O gênio muçulmano que estudou a gravidade 566 anos antes de Newton

Isaac Newton, criador da lei da gravitação universal

Muito antes de Isaac Newton publicar sua teoria da gravitação universal, um astrônomo muçulmano já investigava por que os corpos se movem em direção ao centro da Terra. Seu nome era Al-Khazini, autor do “Livro da Balança da Sabedoria”, concluído entre 1121 e 1122. A obra precedeu em cerca de 566 anos os “Princípios Matemáticos da Filosofia Natural”, lançados pelo físico inglês em 1687.

Al-Khazini foi o primeiro a afirmar que o peso dos corpos varia de acordo com sua distância para o centro da Terra. A massa deixava de ser somente uma característica fixa dos objetos e passava a depender de sua posição. Seu trabalho foi fundamental para explicar, por exemplo, por que a atmosfera terrestre não entra em colapso nem se dispersa pelo espaço.

Muito antes de o matemático alemão Christiernus Torchillus Morsianus (1458–1560) definir o ar como matéria dotada de massa e demonstrar que ele se comportava de maneira semelhante aos líquidos, Al-Khazini já havia investigado o peso aparente de corpos formados por dois materiais diferentes.

Segundo o pesquisador Bruno Rainho Mendonça, no livro “Por Que as Coisas Caem?”, veio do muçulmano a “proposição de que a thiql (termo em árabe que muitos autores traduzem como ‘gravidade’) dos corpos dependia de suas distâncias em relação ao centro da Terra”.

Essas conclusões contribuíram para avanços científicos posteriores. Outros pesquisadores utilizaram princípios semelhantes no desenvolvimento do barômetro, das bombas de vácuo e de outros equipamentos relacionados à pressão atmosférica, todos baseados em fenômenos abordados por Al-Khazini.

Retrato de Al-Khazini, conhecido como o “físico de todos os físicos”

Quem foi Al-Khazini

Relatos medievais indicam que o astrônomo tinha origem grega-bizantina e foi escravizado ainda jovem. Viveu em Merv, cidade atualmente localizada no Turcomenistão, e recebeu o nome pelo qual ficou conhecido por pertencer a Abu al-Husayn al-Khazin, tesoureiro da corte. Um dos grandes cientistas de sua época, ele é descrito como “o físico de todos os físicos” e considerado um dos maiores fabricantes de instrumentos científicos da história.

Al-Khazini foi criado como muçulmano e destacou-se gradualmente nos estudos quando estava escravizado. Merv era então um centro de produção literária e científica que atraía estudiosos para suas bibliotecas bem abastecidas. O jovem logo passou a conviver com algumas das mentes mais brilhantes do século XII e tornou-se discípulo de Omar Khayyam, grande matemático, filósofo e poeta persa.

Ele teria recusado grandes pagamentos por seus trabalhos, satisfeito com o que ganhava para sustentar a si mesmo e seu gato. Segundo relatos, certa vez negou mil dinares oferecidos pelo sultão Sanjar. Al-Khazini teria ficado com apenas dez dinares por seus serviços e pedido que sua remuneração anual fosse limitada a três, quantia que considerava suficiente. Quando a esposa do governante lhe enviou outros mil dinares, ele devolveu todo o valor no dia seguinte e pediu que o gesto fosse perdoado.

Em Merv, Al-Khazini estudou e trabalhou com astrônomos experientes, como Al-Isfizari, destacado inventor de instrumentos que provavelmente o influenciou mais do que qualquer outro professor. Ele morreu por volta de 1130 e deixou um importante legado. Seus livros ficaram perdidos durante séculos, mas seus manuscritos voltaram a ser encontrados há quase 200 anos.

O aspecto mais avançado de seu trabalho estava no método. Al-Khazini utilizava balanças hidrostáticas e comparações experimentais para determinar o peso e a densidade de metais, líquidos e pedras preciosas. Ele reconheceu que o ar possui peso e que sua densidade diminui com a altitude. Em vez de se limitar a explicações filosóficas sobre a queda dos corpos, tentou medir os fenômenos físicos e estabelecer relações entre suas variáveis.

Manuscrito do século XIII do “Livro da Balança da Sabedoria”, representando as balanças homônimas

O “Livro da Balança da Sabedoria”, sua principal obra, reuniu oito volumes e cerca de 50 capítulos sobre estática, hidrostática, centros de gravidade, densidade, flutuação e funcionamento de balanças. O tratado também preservou partes de estudos gregos e islâmicos que poderiam ter desaparecido. Al-Khazini dialogou com conhecimentos de Arquimedes, Euclides, al-Biruni, Ibn al-Haytham e outros pesquisadores.

Os escritos do astrônomo permaneceram conhecidos no mundo islâmico e chegaram a estudiosos do Império Bizantino, mas não há evidência de que Newton tenha tido acesso a eles. Sua história mostra que a ciência da gravidade não começou com uma maçã caindo na Inglaterra. Séculos antes, em uma cidade da Ásia Central, um homem levado à escravidão já utilizava matemática, instrumentos e observação para investigar o peso dos corpos e as forças que os conduziam ao centro da Terra.

A contribuição de al-Khazini acabou retirada da narrativa ocidental que apresenta a ciência como uma passagem quase direta da Grécia antiga ao Renascimento europeu. Para o físico britânico Jim Al-Khalili, a ciência árabe medieval é uma “história esquecida” e seus grandes estudiosos são “nomes que deveriam ser pronunciados ao lado de Aristóteles, Galileu e Newton”.

Artigo Anterior

Sargento Rodrigues ignora decisão do PL e adere a Cleitinho

Próximo Artigo

Lula chama Trump de “imperador” e prepara resposta comercial, mas mantém reciprocidade em espera

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!