“O que deve interessar a você que vai escolher o seu representante é o compromisso ético do político”

Francisco Bezerra analisa a qualidade da representação política, critica o uso eleitoral da religião e alerta para a responsabilidade do eleitor nas eleições de 2026

A qualidade da representação política brasileira e a responsabilidade do eleitor diante das eleições de 2026 foram o centro da entrevista do jornalista, radialista e escritor Francisco Bezerra, conhecido no Ceará como Bezerrinha, ao programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, exibido nesta quarta-feira, 30 de setembro. A entrevista foi conduzida pelo cientista político e radialista Luiz Regadas e teve como tema “Eleições 2026: todo cuidado é pouco”.

Com duas décadas de atuação como repórter na Assembleia Legislativa do Ceará, Bezerra fez uma avaliação crítica da composição atual dos parlamentos e relacionou a presença de políticos sem preparo, segundo sua análise, ao afastamento de pessoas com maior compromisso com a vida pública. Para sustentar seu argumento, recuperou uma passagem atribuída a Ulysses Guimarães, segundo a qual um parlamentar que considerasse ruim a composição de determinado Congresso deveria esperar pela legislatura seguinte.

Para Bezerra, a deterioração da representação não estaria restrita à Câmara dos Deputados ou ao Senado. Ele afirmou ter acompanhado, ao longo de sua trajetória profissional, um processo semelhante no Parlamento cearense.

“Parece-me até que as pessoas de bem, as pessoas que têm espírito público ou são republicanas desistiram de disputar as cadeiras nos parlamentos”, afirmou.

Na avaliação do jornalista, a ausência de determinados perfis da disputa eleitoral não significa que o espaço político permaneça vazio. “Quando esse tipo de cidadão com esse perfil se ausenta do processo, na política não existe vácuo. Se você não preenche aquele espaço, vem outro e preenche”, declarou.

Durante a entrevista, Bezerra também apresentou sua trajetória como escritor e biógrafo, destacando o trabalho realizado sobre o deputado Antônio Paes de Andrade, integrante do chamado grupo dos “autênticos” do antigo MDB durante a ditadura militar.

Ele explicou que, no período do bipartidarismo, o MDB reunia diferentes correntes internas. Segundo sua descrição, os chamados moderados adotavam uma atuação mais institucional, enquanto os autênticos defendiam uma oposição mais incisiva ao regime militar e denunciavam a tortura, os assassinatos e outras violações praticadas pela ditadura.

A referência histórica serviu de ponto de partida para uma discussão sobre o que Bezerra considera uma mudança no perfil da representação política brasileira.

Religião e disputa eleitoral

Outro eixo importante da entrevista foi a relação entre religião e política. Bezerra criticou o uso da fé como instrumento eleitoral e defendeu que a religião de um candidato não seja utilizada como critério para a escolha de representantes.

“O que deve interessar a você que vai escolher o seu representante é o compromisso ético do político”, afirmou.

Ele também defendeu que o eleitor observe as convicções políticas e o compromisso público de quem disputa uma eleição, em vez de considerar a religião professada pelo candidato.

Ao tratar da presença de lideranças religiosas na política, Bezerra fez críticas generalizadas a pastores e igrejas que, segundo ele, teriam transformado a atividade religiosa em negócio. Nesse ponto, suas declarações representam sua avaliação pessoal e não uma descrição abrangente de todas as organizações religiosas ou de todos os parlamentares ligados a denominações evangélicas.

O jornalista também destacou a separação entre Estado e religião como um princípio constitucional. Durante a conversa, mencionou a contribuição de Jorge Amado para a Assembleia Constituinte de 1946 e afirmou que uma proposta do escritor e então deputado comunista contribuiu para assegurar a liberdade de exercício religioso.

A entrevista também citou o Papa Francisco, a partir de uma declaração atribuída ao pontífice sobre a possibilidade de pessoas sem fé religiosa apresentarem condutas mais virtuosas do que determinados indivíduos religiosos.

A participação religiosa na política

Ao longo da conversa, Bezerra procurou diferenciar a participação política de pessoas religiosas do uso da religião como instrumento eleitoral. O tema ganhou destaque diante da aproximação das eleições de 2026 e da presença de candidatos que mobilizam referências religiosas em suas campanhas.

Para ele, a avaliação do eleitor deveria partir da atuação pública e das posições políticas dos candidatos. Em outro momento da entrevista, resumiu sua posição ao citar três critérios que considera fundamentais: idoneidade, espírito público e coerência.

“Eu não tenho o menor interesse em saber qual é a religião dele”, afirmou, ao explicar os critérios que considera relevantes para escolher um candidato.

Bezerra também mencionou as chamadas bancadas da “bala”, da “Bíblia” e do “boi”, expressão utilizada no debate político brasileiro para se referir a grupos parlamentares associados, respectivamente, à segurança pública, a pautas religiosas e ao agronegócio. Em suas declarações, fez críticas severas a integrantes desses grupos, apresentando sua interpretação sobre a atuação de parlamentares vinculados a essas agendas.

Crime organizado e disputa política

A entrevista também avançou para a relação entre crime organizado e política brasileira. Bezerra afirmou estar realizando uma pesquisa histórica sobre a formação e o desenvolvimento das organizações criminosas no país e citou o surgimento do Comando Vermelho na década de 1970 e do Primeiro Comando da Capital, em São Paulo, na década de 1990.

A partir dessa pesquisa, apresentou uma interpretação sobre a evolução do crime organizado e suas relações com diferentes setores da sociedade. O entrevistado também fez acusações contra a família Bolsonaro e afirmou que ela teria crescido politicamente associada à expansão do crime organizado.

Essas afirmações foram apresentadas por Bezerra durante a entrevista e devem ser compreendidas como sua interpretação política e histórica. O jornalista também associou a família Bolsonaro ao contexto do assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018. Trata-se de uma acusação grave que não deve ser apresentada como fato estabelecido sem respaldo documental ou judicial.

Na entrevista, Bezerra mencionou ainda o ex-policial militar Adriano da Nóbrega, apontado pelas autoridades como chefe do chamado Escritório do Crime, e sua relação com pessoas próximas à família Bolsonaro. O tema foi utilizado pelo entrevistado para sustentar sua interpretação sobre a aproximação entre política, milícias e crime organizado no Rio de Janeiro.

A disputa eleitoral de 2026

Na parte final do programa, a conversa voltou ao papel do eleitor. Para Bezerra, o voto não deve ser tratado como uma escolha indiferente entre candidatos.

“O seu representante pode mudar a sua vida no local onde você mora”, afirmou.

Ele relacionou a atuação dos parlamentares a temas diretamente ligados à vida cotidiana, como educação pública, Sistema Único de Saúde, segurança pública e políticas sociais.

Segundo o jornalista, o eleitor precisa compreender que, ao votar para Câmara dos Deputados, Senado, Assembleias Legislativas ou outros cargos, está escolhendo alguém que receberá um mandato para representar interesses coletivos.

“A responsabilidade é muito grande”, declarou.

A entrevista também teve momentos de forte crítica a candidatos específicos e ao campo político bolsonarista. Bezerra fez acusações e classificações pessoais contra Flávio Bolsonaro e outros integrantes da família Bolsonaro. Por se tratarem de avaliações e acusações feitas pelo entrevistado, elas são aqui apresentadas como declarações de Bezerra, sem serem incorporadas como conclusões factuais da reportagem.

Ao comentar a política do Ceará, o jornalista também mencionou as candidaturas de Elmano de Freitas e Ciro Gomes e apresentou sua própria leitura sobre a disputa estadual e nacional. Da mesma forma, defendeu que o Partido dos Trabalhadores ainda representa, em sua avaliação, uma alternativa política no estado.

O encerramento da entrevista retomou a questão central proposta pelo programa: a necessidade de atenção do eleitor diante das eleições de 2026.

Para Francisco Bezerra, escolher um representante significa delegar a alguém uma parcela do poder político que pertence ao eleitor. A discussão, portanto, não se limita à escolha do candidato à Presidência da República. Envolve também os nomes que ocuparão cadeiras nas casas legislativas e terão influência sobre leis, orçamento público e políticas que afetam diretamente a população.

A entrevista de Bezerra ao Café com Democracia colocou essa responsabilidade no centro do debate, combinando sua experiência de décadas acompanhando o Legislativo cearense com uma leitura crítica sobre o atual cenário político brasileiro.

Referências citadas na entrevista

Ulysses Guimarães
Político brasileiro e uma das principais figuras da oposição à ditadura militar e da Assembleia Nacional Constituinte de 1987 e 1988. Foi citado por Francisco Bezerra a partir de uma passagem sobre a renovação dos parlamentos.

Antônio Paes de Andrade
Político cearense e deputado federal pelo MDB, identificado com o grupo dos chamados “autênticos” durante a ditadura militar. Foi tema de biografia mencionada durante a entrevista.

Jorge Amado
Escritor brasileiro e deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro, citado na entrevista em referência à sua atuação na Assembleia Constituinte de 1946.

Papa Francisco
Religioso argentino e líder da Igreja Católica entre 2013 e 2025. Foi citado durante a conversa em referência a declarações sobre ética e comportamento de pessoas religiosas e não religiosas.

Nelson Rodrigues
Dramaturgo, jornalista e escritor brasileiro. Uma de suas frases sobre a presença dos “idiotas” na sociedade foi mencionada durante a entrevista.

Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital
Organizações criminosas citadas por Francisco Bezerra durante sua exposição sobre a formação e a expansão do crime organizado no Brasil.

Fonte: entrevista de Francisco Bezerra ao programa Café com Democracia, da TV Atitude Popular, exibida em 30 de setembro de 2026.

📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
👥 Torne-se membro do nosso canal no YouTube: https://www.youtube.com/tvatitudepopular/join
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O

Artigo Anterior

Natuza Nery admite que debate na Globo é arapuca para Lula

Próximo Artigo

Elmano explica proposta de transporte gratuito nos fins de semana em Fortaleza

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!