Os governos petistas são neoliberais? Já passou da hora de encerrar essa discussão
por Edgar Silva dos Anjos
A controvérsia recente em torno do ensaio de Eduardo Luiz Zen, retomada por Luís Nassif e contestada por Valter Pomar, recoloca uma antiga questão da esquerda brasileira. Pouco antes, Pedro Paulo Zahluth Bastos havia proposto outra chave para enfrentá-la, ao tratar a contradição entre social-desenvolvimentismo e neoliberalismo como parte do próprio objeto; Elias Jabbour permite deslocar a régua para projeto nacional, desenvolvimento e soberania. Minha hipótese é que, depois de duas décadas, classificar a essência ideológica do lulismo explica cada vez menos. A pergunta mais produtiva é outra: o que uma estratégia transforma, que capacidades deixa acumuladas, que dependências reduz e quem fica mais forte para disputar o conflito seguinte.
Há discussões que sobrevivem porque o problema que procuram resolver permanece aberto. Outras sobrevivem porque, depois de certo tempo, passam a cumprir uma função diferente: organizam identidades, demarcam posições e permitem que cada corrente reconheça a si mesma diante das demais. A controvérsia sobre se os governos petistas são neoliberais está perigosamente próxima desse segundo caso. O neoliberalismo segue sendo categoria necessária para compreender o Brasil, e ainda assim o uso totalizante da palavra começou a produzir mais classificação do que explicação. Convém, desde o início, separar objetos que muitas vezes aparecem misturados nesse debate: uma coisa é o PT como partido e trajetória histórica; outra são os governos petistas, suas políticas, escolhas e coalizões; outra ainda é o lulismo como fenômeno político e social, com sua base, suas mediações e sua forma particular de organizar maiorias. Passar de um desses planos ao outro sem demonstrar a relação entre eles é uma das maneiras pelas quais a análise se torna mais abrangente do que precisa. Este artigo parte, portanto, da recusa de uma essência única e propõe avaliar estratégias por seus efeitos, pelas capacidades que acumulam e pela relação de forças que deixam depois de agir.
É perfeitamente possível identificar instituições, políticas e relações de poder de caráter neoliberal que atravessam os governos petistas. O poder do sistema financeiro, a autonomia do Banco Central, as restrições fiscais, a financeirização, a dependência de fluxos externos, determinadas privatizações e a subordinação de parcelas relevantes da política econômica às expectativas dos mercados não desaparecem porque o presidente se chama Lula. O problema começa quando a identificação dessas permanências deixa de ser parte da análise e passa a fornecer antecipadamente a natureza do todo. Nesse momento, neoliberalismo perde a função de categoria capaz de distinguir instituições, políticas e conflitos e se transforma numa espécie de essência política sob a qual todas as diferenças internas se tornam secundárias.
Se um governo petista é neoliberal por definição, pouco importa que haja valorização do salário mínimo ou sua compressão, expansão ou destruição de direitos, política industrial ou abandono deliberado da indústria, fortalecimento ou esvaziamento dos bancos públicos, expansão ou desmonte do ensino federal. Todas essas diferenças aparecem como variações menores de uma substância previamente identificada. A discussão, então, fecha-se sobre si mesma: o governo é neoliberal porque preserva estruturas neoliberais, e a preservação dessas estruturas comprova que o governo é neoliberal. Vinte anos depois, talvez seja permitido formular uma conclusão menos reverente diante desse ritual conceitual: a discussão, nesses termos, já deu o que tinha de dar.
Eduardo Luiz Zen a recolocou recentemente de forma especialmente ambiciosa ao procurar as raízes do neoliberalismo brasileiro nas próprias matrizes de formação do PT. Sua interpretação vai muito além da afirmação de que o partido, ao chegar ao governo, realizou concessões ou acomodou-se à ordem existente. A hipótese é que elementos posteriormente associados à adaptação neoliberal estariam presentes desde a formação petista: no sindicalismo do ABC, capaz de produzir intensa luta reivindicativa dentro das multinacionais sem formular crítica equivalente à dependência nacional; nas Comunidades Eclesiais de Base, que teriam favorecido a substituição do trabalhador organizado pelo pobre como sujeito privilegiado da política; em parcelas da intelectualidade paulista hostis ao nacional-desenvolvimentismo; nas organizações revolucionárias que subordinaram as reformas a uma ruptura futura; e, posteriormente, no autonomismo, na fragmentação dos movimentos, na centralidade de Lula e numa política de reconhecimento que teria substituído reformas estruturais.
A construção é intelectualmente poderosa, e é justamente por isso que merece ser examinada com cautela. Quando matrizes tão distintas entre si, como sindicalismo, cristianismo popular, marxismo revolucionário, intelectualidade universitária e movimentos autonomistas, terminam retrospectivamente conduzindo ao mesmo resultado, surge um problema metodológico difícil de ignorar. A história começa a adquirir a aparência de destino. O presente organiza o passado de tal maneira que quase tudo o que estava na origem já contém em germe aquilo que, décadas depois, será apontado como resultado. Uma teoria histórica precisa preservar a possibilidade de que os acontecimentos a contrariem. Quando nenhuma trajetória poderia ter produzido conclusão diferente, deixamos de interpretar a história e começamos a reconstruí-la como confirmação retrospectiva.
É nesse ponto que Valter Pomar acerta sua objeção principal. Entre o PT criado no final dos anos 1970 e o partido que chega à Presidência em 2003 existe mais do que o desenvolvimento de predisposições originais. Existe história: a derrota do socialismo soviético, a hegemonia neoliberal internacional, a reestruturação produtiva, a transformação do sindicalismo e da própria classe trabalhadora, as mudanças na inserção brasileira na economia mundial, as derrotas eleitorais, os governos municipais e estaduais, os conflitos internos, a mudança da composição social do partido e a alteração profunda do horizonte do que parecia politicamente possível. Reduzir esse percurso à revelação de uma essência já presente nas origens é retirar da política exatamente aquilo que lhe dá sentido: contingência, conflito, escolha e possibilidade de mudança. Essa é a função da objeção de Pomar neste argumento: não absolver decisões posteriores, mas impedir que o resultado seja projetado retrospectivamente sobre a origem.
Reconhecer as mediações históricas, porém, não converte contexto em absolvição. A correlação de forças explica por que um governo negocia, recua ou posterga determinadas disputas, sem demonstrar que todo recuo fosse inevitável nem que toda acomodação tenha sido necessária. A história não é destino e tampouco funciona como salvo-conduto. É dentro de seus limites que as escolhas são feitas, e essas escolhas podem ser criticadas justamente porque outras possibilidades, ainda que mais difíceis, poderiam existir. O mérito da crítica de Pomar está em devolver mediações ao processo; seu limite apareceria se essas mediações passassem a servir para retirar das decisões qualquer responsabilidade política.
É nesse ponto que a contribuição de Pedro Paulo Zahluth Bastos oferece, a meu ver, não apenas uma posição mais produtiva, mas um método. Publicado pouco antes da controvérsia desencadeada pelo texto de Zen, “O enigma de Lula 3” já partia de uma recusa das duas caracterizações homogêneas que organizam boa parte desse debate. Ao discutir o terceiro governo Lula, Bastos rejeita tanto sua definição simplesmente como neoliberal quanto sua descrição igualmente total como neodesenvolvimentista. O que aparece é uma combinação contraditória de orientações diferentes dentro do mesmo governo, cuja relação varia conforme a conjuntura, a disputa entre forças sociais e políticas e a correlação de poder existente dentro e fora do Estado. A formulação é importante porque retira a contradição da condição de ruído teórico e a transforma no próprio objeto da análise. Em vez de perguntar qual adjetivo define o governo, pergunta-se como orientações contraditórias coexistem, disputam instrumentos e produzem resultados diferentes.
Há política industrial, atuação do BNDES, reconstrução de políticas sociais, valorização do salário mínimo, investimentos em ciência, infraestrutura e transição ecológica, além de uma política externa que procura ampliar margens de autonomia brasileira. Ao mesmo tempo, persistem restrições fiscais relevantes, juros elevados, enorme poder da política monetária e instituições consolidadas durante décadas de hegemonia neoliberal. Nada obriga a teoria a escolher uma dessas dimensões e declarar a outra ilusória. A sociedade real admite aquilo que os rótulos totais têm dificuldade de aceitar: conflitos internos, resultados desiguais, políticas que avançam em um terreno e preservam limites importantes em outro. Se tudo for reduzido a neoliberalismo, a diferença entre os governos petistas e uma direita que pretende radicalizar privatização, austeridade, desregulação e retirada de direitos perde densidade analítica. Se tudo for apresentado como resistência ao neoliberalismo, desaparecem as permanências e escolhas que continuam reproduzindo mecanismos centrais dessa ordem.
O mesmo cuidado deveria ser aplicado ao conceito de conciliação. Caracterizar o lulismo como conciliatório não resolve a questão, apenas inaugura outra. O que exatamente está sendo chamado de conciliação? Presidencialismo de coalizão, frente política ampla, negociação com empresários, pacto distributivo, moderação programática, preservação de interesses dominantes, mediação institucional ou recuo diante de uma relação de forças desfavorável? Esses fenômenos não são idênticos, e reuni-los sob uma única palavra pode produzir o mesmo efeito de apagamento que ocorre quando toda a experiência de governo é definida por um único adjetivo.
Conciliação precisa ser tratada como um mecanismo possível de processamento e institucionalização de conflitos, e não como uma essência política que antecede a análise. Uma reforma pode nascer de intensa mobilização social e terminar em negociação parlamentar; pode resultar de uma maioria eleitoral, de pressão de movimentos, de uma decisão judicial, de uma crise ou da combinação entre várias dessas forças. Pode haver confronto duro na origem e composição no resultado. A questão substantiva, portanto, está em identificar quem participou da composição, o que foi preservado, o que foi transferido e em que posição os sujeitos saíram depois dela. Uma negociação gradual que transfira direitos, recursos, capacidade institucional ou poder pode produzir mais transformação do que um confronto retoricamente intenso cujo resultado final preserve a distribuição anterior de forças.
É aqui que a crítica de Zen encontra uma discussão ainda mais importante: o significado do próprio reformismo. Ao falar de uma “revolução contra as reformas”, ele chama atenção para uma dificuldade histórica real. Parte da tradição revolucionária aceitou reformas durante muito tempo como momentos subordinados a uma ruptura futura. Quando a ruptura deixou de constituir horizonte estrategicamente organizado, abriu-se uma lacuna: que teoria autônoma da transformação reformista permaneceu? O problema existe. A conclusão de que esse vazio desemboca necessariamente na administração neoliberal, porém, é muito menos evidente.
Parte da esquerda continua operando com uma definição estreita demais da palavra reforma. Parece que apenas merecem esse nome grandes transformações formalmente identificadas como Reforma Agrária, Reforma Tributária, Reforma Urbana ou Reforma Educacional. Todas são fundamentais, e ainda assim uma estratégia reformista não opera apenas por atos concentrados dessa natureza. Ela também transforma por acumulação de políticas, direitos, instituições, investimentos e alterações distributivas capazes de modificar, lentamente, o terreno em que os conflitos seguintes ocorrerão. Uma política continuada de valorização do salário mínimo altera a distribuição da renda; universidades e institutos federais construídos em regiões historicamente afastadas do ensino superior alteram a estrutura educacional; cotas modificam a composição de instituições antes social e racialmente muito mais restritas; sistemas de transferência de renda modificam a relação entre pobreza, cidadania e Estado. Isoladamente, cada medida pode parecer incremental. Observadas em conjunto e ao longo do tempo, elas modificam instituições, expectativas, trajetórias e possibilidades sociais. Reforma também é transformação acumulada.
Reconhecer isso não converte toda melhora em mudança estrutural. Exige uma régua capaz de perceber mais de uma dimensão do processo. Uma experiência pode avançar profundamente na renda e pouco na propriedade; democratizar o ensino superior e permanecer frágil na organização dos trabalhadores; criar instituições sociais duradouras e continuar dependente tecnologicamente; ampliar o consumo popular sem alterar suficientemente a concentração patrimonial; melhorar a vida de milhões e não produzir força política proporcional para defender os ganhos produzidos. O erro está em escolher uma dessas dimensões e elevá-la à condição de tribunal universal da transformação.
É precisamente por isso que considero necessária uma pergunta mais elementar e, ao mesmo tempo, mais exigente: o que mudou na vida concreta? A partir dela é possível perguntar o que permaneceu, o que virou direito, o que virou instituição, que capacidades foram criadas, que dependências foram reduzidas, quem passou a decidir algo que antes apenas recebia e, sobretudo, se a reforma deixou condições melhores para a reforma seguinte. A profundidade de uma política se mede tanto pelo benefício imediato que entrega quanto pelo que consegue sedimentar depois de sua realização. Uma reforma adquire densidade quando cria capacidades que tornam possível o movimento seguinte.
Essa régua obriga também a recolocar a vida material dentro da teoria. Para quem sempre teve alimentação garantida, a expansão do consumo pode ser descrita como integração de massas ao mercado. Para uma família que passou fome, comida escapa a qualquer abstração de economia política. Uma máquina de lavar aparece nas estatísticas como aquisição de um bem durável e pode devolver horas de trabalho doméstico a uma mulher. Uma motocicleta é mercadoria e pode significar duas horas diárias a menos dentro do transporte. Uma universidade pode ser interpretada como instituição de reprodução da força de trabalho e, simultaneamente, transformar radicalmente o conjunto de futuros possíveis para a primeira pessoa de uma família que chega ao ensino superior. A permanência das estruturas profundas do capitalismo não torna essas mudanças irrelevantes; da mesma forma, a profundidade da mudança vivida por uma família não dissolve as estruturas que continuam limitando sua autonomia. Uma boa teoria precisa enxergar ambas as escalas ao mesmo tempo. A vida concreta não substitui propriedade, classe, soberania ou estrutura produtiva como critérios; impede apenas que qualquer um deles reivindique sozinho o monopólio do significado de transformação.
O mesmo vale para a crítica segundo a qual o lulismo teria produzido melhora material sem produzir consciência política correspondente. A premissa contém uma expectativa estranha sobre a função de um governo democrático. Formação política não é produto exclusivo do Estado. Ela ocorre na família, no trabalho, na escola, na universidade, na igreja, no sindicato, nos movimentos, nos partidos, na cultura, no território, nos meios de comunicação e, cada vez mais, nas plataformas digitais. Uma universidade pública pode formar comunistas, liberais, conservadores ou intelectuais que façam carreira criticando o governo responsável por expandir aquela universidade. Isso demonstra que uma política democrática produz capacidade, e não fidelidade ideológica. Transformar a organização política da sociedade em cobrança exclusiva ao governo seria apenas uma forma diferente de retirar de partidos, movimentos, intelectuais e organizações populares a responsabilidade pela disputa política propriamente dita.
É nesse terreno que a crítica ao lulismo começa, em alguns casos, a cobrar demais do objeto que analisa e de menos da alternativa que afirma representar. Tenho chamado de “monocausalidade com prólogo complexo” um procedimento que aparece com frequência: a análise menciona crise econômica, Judiciário, Lava Jato, empresários, meios de comunicação, igrejas, militares, redes digitais, transformações internacionais e reorganização da extrema direita, e no momento de distribuir peso causal a complexidade se estreita e a moderação petista reaparece como eixo principal da derrota. O múltiplo aparece na introdução e a causalidade se afunila no desfecho.
Há ainda uma segunda substituição, mais politicamente relevante. Quando uma corrente possui enorme capacidade de diagnóstico, mas não constrói presença territorial, organização popular e força social em escala proporcional à crítica que realiza, a denúncia tende a crescer para ocupar esse espaço. Criticar o lulismo deixa de ser instrumento de uma estratégia e passa a organizar identidade política. A radicalidade do diagnóstico oferece fronteira, coesão e distinção, sem necessariamente produzir base, capilaridade ou maioria. É nesse momento que a crítica, ainda que correta em diversos pontos, passa a explicar mais do que constrói.
Esse procedimento produz uma consequência adicional: diminui a agência histórica da direita. O bolsonarismo não pode ser deduzido das insuficiências do lulismo. Sua ascensão dependeu de agentes concretos, com recursos, organizações, meios de comunicação, igrejas, empresários, forças de segurança, influenciadores, plataformas, redes internacionais e uma capacidade própria de transformar ressentimentos em linguagem política de massa. A direita organiza, aprende, recalibra sua estética, altera sua linguagem e procura novos meios de circulação. Sua capacidade de adaptação deveria ser estudada como ação política, e não apenas como consequência passiva dos limites da esquerda. Transformar a extrema direita em efeito privilegiado da insuficiência lulista significa, paradoxalmente, conceder-lhe menos inteligência histórica do que ela demonstrou possuir.
Chega, então, um momento em que a própria crítica precisa apresentar uma conta. Se os governos petistas são apenas administração neoliberal acrescida de política social, qual força foi efetivamente organizada para superá-los? Se sua moderação constitui o grande obstáculo histórico da esquerda brasileira, onde está a maioria organizada por uma estratégia superior? Que sindicatos, movimentos, territórios, instituições e formas de organização foram produzidos em escala suficiente para sustentar o conflito que essa estratégia exigiria? Qual projeto alternativo conseguiu se transformar em força social comparável à força que pretende substituir? Uma teoria pode estar correta sobre os limites do reformismo e ainda produzir uma estratégia politicamente incapaz de superá-lo. Pode possuir horizonte mais ambicioso e força social menor. A superioridade do programa não transfere automaticamente superioridade histórica à organização que o formula.
É nessa direção que tenho utilizado a expressão “comunismo de estúdio”. Não se trata de um nome para a esquerda radical como um todo. Tampouco designa uma posição programática específica: designa uma relação entre discurso e lastro organizativo. Existem organizações revolucionárias que atuam em ocupações, movimentos de moradia, sindicatos e territórios populares e que submetem sua crítica ao reformismo ao trabalho real de construir organização. A expressão pretende nomear outra coisa: uma forma de radicalidade em que o principal terreno de validação se desloca da construção para o circuito discursivo. Quando a contundência do diagnóstico, a pureza da fronteira e a hostilidade ao campo progressista realmente existente passam a fornecer mais prestígio do que a capacidade de organizar povo, o discurso deixa de mediar a política e começa a substituir aquilo que deveria produzir. O problema, portanto, não é a radicalidade do programa, mas a radicalidade sem lastro, sem consequência histórica proporcional à intensidade de seu juízo.
Se a régua proposta até aqui é aquilo que uma política consegue deixar acumulado, ela não pode parar no indivíduo, no grupo social ou na instituição. Precisa alcançar também a capacidade do próprio país. É aqui que a análise muda de escala. Luís Nassif e Elias Jabbour ajudam a recolocar a discussão num terreno nacional: Nassif, embora tenha acolhido de maneira muito favorável a interpretação de Zen, termina sua própria reflexão apontando para a necessidade de recuperar planejamento, política industrial e projeto nacional. Esse deslocamento é mais relevante do que a classificação inicial porque nos obriga a abandonar a procura da essência dos governos petistas e perguntar o que o Brasil precisa construir para reduzir materialmente sua subordinação.
Elias Jabbour cumpre aqui uma função específica: ampliar a régua da capacidade acumulada até a escala da soberania nacional. Ao recolocar planejamento, indústria, tecnologia e capacidade estatal no centro de um projeto nacional, sua contribuição permite conectar reforma social e autonomia material do país. A questão não está em reeditar o desenvolvimentismo do século XX. A condição periférica contemporânea envolve dependências tecnológicas, financeiras, digitais, monetárias e produtivas que alteram o próprio conteúdo da soberania. Um país pode distribuir renda e continuar tecnologicamente dependente; pode expandir universidades e formar pesquisadores para uma economia incapaz de absorvê-los; pode ampliar o consumo popular e aumentar a importação de bens tecnologicamente complexos; pode construir direitos sociais sobre uma base produtiva incapaz de sustentá-los no longo prazo. É por isso que reforma social, desenvolvimento e soberania precisam ser tratados como partes do mesmo encadeamento.
A linguagem das capacidades ajuda a tornar essa conexão mais precisa. Uma pessoa amplia sua capacidade quando dispõe de renda, saúde, educação, tempo e condições materiais para realizar escolhas. Uma organização acumula capacidade quando possui recursos, conhecimento, autonomia e inserção. O Estado acumula capacidade quando consegue planejar, regular, financiar, administrar e executar decisões. Uma economia acumula capacidade quando domina tecnologia, infraestrutura, cadeias produtivas, conhecimento e instrumentos de financiamento. Um país acumula soberania quando aumenta sua possibilidade de decidir sobre essas dimensões sem depender permanentemente de centros externos de poder. Nesse sentido, soberania pode ser entendida como capacidade acumulada em escala nacional.
Isso permite avaliar política industrial, ciência, infraestrutura e tecnologia de maneira semelhante à que avaliamos as demais reformas. Uma política industrial ganha densidade estrutural quando deixa trabalhadores qualificados, fornecedores, infraestrutura, tecnologia, conhecimento, engenharia e capacidade estatal capazes de sobreviver à política inicial, e não apenas quando aumenta a produção enquanto o incentivo está vigente. O país precisa terminar o processo com mais opções do que possuía antes dele. Quando isso não acontece, pode haver expansão da atividade econômica sem que se consolide desenvolvimento no sentido mais exigente da palavra.
A política cultural oferece uma imagem útil para compreender o mesmo mecanismo. O Estado brasileiro tornou-se relativamente competente em abrir portas: reconhece agentes, cria editais, distribui recursos, amplia participação e alcança territórios antes ignorados. A dificuldade aparece na janela por onde o valor produzido pode escapar. Financia-se o artista, mas quem controla a plataforma? Produz-se a obra, mas quem controla a distribuição? Reconhece-se o território, mas quem acumula os dados? O projeto acontece, mas quem fica com a infraestrutura? O problema está no edital sozinho. Reconhecimento sem capacidade permanece frágil; acesso sem infraestrutura pode desaparecer; renda sem mudança produtiva encontra limites; desenvolvimento sem soberania pode ampliar atividade sem ampliar autonomia.
É nesse sentido que reformismo e ruptura precisam deixar de funcionar como identidades políticas e voltar a ser estratégias submetidas a critérios comuns. O critério não é a pureza do nome, mas a capacidade de deslocar relações de força e deixar acumulados direitos, organização, instituições, capacidade estatal, capacidade produtiva e soberania. Uma estratégia revolucionária precisa demonstrar que força social pode realizar e sustentar a ruptura que anuncia. Uma estratégia reformista precisa demonstrar o que suas políticas conseguiram sedimentar, que dependências reduziram, que capacidades criaram e em que medida modificaram o terreno da disputa seguinte. Nenhuma delas recebe certificado de superioridade apenas pelo nome que utiliza. Ruptura sem força social permanece proclamação; reformismo que não converte melhora em capacidade acumulada termina administrando os limites que encontrou. Entre essas possibilidades está o trabalho concreto da política, que combina conflito, organização, mediação, institucionalização, avanço, recuo e aprendizado histórico.
É por isso que considero que a discussão sobre se os governos petistas são neoliberais deveria ser encerrada, ao menos na forma totalizante em que continua sendo repetida. Existem estruturas neoliberais dentro desses governos e suas escolhas merecem crítica, e ainda assim transformar neoliberalismo numa definição da natureza inteira do lulismo deixou de produzir as distinções de que precisamos. Depois de duas décadas, essa controvérsia já gerou bibliotecas, seminários, podcasts, teses e correntes políticas inteiras. Produziu bastante classificação. O que não produziu, por si mesma, foi uma estratégia historicamente superior.
A história exige perguntas menos confortáveis. Quem organizou? O que mudou de mão? Que direitos sobreviveram? Que instituições permaneceram? Que capacidade produtiva foi criada? Que dependência foi reduzida? Que organização social saiu mais forte? Que Estado ficou mais capaz de agir? Em que posição as classes populares chegaram ao conflito seguinte? Essas perguntas precisam atingir o reformista e o revolucionário com a mesma severidade, porque nenhuma teoria política pode reivindicar para si uma dispensa histórica que recusaria ao adversário.
Existe, afinal, um tribunal mais duro que o da pureza ideológica: o da vida concreta. Nele vivem pessoas que trabalham, atravessam a cidade, criam filhos, pagam aluguel, frequentam igrejas, usam plataformas, produzem cultura, têm medo da violência, procuram segurança e tentam imaginar algum futuro possível. Uma teoria da transformação que não consegue relacionar suas categorias ao tempo, às necessidades e às formas de organização dessas pessoas pode continuar intelectualmente sofisticada, mas terá dificuldades crescentes para funcionar como política.
Uma esquerda que descreve com precisão o neoliberalismo, mas não organiza força para superá-lo, possui um diagnóstico sem ter demonstrado uma estratégia. Uma esquerda que melhora a vida, mas não transforma essa melhora em direitos, instituições, organização, capacidade produtiva, capacidade estatal e soberania, demonstra capacidade de governo sem ter produzido transformação suficiente. A régua precisa alcançar ambas, porque a primeira não pode transformar sua incapacidade de construir força em prova de pureza, e a segunda não pode converter a dificuldade de enfrentar estruturas de poder em justificativa permanente para seus próprios limites.
Daí decorre uma consequência programática: uma esquerda que pretenda governar e transformar precisa tratar melhora material, organização popular, capacidade estatal, desenvolvimento produtivo e soberania como partes de uma mesma estratégia. Separadas, essas dimensões encontram seus próprios limites; encadeadas, podem tornar a reforma seguinte mais possível e o conflito seguinte menos desigual. Acumular capacidade, nesse sentido, não é moderar o horizonte da transformação, mas construir as condições materiais, institucionais e políticas para ampliá-lo.
Por isso, depois de tantos anos perguntando se os governos petistas são neoliberais, talvez devamos finalmente trocar de pergunta. O que mudou, o que permaneceu, quem passou a decidir e que futuro se tornou possível depois daquilo que conseguimos fazer no presente são questões mais difíceis do que identificar a verdadeira natureza do lulismo, justamente porque obrigam cada estratégia a responder por seus resultados e por sua força.
Sem resposta a elas, poderemos continuar discutindo indefinidamente qual é a verdadeira natureza do lulismo. O Brasil, porém, continuará impondo uma pergunta menos confortável: que força existe, hoje, para transformar aquilo que todos nós já aprendemos a criticar?
Edgar Silva dos Anjos, professor de Filosofia, ensaísta e articulista, com trabalhos publicados em Le Monde Diplomatique Brasil, Folha de S.Paulo, Outras Palavras, Brasil de Fato e no próprio Jornal GGN.
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