O que explica queda de 10% para 6% de Augusto Cury

Augusto Cury durante sabatina eleitoral
Augusto Cury durante sabatina eleitoral. Foto: Reprodução

O psiquiatra e escritor Augusto Cury, candidato do Avante à Presidência, caiu de 10% para 6% das intenções de voto na pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta (17), após uma ascensão acelerada no início de setembro. Embora permaneça em terceiro lugar, atrás do presidente Lula (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL), ele voltou a um patamar mais próximo dos demais concorrentes.

Cury havia partido de 2% e alcançado 10% impulsionado por uma forte circulação de conteúdo nas redes sociais. Especialistas avaliam que a exposição ampliou o conhecimento sobre sua candidatura, mas não assegurou uma trajetória estável a duas semanas da eleição.

A cientista política Helcimara de Souza Telles, professora da UFMG, classificou o movimento como um fenômeno recorrente em campanhas. “Cury teve um voo de galinha. Cresceu rapidamente pelas redes sociais, pelo debate e pela novidade de sua candidatura”, disse ela ao jornal O Globo, citando o peso do horário eleitoral, das alianças estaduais e das estruturas partidárias na reta final.

Para Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor da FGV/EAESP, a candidatura enfrenta limites estruturais. “Ele tem um partido que é inexistente, não tem horário eleitoral substantivo, não tem recurso substantivo e depende só dele”, afirmou o cientista político.

Pablo Marçal. Foto: Igo Estrela/Metrópoles

Perfis satélites e o endosso de Pablo Marçal ampliaram alcance de Cury

Levantamento da consultoria Bites apontou que Cury ganhou 2,68 milhões de seguidores pouco antes de atingir 10% na pesquisa de 2 de setembro. Entre 18 de agosto e 4 de setembro, o volume superou os 329 mil seguidores conquistados por Flávio Bolsonaro e os 69 mil obtidos por Lula no mesmo intervalo.

As menções ao escritor chegaram a 662 mil postagens e somaram mais de 70,3 milhões de interações. As buscas por seu nome no Google, que giravam em torno de 40 mil consultas diárias, acumularam 3,3 milhões em agosto, de acordo com o levantamento.

O endosso público de Pablo Marçal (PRTB) ajudou a tração inicial, após um encontro televisivo na Band em agosto. A campanha de Cury destinou ao menos R$ 21 mil para impulsionar cortes com tom conciliador, enquanto perfis de fofoca, canais de finanças e entretenimento e a rede de sua filha distribuíram conteúdos sobre o candidato.

A semelhança entre as publicações levantou suspeitas e gerou acusações de adversários, mas não há confirmação de que a circulação tenha partido de uma ação organizada ou financiada por Cury. O analista André Eler, da Bites, observou que o escritor já possuía alta exposição: no início de abril, reunia 13,9 milhões de seguidores e era a terceira maior celebridade digital entre os presidenciáveis.

Parte de seus eleitores associa a candidatura à busca por uma saída da polarização. Ligia Sarmento de Oliveira, de 64 anos, moradora de Valparaíso de Goiás (GO), declarou voto no candidato depois de ter votado em Lula em 2022. “Essa guerra entre Lula e Bolsonaro, divisão popular, me deixava muito incomodada”, afirmou.

Questionado no Jornal Nacional sobre uma proposta de drones para auxiliar mulheres em situação de violência, Cury recuou e destacou um aplicativo para facilitar o acionamento da polícia. A proposta ganhou repercussão nas redes, inclusive em tom de meme, e atraiu atenção para sua campanha.

O cientista político Josué Medeiros avalia que Cury também dialoga com um sentimento antissistema difuso, dirigido à política em geral e a problemas como custo de vida e segurança. O candidato ainda busca apoio entre cristãos, apresenta-se como “cristão sem fronteiras” e afirma que estudos sobre Jesus Cristo o levaram do ateísmo ao cristianismo.

Valdemar Figueiredo, doutor em Ciência Política e teólogo, vê a campanha como uma transposição do marketing editorial que fez de Cury um autor de mais de 40 milhões de exemplares vendidos. Para ele, a sustentação eleitoral dependerá de respostas mais consistentes sobre propostas e capacidade de articulação política.

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