Oposição venezuelana reage a plano dos EUA para controlar campos de petróleo

A revelação de que os Estados Unidos negociam uma participação direta em parte das maiores reservas de petróleo da Venezuela provocou forte reação entre integrantes da oposição ao governo de transição liderado por Delcy Rodríguez.

Políticos, economistas e analistas classificaram a proposta como uma “apropriação territorial”, “predatória” e incompatível com a Constituição venezuelana.

Segundo reportagem do The Guardian, as críticas surgiram após uma série de veículos americanos revelar que o governo Donald Trump mantém negociações avançadas com autoridades venezuelanas para garantir acesso de longo prazo aos campos petrolíferos do país.

As conversas indicam que a negociação envolve mais de uma dúzia de campos com mais de 65 bilhões de barris de reservas, concentradas na Faixa Petrolífera do Orinoco e na região do Lago Maracaibo. Uma das propostas discutidas considera uma concessão de até 100 anos sobre parte dessas áreas.

A iniciativa ocorre poucos meses depois da captura de Nicolás Maduro por forças americanas, em janeiro, e da instalação de um governo interino presidido por Delcy Rodríguez, que já ocupava os cargos de vice-presidente e ministra do Petróleo.

Críticas falam em “colonialismo energético”

A reação mais dura veio justamente de setores oposicionistas que apoiaram a saída de Maduro, mas passaram a questionar o rumo adotado por Washington.

Uma liderança da oposição, ouvida pelo Guardian sob condição de anonimato, classificou o projeto como “uma gigantesca apropriação de terras” e afirmou que a postura americana lembra uma lógica mafiosa, distante do papel histórico que os Estados Unidos exerceram na reconstrução europeia do pós-guerra.

Em entrevista ao jornal britânico, o historiador Gregory Brew, analista da Eurasia Group, afirma que a proposta lembra as grandes concessões petrolíferas concedidas a empresas anglo-persas no início do século XX, quando governos locais transferiam amplos direitos de exploração em troca de benefícios limitados.

Segundo Brew, o interesse da administração Trump não seria apenas econômico, mas estratégico: controlar parte significativa das reservas venezuelanas significaria impedir que países como China e Rússia tenham acesso privilegiado a uma das principais fontes de petróleo do mundo.  “Parece colonial porque é”, afirmou;

A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, estimadas em 303 bilhões de barris, superando Arábia Saudita e Irã – o que transforma qualquer acordo sobre seus hidrocarbonetos em uma decisão de alcance geopolítico muito além da América Latina.

A discussão também ocorre em meio ao redesenho da política externa americana para a América Latina, descrita por analistas como uma adaptação contemporânea da Doutrina Monroe. Nesse contexto, Washington busca reduzir a influência chinesa na região combinando pressão econômica, presença militar e controle sobre recursos considerados estratégicos.

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