Comunicador analisa as candidaturas de Renan Santos e Pablo Marçal, aponta a disputa interna na direita e critica o tratamento anedótico dado a movimentos autoritários
Da Redação
As movimentações de Renan Santos e Pablo Marçal para as eleições de 2026 expõem uma disputa pelo eleitorado conservador que já não se organiza exclusivamente em torno da família Bolsonaro. Enquanto Marçal tenta converter seguidores e visibilidade digital em capital eleitoral, o Movimento Brasil Livre (MBL) trabalha para transformar Renan Santos em uma alternativa própria dentro da direita brasileira.
A análise foi apresentada pelo comunicador e assistente social Adriano Felipe durante o programa Democracia no Ar, transmitido pela TV Atitude Popular na quinta-feira (20). Apresentada por Sara Goes, a edição discutiu as estratégias digitais dos dois grupos, a relação com o bolsonarismo e os riscos de a comunicação progressista reduzir figuras autoritárias a personagens meramente ridículos.
Criador do canal Reflexões Contemporâneas, Adriano afirmou que a candidatura de Pablo Marçal pode fragmentar os votos da direita. Em sua avaliação, Marçal disputa eleitores que poderiam apoiar tanto Flávio Bolsonaro quanto Renan Santos.
“Pablo Marçal vai canibalizar os votos do Renan Santos e do Flávio Bolsonaro”, declarou.
A análise parte da percepção de que Marçal mantém uma base própria de seguidores, formada em grande parte por pessoas identificadas com conteúdos motivacionais, discursos empresariais e posições conservadoras. Mesmo que sua participação formal na eleição enfrente impedimentos jurídicos, o lançamento da candidatura já permite que ele ocupe espaço no debate público.
Para Adriano, ignorar essa presença seria um erro da comunicação progressista. A exposição de Marçal pode ampliar a concorrência interna na direita e reduzir a concentração de votos em Flávio Bolsonaro.
“Quanto mais o Pablo Marçal for pautado, mais chances Lula tem de vencer no primeiro turno devido aos votos que ele pode tirar do Flávio Bolsonaro”, avaliou.
O comunicador reconheceu que a candidatura também atende aos interesses pessoais e comerciais de Marçal. A participação na disputa presidencial oferece visibilidade, amplia o alcance de seus conteúdos e fortalece os negócios vinculados à própria imagem. Isso não elimina, porém, os efeitos eleitorais que sua presença pode produzir.
Renan Santos e o projeto próprio do MBL
A situação de Renan Santos foi analisada de maneira diferente. Para Adriano, o dirigente do MBL representa um projeto mais organizado e duradouro, construído para disputar o poder sem permanecer subordinado à família Bolsonaro.
O comunicador criticou o tratamento de Renan como uma liderança muito jovem ou inexperiente. Aos 42 anos, ele acumula uma trajetória política dentro do MBL e participa diretamente da definição das posições e estratégias do movimento.
“As pessoas veem no Renan Santos aquele jovenzinho promissor. É um cara de 42 anos, com falas e atitudes problemáticas”, afirmou.
Adriano citou declarações machistas, episódios envolvendo integrantes do MBL e a aproximação do movimento com discursos autoritários. Também mencionou a participação do supremacista branco norte-americano David Duke em um evento ligado ao grupo. Segundo o comunicador, Renan aplaudiu a intervenção de Duke, conhecido por declarações racistas e por sua atuação na Ku Klux Klan.
O programa também lembrou conteúdos em que integrantes ou candidatos ligados ao MBL defendem propostas violentas para a segurança pública. Uma delas é resumida pelo slogan “prender e matar”, apresentado pelo grupo como resposta à criminalidade.
“Não é só um slogan. É um projeto de necropolítica, de intensificar a necropolítica que já existe no Estado”, disse Adriano.
Para ele, a construção eleitoral do MBL combina propostas repressivas, ataques a mulheres e minorias, provocação permanente nas redes sociais e uma apresentação visual pensada para aproximar Renan de um público jovem. A informalidade das roupas e da linguagem, assim como o uso recorrente do humor, procura revestir posições extremistas de aparente modernidade.
Esse formato permite que o movimento alcance eleitores conservadores que se afastaram de Jair Bolsonaro, mas continuam identificados com o autoritarismo. Renan aparece, nesse espaço, como uma opção para quem deseja preservar posições da extrema direita sem assumir publicamente uma vinculação com o bolsonarismo.
“Ele cai como uma luva para o fascista bem-humorado, para o redpill bem-humorado”, resumiu Adriano.
“O projeto do MBL é muito pior”
A diferença central entre o MBL e o bolsonarismo estaria no grau de organização. Adriano considera que o movimento liderado por Renan Santos possui uma estratégia mais disciplinada, uma comunicação adaptada às plataformas digitais e capacidade para formar novos quadros políticos.
“O projeto do MBL é muito pior do que o do bolsonarismo”, afirmou.
Segundo o comunicador, o bolsonarismo chegou ao governo federal, mas acumulou erros e conflitos internos que contribuíram para sua derrota eleitoral. O MBL, por sua vez, procura aprender com essa experiência e construir presença institucional antes de disputar cargos executivos de maior importância.
“Se eles pegam o poder, imagina o que podem fazer. Se o MBL chega ao poder, nunca mais ninguém tira”, alertou.
A declaração expressa uma avaliação política do convidado sobre a capacidade de organização do movimento. O MBL já possui representantes eleitos, lançou o partido Missão e tenta expandir sua atuação para fora de São Paulo, estado onde concentrou sua origem e parte importante de sua base.
No Rio de Janeiro, integrantes ligados ao movimento participaram de confrontos e provocações contra o deputado federal Glauber Braga. No Ceará, o partido também apresenta candidaturas e procura ampliar sua presença regional.
O erro de confundir perigo com caricatura
Adriano chamou atenção para um comportamento recorrente no campo progressista: tratar personagens de extrema direita como figuras irrelevantes por causa de sua aparência caricata, de declarações absurdas ou do desempenho inicial nas pesquisas.
O mesmo ocorreu, segundo ele, com Jair Bolsonaro antes de 2018. Enquanto o então deputado era apresentado como personagem folclórico, suas ideias circulavam por programas de televisão, redes sociais e grupos organizados. A atenção crítica só aumentou quando sua candidatura já havia conquistado uma base eleitoral nacional.
“A esquerda tem uma mania muito feia de não dar atenção a certas coisas porque ainda são pequenas, não têm tanta capilaridade ou parecem ridículas. Quando começa a dar atenção, já é tarde demais”, disse.
O comunicador citou ainda André Fernandes e Nikolas Ferreira como exemplos de políticos que foram inicialmente tratados como produtores de conteúdo sem relevância institucional. Ambos converteram audiência digital em votos e passaram a ocupar posições importantes dentro da direita.
Na avaliação apresentada durante o programa, a crítica baseada apenas na ridicularização não permite compreender como esses candidatos organizam sua comunicação. A polêmica, o ataque pessoal e o humor ofensivo não aparecem como acidentes. São mecanismos utilizados para conquistar alcance, mobilizar seguidores e determinar os assuntos discutidos nas plataformas.
Disputa por pesquisas e percepção eleitoral
A edição também abordou a publicação frequente de pesquisas eleitorais antes do início da campanha oficial. Adriano afirmou que a repetição dos levantamentos pode influenciar eleitores que decidem o voto de acordo com a percepção de viabilidade dos candidatos.
“Esse bombardeio de pesquisas é feito para intervir no ideário do eleitor médio”, avaliou.
Ao analisar o cenário do Ceará, o comunicador demonstrou desconfiança em relação a levantamentos que apresentam empate entre o governador Elmano de Freitas e Ciro Gomes. Para ele, a metodologia de pesquisas realizadas pela internet pode alcançar um grupo que não representa adequadamente os eleitores menos ativos nas redes sociais.
A observação constitui uma avaliação do entrevistado e não substitui a análise técnica de cada levantamento. Institutos podem utilizar entrevistas presenciais, telefônicas, digitais ou uma combinação dessas modalidades. A confiabilidade depende do plano amostral, da seleção dos entrevistados, da ponderação dos dados e da transparência metodológica.
Adriano também relacionou o desempenho de Ciro Gomes nas pesquisas à aproximação com setores bolsonaristas do Ceará, especialmente Capitão Wagner e André Fernandes. Segundo ele, essa aliança oferece ao candidato acesso a uma parcela do eleitorado conservador que dificilmente seria alcançada sem o apoio dessas lideranças.
Comunicação progressista e falta de investigação
A conversa avançou para as dificuldades enfrentadas pelo jornalismo progressista e independente. A escassez de recursos limita a realização de investigações próprias e aumenta a dependência de assuntos inicialmente pautados por grandes veículos e pelas plataformas digitais.
Nesse ambiente, a repetição pode conceder aparência de fato a informações ainda não sustentadas por evidências. Ao mesmo tempo, casos que exigem apuração prolongada perdem espaço porque não oferecem retorno imediato nos algoritmos.
Adriano avaliou que parte da comunicação progressista também falha ao acompanhar seletivamente investigações envolvendo diferentes campos políticos. O convidado criticou a atenção contínua destinada a Fábio Luís Lula da Silva e comparou essa cobertura ao tratamento dado às relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro e o Banco Master.
Segundo o comunicador, Fábio Luís é investigado desde 2004, mas os procedimentos abertos ao longo desse período não produziram condenação. Ainda assim, novas apurações costumam recuperar o apelido “Lulinha” e associar o caso diretamente ao Presidente Lula.
“O Fábio Luís é o eterno espantalho, a eterna cortina de fumaça para manter o nome dele nas manchetes”, afirmou.
Adriano também questionou a imagem de imparcialidade atribuída ao ministro André Mendonça em setores progressistas. Para o comunicador, decisões e procedimentos recentes deveriam receber uma análise mais crítica e baseada na comparação entre casos.
A crise financeira do jornalismo independente ajuda a explicar parte dessas limitações. Investigações exigem profissionais, tempo, acesso a documentos e recursos para enfrentar pressões judiciais. Sem essas condições, veículos menores acabam reproduzindo informações publicadas por empresas com maior capacidade de apuração, mesmo quando discordam de sua orientação editorial.
O resultado é uma cobertura que reage ao assunto do momento, mas nem sempre consegue examinar os interesses que determinaram sua circulação. No caso de Renan Santos e Pablo Marçal, esse problema pode favorecer tanto a banalização quanto a promoção involuntária das candidaturas.
O desafio não consiste em ignorá-los nem em oferecer exposição sem análise. É preciso identificar suas bases sociais, métodos de comunicação, fontes de financiamento e projetos políticos. A dimensão cômica pode atrair audiência, mas não explica o poder que esses grupos pretendem conquistar.
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