suspeita de desvio de emendas parlamentares. A apuração envolve um esquema que, segundo a revista, era comandado por Bebeto do Choró, ex-prefeito apontado como ligado ao PCC e atualmente foragido. A assessoria de Júnior Mano nega associação com grupos criminosos e afirma que as suspeitas não têm fundamento.

Entre os eleitos para a Câmara, Ney Santos ocupa uma posição particular: é apontado formalmente pelo Ministério Público como integrante do Primeiro Comando da Capital (PCC). O ex-prefeito de Embu das Artes conquistou 118.566 votos em São Paulo pelo Republicanos, partido do governador Tarcísio de Freitas. Se assumir o mandato, será o primeiro congressista formalmente acusado de integrar a facção.
Para o MP, Ney Santos atua como um braço empresarial e político do PCC. A investigação aponta que ele formou uma rede de 29 postos de combustível e uma transportadora em nomes de terceiros usados como testas de ferro. Em uma interceptação realizada em Minas Gerais, em 2016, dois integrantes da facção o descreviam como “intocável” por seu compromisso com o “comando”, conforme a reportagem.
Denunciado em dezembro de 2016 por associação criminosa e lavagem de dinheiro, Ney Santos ainda não recebeu sentença nesse processo. Sua candidatura continua sob recurso no TSE: o TRE de São Paulo manteve o registro, mas o Ministério Público Eleitoral recorreu, citando suspeitas de ligação com o PCC. Se o recurso for acolhido, a vitória nas urnas perderá a validade.
A defesa de Ney Santos nega os vínculos com a facção e classifica as acusações da polícia e do MP como falsas. Em resposta anterior à Piauí, afirmou que mais de 14 anos de apurações não produziram prova dessa ligação e atribuiu as denúncias a narrativas de investigadores e adversários políticos.