Onda bolsonarista derrota candidatos das grandes igrejas evangélicas

Da Redação

A onda bolsonarista que marcou as eleições de 2026 produziu um resultado inesperado para algumas das maiores denominações evangélicas do país. Apesar do avanço de candidaturas identificadas com a direita, representantes escolhidos ou apoiados institucionalmente por grandes igrejas perderam espaço nas urnas, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. O levantamento foi publicado pelo jornalista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, nesta segunda-feira (5).

Um dos casos mais expressivos ocorreu na Assembleia de Deus do Brás, ligada ao Ministério de Madureira, liderado pelo pastor Samuel Ferreira. A denominação pretendia eleger quatro deputados em São Paulo, mas nenhum dos candidatos institucionais alcançou uma vaga. Até Cezinha de Madureira (PL), que já ocupava uma cadeira na Câmara dos Deputados, não conseguiu a reeleição. Ele recebeu 60.596 votos, terminou na 21ª posição entre os candidatos do PL no Estado e ficou como segundo suplente.

O desempenho dos candidatos ligados ao Ministério de Madureira ficou muito abaixo do registrado em 2022. Oseias de Madureira, por exemplo, havia recebido 137 mil votos naquela eleição e agora obteve cerca de 42 mil. Elias de Madureira alcançou 32 mil votos, enquanto Rogério de Madureira, candidato a deputado federal pelo interior paulista, recebeu 31 mil. Pastora Sanda Alves, outra candidatura institucional apoiada pela denominação, também não foi eleita e ficou como primeira suplente da Federação União Progressista.

O contraste aparece no desempenho de Alex Madureira. Embora tenha mantido o sobrenome político associado à denominação, ele se afastou da igreja de Samuel Ferreira e quase dobrou sua votação. Foi eleito para a Assembleia Legislativa de São Paulo pelo PL com 122 mil votos. O resultado sugere que a identificação partidária com a direita permaneceu eleitoralmente forte, mas o controle institucional das igrejas sobre seus próprios candidatos não acompanhou necessariamente esse movimento.

Quatro filhos de RR Soares ficam sem mandato

Outra derrota expressiva ocorreu entre candidatos ligados ao pastor RR Soares, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus. Os quatro filhos do religioso que buscavam a reeleição não conseguiram novo mandato.

Em São Paulo, David RR Soares ficou em décimo na lista do Podemos, partido que elegeu seis deputados federais no Estado. Daniel Soares terminou em 14º na chapa da federação formada por Progressistas e União Brasil, que elegeu nove deputados.

No Rio de Janeiro, Felipe RR Soares ficou como segundo suplente para deputado estadual, enquanto Marcos RR Soares terminou como terceiro suplente na disputa para a Câmara dos Deputados. André RR Soares também não conseguiu se eleger para o Senado. Seu primo, Marcelo Crivella, ex-prefeito do Rio, teve 3,39% dos votos na disputa.

A Igreja Universal do Reino de Deus teve resultado diferente. Marcos Pereira, presidente nacional do Republicanos, foi reeleito deputado federal por São Paulo. Já Edna Macedo, irmã do bispo Edir Macedo, perdeu o mandato e terminou como quinta suplente para a Assembleia Legislativa paulista.

A Igreja do Evangelho Quadrangular também tentou ampliar sua presença política por meio de duas candidaturas ao Legislativo paulista, ambas pelo PL. Lucas Flores recebeu 52 mil votos e Suéli Gonçalves, 44 mil, mas nenhum dos dois conseguiu uma cadeira. Jefferson Campos, por outro lado, foi eleito e seguirá para seu sétimo mandato em Brasília.

Direita cresce, mas voto religioso fica menos controlado

O resultado chama atenção porque ocorre no mesmo momento em que o PL se fortalece nacionalmente. A legenda terá 28 senadores a partir de 2027 e ampliou sua presença também na Câmara dos Deputados. O crescimento da direita, portanto, não se traduziu automaticamente em fortalecimento das candidaturas apresentadas pelas estruturas tradicionais das grandes igrejas.

O fenômeno descrito pelo Metrópoles aponta para uma mudança na relação entre religião organizada e voto conservador. Candidatos podem continuar mobilizando pautas defendidas por parcelas expressivas do eleitorado evangélico sem necessariamente depender da indicação formal de uma denominação. A força eleitoral de determinadas igrejas, por sua vez, pode não ser suficiente para garantir a eleição dos nomes escolhidos por suas lideranças.

O caso de Alex Madureira é particularmente ilustrativo. Depois de se afastar da denominação de Samuel Ferreira, ele ampliou sua votação e manteve a cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo. O desempenho contrasta com o fracasso de outros candidatos apresentados como representantes institucionais da mesma igreja.

O resultado não significa perda de influência política das igrejas evangélicas como um todo. Algumas denominações preservaram representantes no Congresso e nas assembleias estaduais. O Ministério do Belém da Assembleia de Deus, por exemplo, conseguiu reeleger Marta Costa para a Assembleia Legislativa paulista e eleger Paulo Freire para a Câmara dos Deputados.

O que a eleição de 2026 revela é uma diferença entre a força eleitoral do campo conservador e a capacidade das grandes denominações de transferir votos para candidatos específicos. O eleitor identificado com a direita pode continuar apoiando o projeto político bolsonarista sem necessariamente seguir a orientação eleitoral de uma liderança religiosa.

Esse resultado ajuda a compreender uma transformação relevante no campo conservador brasileiro. A política evangélica continua tendo peso, mas o voto de seus fiéis parece menos subordinado às candidaturas oficialmente escolhidas pelas estruturas das igrejas. A onda bolsonarista, nesse sentido, produziu uma situação paradoxal: fortaleceu a direita enquanto derrotou vários dos candidatos que grandes denominações haviam organizado para representá-la institucionalmente.

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