“O que realmente importa é que o chinês vive melhor do que nós”, afirma Miguel Stédile

Historiador analisa planejamento estatal, redução da pobreza, soberania tecnológica e as contribuições da experiência chinesa para o debate sobre o futuro do Brasil

O desenvolvimento econômico da China não pode ser compreendido apenas pelo crescimento do Produto Interno Bruto, pela expansão industrial ou pelos avanços tecnológicos. Para o historiador Miguel Stédile, é preciso observar como o planejamento estatal, a reforma agrária, a regulação do mercado e o investimento público transformaram as condições materiais de vida da população chinesa.

A avaliação foi apresentada em entrevista ao programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, conduzida pelo cientista político e radialista Luiz Regadas. Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e escritor, Stédile participou da edição dedicada ao livro Dicionário do socialismo chinês e às possíveis lições da China para os países do Sul Global.

A obra reúne mais de 70 especialistas e aproximadamente 120 verbetes sobre conceitos, dirigentes, acontecimentos e políticas que contribuíram para a formação da China contemporânea. O objetivo, segundo Stédile, é oferecer ao público de língua portuguesa instrumentos para compreender o chamado socialismo com características chinesas sem recorrer a interpretações superficiais ou a modelos produzidos exclusivamente a partir de perspectivas ocidentais.

“O que realmente importa é o seguinte: o chinês vive melhor do que nós. Ele come três vezes por dia, tem direito à casa, acesso ao emprego, à educação e à saúde de qualidade”, afirmou o historiador.

Um socialismo construído a partir da realidade chinesa

Stédile explicou que a expressão “socialismo com características chinesas” representa a tentativa do país de formular um caminho próprio, fundamentado na teoria marxista, mas condicionado pela história, pela cultura e pelas necessidades concretas da sociedade chinesa.

Durante a primeira metade do século XX, a China enfrentou invasões estrangeiras, conflitos internos e uma longa guerra civil. Quando a revolução triunfou, em 1949, encontrou um país devastado, predominantemente rural e marcado pela pobreza e pelo analfabetismo.

“A China chega à revolução em 1949 como um país destruído por esse conjunto de guerras, muito empobrecido e subdesenvolvido. Cerca de 90% da população era camponesa e uma grande parte era analfabeta. A questão era saber como superar essas dificuldades”, explicou.

Nas décadas seguintes, os chineses compreenderam que não poderiam simplesmente reproduzir experiências realizadas em outras sociedades socialistas. De acordo com Stédile, a conclusão foi que as ferramentas do marxismo deveriam ser aplicadas às condições específicas do país.

“Não adianta adotar fórmulas, não adianta copiar modelos. É preciso encontrar, a partir da teoria marxista e das características do próprio país, qual é o caminho da China”, resumiu.

O pesquisador observou que essa formulação também incorpora conceitos e provérbios presentes na cultura chinesa. Entre eles está a ideia de atravessar um rio “sentindo as pedras”, expressão associada à adoção gradual e cautelosa de reformas, com avaliação permanente dos resultados.

Um dicionário para compreender conceitos e experiências

A elaboração do Dicionário do socialismo chinês surgiu da dificuldade encontrada por pesquisadores latino-americanos para localizar referências em português sobre conceitos utilizados no debate político e acadêmico da China.

Stédile explicou que o livro pode ser lido de maneira integral, mas também funciona como obra de consulta. O leitor pode procurar diretamente um conceito, uma personalidade ou uma política pública de seu interesse. Os verbetes abordam assuntos como agricultura, revitalização rural, civilização ecológica, desenvolvimento industrial, cultura, organização política e participação das mulheres.

O próprio historiador escreveu os textos dedicados a Mao Zedong, dirigente da Revolução Chinesa, e a Zhou Enlai, primeiro-ministro que ocupou posição decisiva durante as primeiras décadas da República Popular da China. A obra também apresenta um verbete sobre Deng Xiaoping, escrito por Walter Pomar, além de um texto de Tica Moreno a respeito da formulação segundo a qual “as mulheres sustentam a metade do céu”.

“Inicialmente, partimos da ideia de produzir um dicionário que ajudasse a explicar as decisões da China e o processo do socialismo com características chinesas. Felizmente, construímos um livro que serve para qualquer pessoa interessada em começar a compreender esses temas”, declarou Stédile.

Publicado pela Expressão Popular, o trabalho teve como uma de suas inspirações o Dicionário de política, associado à obra de Norberto Bobbio. Também foram consideradas experiências editoriais anteriores da própria editora nos campos da agroecologia e da educação do campo.

Mercado subordinado ao planejamento público

Uma das questões centrais da entrevista foi a convivência entre planejamento estatal e mecanismos de mercado. Stédile contestou a ideia de que a existência do mercado seja, por si só, suficiente para definir uma economia como capitalista.

“O mercado não é uma característica exclusiva do capitalismo. É uma característica das civilizações humanas. É um espaço de troca e de satisfação das necessidades das pessoas”, argumentou.

A diferença, segundo ele, está em quem estabelece as prioridades econômicas. Na China, o mercado opera sob a orientação política do Estado, que define objetivos por meio dos planos quinquenais. Esses documentos estabelecem metas de crescimento, industrialização, infraestrutura, educação, saúde, ciência e tecnologia.

O planejamento também permite intervir em setores considerados estratégicos ou sujeitos à especulação. Stédile citou o controle sobre o mercado imobiliário e a fiscalização do sistema financeiro como exemplos de uma atuação estatal destinada a limitar crises e direcionar recursos para atividades produtivas.

“Banco Master não se cria na China”, afirmou o historiador, fazendo uma comparação com o sistema brasileiro. “Os bancos chineses são altamente fiscalizados. A especulação financeira é contida para garantir que os recursos sejam destinados ao crédito, à produção, à indústria e ao desenvolvimento do país.”

Na leitura apresentada pelo entrevistado, o crédito não deve funcionar apenas como fonte de rentabilidade para instituições financeiras. Ele precisa estar subordinado a uma estratégia nacional, apoiando empresas, infraestrutura, desenvolvimento tecnológico e geração de empregos.

Reforma agrária e industrialização

Questionado sobre as políticas que permitiram à China retirar centenas de milhões de pessoas da pobreza, Stédile apontou dois elementos decisivos: a reforma agrária e a industrialização planejada.

A redistribuição das terras modificou a estrutura de um país no qual a maioria da população vivia no campo e entregava parte significativa de sua produção aos grandes proprietários. A medida ampliou a capacidade de produção de alimentos, reorganizou as comunidades rurais e criou condições para enfrentar a fome.

Posteriormente, o Estado passou a estimular setores industriais considerados necessários ao desenvolvimento nacional. Na fase de abertura aos investimentos estrangeiros, iniciada no fim da década de 1970, empresas internacionais receberam autorização para atuar na China, mas tiveram de se adequar às condições estabelecidas pelo governo, entre elas a formação de trabalhadores, a participação de parceiros locais e a transferência de tecnologia.

“Não era simplesmente chamar a empresa estrangeira. Era exigir tecnologia, capacitação, formação e contrapartidas para o país. Com isso, a China criou as condições para desenvolver suas próprias empresas”, afirmou.

O Banco Mundial calcula que, ao longo de quatro décadas, aproximadamente 800 milhões de chineses superaram a linha de pobreza extrema adotada pela instituição. O próprio organismo, contudo, ressalta que o país ainda enfrenta desafios ligados à desigualdade e aos parâmetros de pobreza compatíveis com uma economia de renda média alta. Banco Mundial

Para Stédile, a dimensão humana dessa transformação é mais relevante do que as imagens de trens de alta velocidade, robôs ou grandes cidades inteligentes.

“A gente se deslumbra muito com o robô chinês, com o carro chinês e com o trem-bala. Mas a grande conquista tecnológica da China foi ter tirado 800 milhões de pessoas da pobreza”, destacou.

Políticas orientadas por informações concretas

O historiador também descreveu a estratégia de identificação detalhada das necessidades das famílias em situação de vulnerabilidade. De acordo com seu relato, integrantes do Estado e do Partido Comunista foram enviados a diferentes regiões para coletar informações sobre moradia, trabalho, renda, composição familiar e acesso aos serviços públicos.

Os dados permitiram direcionar investimentos e políticas com maior precisão. Em lugar de uma iniciativa genérica, as ações buscavam identificar os problemas de cada comunidade e de cada família.

“Era nesse grau de precisão. Milhões de pessoas foram deslocadas para escutar a população, coletar os dados e direcionar aquilo de que cada cidade, cada bairro e cada família necessitavam”, disse.

Stédile afirmou ter visitado a China quatro vezes. Segundo ele, as viagens permitiram acompanhar mudanças nas condições de moradia, no acesso aos serviços e na redução da presença de pessoas vivendo nas ruas. Essas observações pessoais, ressaltou, ajudaram-no a perceber a distância entre parte das representações ocidentais sobre o país e a realidade encontrada durante as visitas.

Inovação como direito de experimentar

Outro tema abordado foi o papel do Estado no financiamento da pesquisa científica. Durante uma das visitas, Stédile ouviu de pesquisadores chineses uma definição de inovação que o surpreendeu: inovar significa também ter o direito de experimentar e errar.

“O Estado oferece recursos e subsídios para testar um produto, uma empresa ou uma tecnologia nova. Uma parcela de fracasso faz parte do processo. Errou, tenta outra vez”, explicou.

Esse modelo permitiria às universidades incubar projetos tecnológicos e ajudar pesquisadores a transformá-los em empresas ou iniciativas produtivas. Stédile mencionou como exemplo as pesquisas com bioinsumos, utilizados na agricultura para diminuir a dependência de agrotóxicos, área na qual organizações brasileiras mantêm cooperação com instituições chinesas.

Para o pesquisador, a diferença está na compreensão da ciência como parte de um projeto nacional. O financiamento público não busca somente um retorno comercial imediato, mas a criação de conhecimentos, produtos e estruturas capazes de beneficiar a sociedade no longo prazo.

Inteligência artificial e cooperação com o Sul Global

Stédile também destacou o avanço da China na inteligência artificial e a adoção, por empresas chinesas, de modelos disponibilizados para adaptação e desenvolvimento por terceiros. Na avaliação dele, essa estratégia abre possibilidades de cooperação com universidades e centros de pesquisa da América Latina, da África e da Ásia.

Ele mencionou o DeepSeek como exemplo de tecnologia que pode ser adaptada às necessidades de diferentes instituições. Em vez de começar um projeto do zero, universidades brasileiras poderiam utilizar estruturas já desenvolvidas, modificando-as para pesquisas em saúde, vacinas, equipamentos, educação e outros setores.

“Com isso, podemos ganhar tempo no desenvolvimento de tecnologia e aplicar a inteligência artificial em novas áreas. Esse é um caminho baseado na cooperação”, afirmou.

A abertura dos modelos chineses, entretanto, deve ser observada com critérios técnicos: alguns disponibilizam os pesos e permitem adaptações, mas não revelam integralmente os dados de treinamento ou todos os componentes empregados em sua construção. Ainda assim, a estratégia chinesa ampliou a circulação internacional de sistemas adaptáveis e passou a integrar sua política de cooperação tecnológica.

Uma experiência que não pode ser simplesmente copiada

Apesar de defender o estudo da China, Stédile rejeitou a ideia de importar integralmente o modelo chinês para o Brasil. As diferenças históricas, políticas, territoriais e econômicas impedem uma reprodução automática.

“É impossível importar o modelo chinês para o Brasil. Eles fizeram uma revolução em 1949 e uma reforma agrária. Não há como o Brasil de 2026 copiar diretamente a China de 2026”, declarou.

A experiência, contudo, pode inspirar políticas brasileiras. Entre os possíveis aprendizados, ele citou o enfrentamento dos problemas estruturais, a recuperação da capacidade de planejamento do Estado, a exigência de contrapartidas aos investimentos estrangeiros, o controle do sistema financeiro, o desenvolvimento industrial e o financiamento público da inovação.

O Brasil também poderia fortalecer a cooperação com outros integrantes do Sul Global, compartilhando conhecimentos e construindo soluções comuns para desafios como desigualdade, transição energética e dependência tecnológica.

Soberania, trabalho e bem-estar social

Na parte final da entrevista, Miguel Stédile resumiu as contribuições que considera mais importantes na experiência chinesa: soberania, transição ecológica, planejamento, industrialização, inovação e proteção aos trabalhadores.

O historiador citou a existência de mecanismos de proteção previdenciária para trabalhadores de aplicativos e outras categorias que atuam em novas modalidades de emprego. Para ele, o desenvolvimento tecnológico deve estar acompanhado de garantias sociais, e não servir como justificativa para reduzir direitos.

Ao comentar o debate sobre a classificação da China como socialista ou capitalista, Stédile defendeu que a análise deve partir das condições concretas oferecidas à população.

“Se é um lugar onde as pessoas vivem melhor do que nós, deveríamos olhar com atenção e pensar o que fizeram, quais transformações realizaram e quais disputas enfrentaram”, afirmou. “Eu citei duas questões fundamentais: a reforma agrária e a industrialização voltada para o próprio país.”

Referências

  • Dicionário do socialismo chinês — organização de Diego Pautasso, Javier Vadell, Miguel Stédile e colaboradores — Expressão Popular, 2026
  • Dicionário de política — Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino — 1983
  • Dicionário da educação do campo — organização de Roseli Salete Caldart, Isabel Brasil Pereira, Paulo Alentejano e Gaudêncio Frigotto — 2012
  • Dicionário de agroecologia e educação — organização coletiva — Expressão Popular, 2021

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