O voto estratégico volta ao centro das eleições no RS, por Benedito César

no RED – Rede Estação Democracia

O voto estratégico volta ao centro das eleições no RS

por Benedito Tadeu César

União entre brizolistas e petistas, força da direita bolsonarista e candidaturas de centro recolocam o voto estratégico no centro da disputa pelo Piratini e pelas duas vagas do Senado.

A união entre brizolistas e petistas, a direita bolsonarista e as forças de centro compõem o cenário no qual o eleitor gaúcho poderá exercer a disposição já demonstrada em eleições anteriores de mudar o voto a fim de decidir quem chega — e quem não chega — ao poder

Se existe uma característica que ajuda a compreender as últimas eleições para o governo do Rio Grande do Sul, ela é a disposição do eleitor gaúcho para o voto estratégico. Partidos e ideologias importam, mas, quando a disputa se afunila, uma parcela relevante do eleitorado mostra disposição para atravessar fronteiras partidárias a fim de impedir a vitória do candidato que mais rejeita. Em 2026, esse comportamento pode voltar ao centro da eleição, mas em um novo tabuleiro.

Pela primeira vez em décadas, as duas grandes tradições político-partidárias do campo dos trabalhadores gaúchos chegam reunidas à disputa pelo Piratini. Juliana Brizola (PDT) concorre ao governo tendo Edegar Pretto (PT) como vice. Manuela d’Ávila (PSOL) e Paulo Pimenta (PT) disputam as duas vagas para o Senado pelo mesmo campo, que apoia Lula para um quarto mandato.

Na direita, Luciano Zucco (PL), com Silvana Covatti (PP) de vice, procura reunir o eleitorado conservador em torno de uma candidatura associada ao bolsonarismo e a Flávio Bolsonaro. Sanderson (PL) e Marcel van Hattem (Novo) disputam o Senado nesse campo.

Entre os dois polos, Gabriel Souza (MDB), com Ernani Polo (PSD) de vice, procura preservar o espaço ocupado por Eduardo Leite, enquanto Germano Rigotto (MDB) e Frederico Antunes (PSD) concorrem ao Senado. Há ainda Marcelo Maranata (PSDB), com Cláudio Diaz (PSDB) de vice, tentando reconstruir um espaço próprio para o PSDB. Milton Cardoso (PSDB) e Renato Jaguarão (Cidadania) concorrem ao Senado pela Federação PSDB-Cidadania.

A semelhança com a eleição nacional está sobretudo nos dois polos: Lula e Flávio Bolsonaro encontram correspondência estadual nos campos de Juliana e Zucco. A diferença é que, no RS, forças intermediárias com estrutura e história eleitoral podem interferir nessa polarização. É justamente aí que o voto estratégico pode novamente pesar.

Como funcionou o voto estratégico em 2022

A eleição de 2022 talvez seja a melhor demonstração desse comportamento. Onyx Lorenzoni venceu o primeiro turno com 37,50% dos votos, Eduardo Leite recebeu 26,81% e Edegar Pretto ficou imediatamente atrás, separado de Leite por apenas 2.441 votos. O campo trabalhista estava novamente dividido: Vieira da Cunha (PDT) obteve 101.611 votos, 1,60% dos válidos. Não há como saber quantos desses votos migrariam para Pretto, mas eram mais de 40 vezes a diferença que o separou do segundo turno.

No segundo turno, sem candidato próprio, grande parte do eleitorado de esquerda convergiu para Leite para impedir a eleição de Onyx. O candidato que entrara na disputa quase 680 mil votos atrás acabou vencendo. Leite tornou-se, assim, o instrumento do voto estratégico anti-Onyx.

Na eleição para o Senado, a mesma lógica operou no campo ideológico oposto. A menos de 72 horas da votação, Comandante Nádia (PP) retirou sua candidatura e apoiou Hamilton Mourão (Republicanos) para concentrar o voto da direita e impedir a vitória de Olívio Dutra (PT). Funcionou: Mourão foi eleito.

Não houve, portanto, inversão da lógica do fenômeno, mas do campo político que o utilizou. Para governador, eleitores de esquerda deslocaram votos para o centro a fim de derrotar a direita bolsonarista; para o Senado, a direita concentrou votos para derrotar a esquerda. Nos dois casos, impedir a vitória do adversário prevaleceu sobre a preferência original. Essa é uma das chaves para compreender 2026.

Brizola e PT, finalmente do mesmo lado

Durante décadas, brizolismo e petismo foram próximos ideologicamente e adversários eleitoralmente no Rio Grande do Sul. A disputa remonta aos anos 1980, quando Alceu Collares representava a grande força do trabalhismo brizolista e Olívio Dutra emergia como principal liderança do PT. As duas correntes disputaram bases sociais semelhantes, sindicatos, movimentos populares e parcelas do eleitorado progressista.

Agora, uma Brizola terá um petista como vice. E o sobrenome não é um detalhe. Leonel Brizola governou o Rio Grande do Sul entre 1959 e 1963, liderou do Palácio Piratini a Campanha da Legalidade, fundou posteriormente o PDT e foi eleito duas vezes governador do Rio de Janeiro. Poucos nomes possuem peso simbólico comparável na história política gaúcha.

Juliana herda esse patrimônio acompanhada justamente pelo partido que durante décadas disputou com o PDT a liderança da esquerda estadual. O slogan “Lula lá, Brizola aqui” resume a mudança. Os oito partidos da aliança — PDT, PT, PSOL, PCdoB, PSB, PV, Rede e Avante — procuram transformar em força conjunta votos que anteriormente chegaram divididos às urnas.

Não existe soma automática de eleitorados, mas desaparece uma fragmentação que repetidamente facilitou a vida dos adversários, principalmente os de centro. Um amplo campo trabalhista e democrático começou, portanto, a ser organizar antes da eleição, através da aliança partidária.

Os azarões e a terceira via

O Rio Grande do Sul possui uma história peculiar de candidatos que começaram pequenos e terminaram no Piratini. Em agosto de 2002Germano Rigotto tinha apenas 4,5% das intenções de voto, enquanto Antônio Britto aparecia com 40,6% e Tarso Genro com 32,3%. Rigotto cresceu vertiginosamente e venceu o primeiro turno com 41,17%, antes de derrotar Tarso no segundo.

Em 2006Yeda Crusius também começou muito atrás dos favoritos: tinha apenas 8% em maio e continuava distante da liderança durante boa parte da campanha. Terminou o primeiro turno em primeiro lugar, com 32,90%, e depois derrotou Olívio Dutra. Em 2018Eduardo Leite aparecia com 8% no Ibope de agosto, contra 19% de José Ivo Sartori. Cresceu, venceu o primeiro turno com 35,9% dos votos válidos e chegou ao governo.

São três eleições em que candidatos inicialmente distantes da liderança terminaram no Palácio Piratini. Suas vitórias resultaram de circunstâncias diferentes, mas combinaram força própria, alianças, rejeição aos adversários e, em graus distintos, o voto estratégico movido pelo antipetismo que ganhou força no Rio Grande do Sul. A divisão do campo trabalhista também abriu oportunidades.

Leite é particularmente ilustrativo. Em 2018, declarou voto em Jair Bolsonaro contra Fernando Haddad; depois, afastou-se do bolsonarismo e procurou construir trajetória própria. Passou a ocupar uma posição capaz de receber votos antipetistas e, ao mesmo tempo, votos de centro e da esquerda quando o adversário era o bolsonarismo. Em 2022, isso foi decisivo para sua reeleição.

A história recomenda, portanto, cautela com fotografias tiradas no começo da campanha. A Quaest de 30 de julho colocava Juliana com 24%, Zucco com 22%, Gabriel com 6% e Maranata com 3%, mas 62% dos entrevistados diziam que ainda poderiam mudar o voto.

Gabriel e a força do governo

Gabriel Souza tentará ocupar o espaço de Leite e dispõe de recursos políticos importantes para crescer. É vice-governador, conta com o empenho de Eduardo Leite, com a máquina do governo e com a capilaridade do MDB e de seus prefeitos. Seu vice, Ernani Polo, ex-PP, ex-presidente da Assembleia Legislativa e ex-secretário estadual, amplia as pontes da chapa com o Interior e setores conservadores.

Há, porém, uma diferença importante em relação às eleições anteriores: parte da base de Leite tomou outro caminho. O PDT de Juliana integrou o governo estadual de Leite e agora lidera a principal candidatura do campo trabalhista e de esquerda.

Gabriel ocupa, por isso, posição central na lógica do voto estratégico. Se enfrentar Zucco no segundo turno, poderá receber votos da esquerda para barrar o bolsonarismo; se enfrentar Juliana, poderá concentrar votos antipetistas e de parte da direita. Se não chegar ao segundo turno, a pergunta se inverte: para onde irão seus votos? Uma parcela poderá migrar para Zucco, enquanto outra, de centro e antibolsonarista, poderá preferir Juliana. Gabriel pode, portanto, receber voto estratégico ou fornecer os votos que decidirão a eleição.

Maranata introduz uma quarta variável

Marcelo Maranata acrescenta outra variável. O PSDB não é periférico na história recente do Estado: Yeda e Leite chegaram ao Piratini pelo partido. Porém, agora, Leite está no PSD e seu sucessor político disputa pelo MDB.

Maranata tenta reconstruir o espaço perdido do PSDB. Seus atuais índices são pequenos, mas o passado de azarão de Rigotto, Yeda e Leite demonstra por que isso não encerra a discussão. Se não crescer, seus votos também poderão se tornar relevantes na disputa pela passagem ao segundo turno.

A direita gaúcha não nasceu com Bolsonaro

Seria um erro explicar a força de Luciano Zucco apenas pelo bolsonarismo. O Rio Grande do Sul possui uma direita historicamente forte, e Bolsonaro conseguiu reorganizar boa parte desse eleitorado sob uma identidade mais radicalizada e nacionalmente articulada.

Zucco procura converter essa força em vitória estadual. O paralelo nacional é evidente: Flávio Bolsonaro tenta herdar o eleitorado construído pelo pai; Zucco procura fazer o mesmo no RS. E 2022 demonstrou que, quando identifica risco de derrota, a direita gaúcha sabe concentrar votos. O caso Nádia-Mourão é o exemplo mais evidente.

Dois votos para o Senado

O Rio Grande do Sul elegerá dois senadores, e essa disputa tornou-se parte central das estratégias nacionais. Pelo campo de Juliana e Lula concorrem Manuela d’Ávila e Paulo Pimenta. Na direita bolsonarista estão Sanderson e Marcel van Hattem. O campo de Gabriel apresenta Germano Rigotto e Frederico Antunes, enquanto a Federação PSDB-Cidadania concorre com Milton Cardoso e Renato Jaguarão.

As alianças para governador, porém, não reproduzem perfeitamente as posições ideológicas dos candidatos ao Senado. Embora esteja no PSDB, Cardoso aproxima-se da direita radical: defendeu a cassação de ministros do STF e chegou a propor mobilização para levar Alexandre de Moraes à prisão. Jaguarão também adotou posições duras contra o Supremo e defendeu o impeachment de ministros, embora apresente perfil menos radicalizado. Na questão institucional, portanto, ambos se aproximam de Sanderson e Van Hattem.

Manuela e Pimenta tentarão concentrar os dois votos da esquerda; Sanderson e Van Hattem farão movimento semelhante à direita. Rigotto e Frederico buscarão preservar espaço próprio, enquanto Cardoso e Jaguarão podem fragmentar parcelas do eleitorado conservador. Se essa fragmentação ameaçar as candidaturas mais competitivas da direita, o precedente Nádia-Mourão estará novamente sobre a mesa.

O projeto bolsonarista para o Senado

Para o bolsonarismo, conquistar uma bancada numerosa no Senado tornou-se prioridade. A ofensiva contra integrantes do STF integra a estratégia desse campo, e uma bancada numerosa seria importante para avançar sobre pedidos de impeachment de ministros e iniciativas destinadas a beneficiar Jair Bolsonaro e condenados pelos atos golpistas de janeiro de 2023.

Há também uma dimensão diretamente ligada à eleição presidencial. Caso Lula seja reeleito para um quarto mandato, uma maioria de direita no Senado teria instrumentos para dificultar sua governabilidade, bloquear indicações e aumentar a pressão sobre o Executivo e o STF. As duas cadeiras gaúchas, portanto, participam diretamente da disputa pela correlação nacional de forças a partir de 2027.

O que muda em 2026

A diferença fundamental está na configuração dos campos antes mesmo de o eleitor começar a pensar em deslocar seu voto. O campo trabalhista e de esquerda chega unido; a direita, forte e em grande parte integrada ao bolsonarismo; Gabriel dispõe da imagem política de centro e da força de uma candidatura governista; e Maranata procura reconstruir uma alternativa própria do PSDB.

O voto estratégico pode ocorrer agora pela disputa sobre quem chegará ao segundo turno e quem será o adversário a impedir. Gabriel ocupa posição especialmente importante: pode receber votos de esquerda contra Zucco ou votos antipetistas contra Juliana; se for eliminado no primeiro turno, seus eleitores poderão ser decisivos. Os votos de Maranata também poderão ser disputados à medida que se consolide a percepção sobre a viabilidade das candidaturas.

No Senado, essa lógica começa já no primeiro turno, porque são dois votos e vários candidatos disputando eleitorados parcialmente sobrepostos. A eleição presidencial, por sua vez, começa polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro. A eleição gaúcha incorpora essa polarização, mas acrescenta candidatos de forças intermediárias com peso e uma história própria de deslocamentos estratégicos.

Mas uma das variáveis mais persistentes dessa história mudou. Depois de décadas de competição entre as tradições simbolizadas por Alceu Collares e Olívio Dutra, brizolistas e petistas chegam juntos à disputa pelo Piratini sob um slogan que sintetiza a nova configuração: “Lula lá, Brizola aqui.”

Resta saber como o eleitor gaúcho — que tantas vezes votou não apenas para escolher quem queria, mas também para impedir quem não queria — responderá à nova equação.


Nota de transparência editorial: Esta análise foi produzida com auxílio de ferramentas de inteligência artificial para pesquisa, organização de informações e apoio à redação. O texto final é de responsabilidade do autor.

Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Artigo Anterior

Mendonça derruba vídeo de IA com Flávio Bolsonaro e Vorcaro

Próximo Artigo

VÍDEO – Deputado bolsonarista invade universidade, arranca adesivos do PT e causa confusão

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!