Educação contextualizada das Escolas Famílias Agrícolas aproxima conhecimento científico, saberes comunitários e agroecologia para ampliar as perspectivas da juventude rural
Da Redação
A possibilidade de estudar sem romper os vínculos com a família, a comunidade e o território está no centro da proposta das Escolas Famílias Agrícolas, as EFAs. Por meio da pedagogia da alternância, essas instituições integram a formação escolar ao cotidiano do campo e oferecem aos jovens conhecimentos que podem ser utilizados no desenvolvimento das propriedades familiares e das comunidades rurais.
O funcionamento das EFAs foi apresentado em uma edição do programa Bancos da Democracia, produzido pela Rede Brasileira de Bancos Comunitários de Desenvolvimento e pelo Banco Palmas, com apoio do Ministério do Trabalho e Emprego. O debate reuniu Idalgizo Monequi, representante da União Nacional das Escolas Famílias Agrícolas do Brasil, a UNEFAB; Ana Luiza, educanda da EFA Dom Fragoso, em Independência, no Ceará; e Ozéias Cerqueira, gestor da Escola Família Agrícola de Porto Nacional, no Tocantins. A apresentação foi de Sousa Júnior.
Ao compartilhar sua experiência, Ana Luiza afirmou que as EFAs ajudam os estudantes a reconhecer o valor da identidade camponesa em um período no qual muitos jovens são incentivados a abandonar as comunidades rurais. Para ela, a educação contextualizada mostra que permanecer no campo não significa renunciar à formação profissional ou a melhores condições de vida.
“Para você viver bem, você não precisa sair, não precisa largar o seu território e as suas origens”, declarou a estudante.
Educação ligada à vida das famílias
Ana Luiza cursa o segundo ano do ensino médio integrado ao curso técnico em Agropecuária na EFA Dom Fragoso. Ela também é bolsista do Projeto Dom Hélder Câmara 3 e participa de atividades relacionadas à educação contextualizada, à agricultura familiar e à convivência com o Semiárido.
Segundo a estudante, sua decisão de ingressar na EFA não foi motivada somente pela oferta do curso técnico. Ela já conhecia a proposta educacional e enxergava a escola como um projeto capaz de transformar a relação dos jovens com suas comunidades.
“Eu entrei na EFA não somente pelo curso ou pelos estudos do campo, mas por acreditar realmente no projeto, por saber que a EFA é um espaço onde você se reconhece como uma pessoa camponesa”, explicou.
Um dos primeiros temas trabalhados com os estudantes é a identidade. Por meio do plano de estudo, os educandos pesquisam a história da família, da comunidade e das pessoas que viveram anteriormente no território. Esse processo aproxima o conteúdo escolar das experiências acumuladas pelas famílias e ajuda os jovens a compreenderem a formação social e cultural do lugar onde vivem.
A metodologia também amplia a participação dos estudantes em seminários, encontros comunitários e espaços de discussão sobre os direitos dos povos do campo. Ana Luiza contou que havia participado recentemente de um seminário dos Povos da Terra e das Águas do Sertão de Crateús, realizado durante três dias para discutir a educação contextualizada.
“O que mais me empolga são as oportunidades que a EFA oferece. Ocupar esses lugares e ver que a juventude é reconhecida nesses espaços é o que mais me alegra”, afirmou.
Pedagogia da alternância
A principal característica das Escolas Famílias Agrícolas é a pedagogia da alternância. Nesse modelo, os estudantes dividem a formação entre períodos no ambiente escolar e períodos nas propriedades familiares ou comunidades.
A alternância não representa uma interrupção dos estudos. Os dois momentos formam um processo contínuo no qual questões observadas nas comunidades são levadas para a escola, analisadas com a contribuição das diferentes disciplinas e depois transformadas em propostas que podem ser aplicadas nos territórios.
Ozéias Cerqueira explicou que algumas escolas trabalham com alternância semanal, enquanto outras utilizam períodos quinzenais. Em ambos os casos, a proposta é manter o estudante ligado à família e fazer da realidade comunitária uma fonte permanente de pesquisa.
“O estudo acontece em locais diferentes, mas é contínuo. A problemática comunitária vai para a escola, e o conhecimento produzido na escola retorna para a comunidade”, explicou.
O plano de estudo funciona como uma das principais ferramentas dessa integração. Os estudantes pesquisam uma situação concreta durante o tempo na comunidade. Ao retornarem à escola, apresentam o material aos professores e aos colegas. O tema pode ser trabalhado em disciplinas do núcleo comum e nas áreas específicas da formação técnica.
Uma dificuldade observada em uma propriedade pode, por exemplo, ser analisada nas aulas de Biologia, Geografia, Matemática e nas disciplinas ligadas à produção agropecuária. O objetivo é superar a separação entre conhecimento científico e experiência cotidiana.
“Quando o estudante traz uma situação ou um problema da comunidade, esse problema se torna objeto de estudo nas diversas disciplinas, desde a área específica do curso até o núcleo comum”, disse Ozéias.
Estudantes participam das decisões
Além da alternância, o gestor da Escola Família Agrícola de Porto Nacional apontou a participação dos jovens e de suas famílias como um dos principais diferenciais do modelo. Os estudantes não chegam à escola apenas para assistir às aulas. Eles participam das discussões sobre o funcionamento da instituição e ajudam a identificar os temas que precisam ser trabalhados.
“Esses jovens não chegam a uma escola para serem apenas participantes e assistir às aulas. Eles fazem parte de todo o processo de discussão, inclusive da gestão”, afirmou Ozéias.
A presença das famílias não se limita às reuniões destinadas à entrega de notas ou à discussão do comportamento dos alunos. Organizadas em associações, elas participam da administração e da construção do plano de formação.
Esse modelo permite que o currículo considere problemas vividos pelos agricultores, mudanças ambientais, dificuldades econômicas e demandas surgidas dentro das comunidades. A escola passa a trabalhar com uma formação vinculada ao desenvolvimento territorial.
Para Ozéias, os cursos técnicos integrados ao ensino médio oferecem aos jovens a possibilidade de atuar como agentes de desenvolvimento. Ao concluírem a formação, eles podem trabalhar na assistência técnica, em cooperativas, movimentos sociais, sindicatos e projetos vinculados à agricultura familiar.
“Nós estamos falando de uma educação para o desenvolvimento territorial dessas famílias, desses jovens e da comunidade como um todo”, afirmou.
Uma rede presente em quase todo o Brasil
Idalgizo Monequi explicou que a experiência brasileira com as Escolas Famílias Agrícolas se aproxima dos 60 anos. Ele também estudou em uma EFA, continuou sua formação e retornou ao movimento como monitor, denominação utilizada para os educadores que trabalham nessas instituições.
Atualmente, Idalgizo integra a direção do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo, o Mepes, e representa as Escolas Famílias Agrícolas no Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável, o Condraf.
Segundo ele, o Brasil possui duas redes educacionais que utilizam a pedagogia da alternância: as Escolas Famílias Agrícolas, articuladas pela UNEFAB, e as Casas Familiares Rurais, organizadas nacionalmente pela União Nacional das Casas Familiares Rurais do Brasil. Juntas, elas somam quase 300 escolas, distribuídas por 21 ou 22 estados, conforme os dados apresentados durante o programa.
As experiências estão presentes do Sul à Amazônia, incluindo estados do Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. Em algumas regiões, as escolas contam com associações estaduais responsáveis pela articulação, pela formação dos educadores e pela troca de experiências. Em outros estados, como o Ceará, as instituições estão vinculadas diretamente à organização nacional enquanto avançam na construção de uma representação estadual.
Idalgizo destacou a importância de impedir que as unidades atuem isoladamente. A articulação permite compartilhar metodologias, aperfeiçoar os processos formativos e fortalecer as reivindicações por reconhecimento e financiamento público.
Uma educação que não expulsa o jovem do campo
As EFAs surgiram como resposta a um modelo educacional que pouco considerava a vida rural. Currículos produzidos com base nas referências urbanas frequentemente apresentavam a cidade como o principal espaço de progresso e realização profissional.
Na avaliação de Idalgizo, esse modelo ajudou a estimular a saída de jovens que não encontravam na escola conhecimentos relacionados à agricultura familiar, à cultura comunitária ou às possibilidades econômicas de seus territórios.
“A educação existente não possibilitava a valorização da cultura local, dos saberes populares e dos saberes tradicionais. Em vez de preparar os jovens para valorizar o campo, ela os motivava a sair”, afirmou.
O representante da UNEFAB ressaltou que o campo não deve ser entendido somente como espaço de produção agrícola. As comunidades possuem manifestações culturais, experiências coletivas e formas próprias de organização. Quando o currículo ignora essa diversidade, a formação escolar se distancia da realidade dos estudantes.
“O campo não é só um lugar de produzir. É lugar de cultura, de arte, de vida e de experiência. Tudo isso precisa de conhecimento”, declarou.
A saída dos jovens também afeta a continuidade das propriedades familiares. Sem perspectivas de renda e acesso a serviços, muitos migram para as cidades ao atingirem a maioridade. Frequentemente, chegam aos centros urbanos com pouca formação profissional e encontram trabalhos precários.
Para Idalgizo, oferecer educação contextualizada é parte da resposta, mas não resolve o problema isoladamente. Após a formação, os jovens precisam ter acesso ao crédito, à assistência técnica e a políticas que permitam implementar seus projetos.
“O campo está ficando velho. É uma realidade, e os jovens continuam saindo muito. Precisamos dar a eles a oportunidade de se formar numa proposta pedagógica que respeite sua realidade e, depois, condições para trabalhar e construir sua família no campo”, defendeu.
Formação técnica e desenvolvimento humano
A formação oferecida pelas EFAs não se restringe ao domínio das técnicas de produção. Idalgizo afirmou que as instituições pretendem formar pessoas capazes de exercer liderança, participar das organizações sociais e compreender criticamente os problemas dos territórios.
“Não basta preparar um bom técnico. Precisamos preparar também um bom ser humano, consciente e crítico”, afirmou.
No Espírito Santo, segundo os dados apresentados por ele, pesquisas indicaram que entre 60% e 70% dos egressos das Escolas Famílias Agrícolas permanecem no campo. Muitos participam de cooperativas, prestam assistência técnica, integram sindicatos e atuam em movimentos sociais.
Idalgizo explicou que as escolas formam anualmente um contingente expressivo de técnicos preparados para trabalhar com desenvolvimento sustentável e Assistência Técnica e Extensão Rural, a Ater. Esses profissionais possuem formação técnica e conhecimento das condições sociais das famílias agricultoras.
O trabalho dos egressos também pode contribuir para a sucessão rural, processo pelo qual uma nova geração assume a continuidade das atividades desenvolvidas pelas famílias. Sem jovens preparados e interessados, propriedades produtivas podem ser abandonadas ou vendidas.
Agroecologia como princípio formativo
Durante o programa, participantes questionaram como as EFAs trabalham a agroecologia e práticas como avicultura e piscicultura. Idalgizo explicou que a agroecologia não aparece apenas como uma disciplina ou um tema isolado. Ela orienta o conjunto da formação.
“A agroecologia não é apenas um tema. Ela é princípio de todo o processo formativo, porque não é somente uma forma de produzir. É uma forma de pensar e de viver”, declarou.
Essa compreensão relaciona a produção de alimentos à preservação ambiental, à saúde, à autonomia das famílias e ao fortalecimento das comunidades. Os estudantes aprendem a analisar como cada atividade interfere no solo, na água e nas condições de vida dos trabalhadores.
Ozéias acrescentou que a educação contextualizada pode preparar crianças e jovens para outro modelo de desenvolvimento. Em algumas escolas do Tocantins, o atendimento começa nas séries iniciais e prossegue até o ensino médio.
“Falar de escola do campo é falar da possibilidade de fortalecer um processo sustentável de produção e reprodução da vida”, afirmou.
Para o gestor, a formação das novas gerações ganha maior importância diante das mudanças climáticas e dos impactos de modelos produtivos que desconsideram os limites ambientais. A escola pode ajudar os estudantes a compreender que os recursos naturais não são infinitos.
Teoria aplicada ao trabalho no campo
Ana Luiza explicou que a EFA Dom Fragoso combina aulas teóricas com atividades práticas. Os estudantes dedicam diariamente duas horas ao trabalho de campo, uma pela manhã e outra no final da tarde.
Durante esse período, aplicam conhecimentos relacionados ao plantio, à adubação, ao manejo dos animais e à mecanização do solo. O trabalho prático permite observar os resultados das técnicas estudadas em sala e compreender como elas podem ser utilizadas nas propriedades familiares.
“Primeiro aprendemos teoricamente como fazer o manejo da terra e dos animais. Quando vamos para o campo, aplicamos os conhecimentos adquiridos em sala”, contou.
Na escola cearense, os estudantes também desenvolvem o Projeto de Vida da Família Camponesa. Ao longo dos três anos do ensino médio, cada jovem estuda as atividades de sua família e elabora uma proposta para fortalecer o que já existe ou iniciar um projeto sustentável.
Durante os períodos de alternância, os conhecimentos são testados nas propriedades e comunidades. Ao fim da formação, o estudante apresenta o projeto como parte do processo de conclusão do curso.
“Passamos os três anos adquirindo esses conhecimentos e, quando vamos para o tempo de alternância, aplicamos os aprendizados em casa e na comunidade”, explicou Ana Luiza.
Em outras EFAs, uma iniciativa semelhante recebe o nome de Projeto Profissional do Jovem. Apesar das diferentes denominações, o objetivo é aproximar a formação técnica de um plano concreto de trabalho e permanência no campo.
O desafio do financiamento público
Apesar de prestarem um serviço educacional de interesse público, as EFAs enfrentaram durante décadas dificuldades para obter financiamento regular. Idalgizo explicou que essas instituições são comunitárias, filantrópicas e geridas pelas associações das famílias.
Durante muito tempo, a manutenção dependeu principalmente das contribuições familiares, da mobilização comunitária e de parcerias que variavam conforme o estado ou o município. Algumas administrações ofereciam apoio mais consistente, enquanto outras interrompiam os repasses por longos períodos.
Segundo Idalgizo, as escolas vinculadas à pedagogia da alternância somente foram incluídas no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica, o Fundeb, em 2014. O reconhecimento abriu novas possibilidades, mas não eliminou todas as dificuldades.
“Só em 2014 as nossas escolas foram incluídas no Fundeb. Foram décadas de atuação até conseguirmos esse reconhecimento”, destacou.
Ele também mencionou como avanço a aprovação, pelo Conselho Nacional de Educação, das diretrizes para a pedagogia da alternância. A regulamentação contribuiu para reconhecer as especificidades do modelo dentro da educação brasileira.
Idalgizo defendeu que o recebimento de recursos públicos não retira o caráter comunitário das escolas. A gestão permanece sob responsabilidade das associações, com a participação dos pais, dos estudantes, dos educadores e das organizações parceiras.
“As escolas prestam um serviço público de educação. Elas não são estatais, são geridas pela comunidade. Essa é uma característica fundamental da Escola Família Agrícola”, explicou.
Permanecer no campo com dignidade
As experiências apresentadas no Bancos da Democracia mostram que a permanência das juventudes no campo depende de condições materiais. O reconhecimento da identidade camponesa precisa ser acompanhado por acesso à educação, trabalho, renda, cultura e serviços públicos.
Os jovens não querem permanecer nos territórios apenas como mão de obra destinada à produção agrícola. Eles reivindicam uma vida digna, com oportunidades de participação e autonomia.
“Nós não queremos ficar no campo apenas para produzir. Queremos viver, ter uma vida melhor e viver dignamente no campo”, afirmou Idalgizo ao relatar uma das principais reivindicações apresentadas em um encontro nacional da juventude rural.
Ana Luiza sintetizou esse propósito ao explicar como a EFA modificou sua relação com o território e com a própria formação. Para ela, a escola oferece muito mais do que as disciplinas do ensino médio e o conhecimento técnico.
“A EFA estimula o jovem a protagonizar sua vida na comunidade e na família. É um lugar de transformação”, concluiu.
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