A hora da escolha: o Brasil entra na eleição mais decisiva desde 2022
por Maria Luiza Falcão Silva
Há poucas semanas, escrevi que o Brasil se encontrava diante de uma nova encruzilhada. A imagem continua válida — mas a encruzilhada deixou de estar no horizonte. Chegamos a ela. As candidaturas estão registradas, a campanha começou, os palanques estão sendo montados, a propaganda no rádio e na televisão se aproxima e os debates colocarão frente a frente candidatos que, até agora, puderam controlar cuidadosamente suas aparições públicas. Em 4 de outubro, o país votará.
O quadro que emerge é simultaneamente favorável e perigoso para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Favorável porque Lula continua liderando as principais pesquisas nacionais. Perigoso porque sua vantagem sobre Flávio Bolsonaro diminui consideravelmente quando se projeta um segundo turno. Além disso, os níveis elevados de rejeição aos dois principais candidatos revelam que esta será uma eleição disputada num ambiente de forte polarização política, social e emocional.
Seria, portanto, um erro grave imaginar que a eleição está encaminhada.
Não está.
A campanha começa agora de verdade.
Flávio ocupou o centro da direita
No início de julho, o traço mais evidente do campo conservador era a fragmentação. Havia o bolsonarismo familiar, dividido entre Flávio e Michelle Bolsonaro; a direita institucional de Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab; a direita liberal de Romeu Zema; e a nova direita digital de Renan Santos, que tenta importar para o Brasil uma combinação de Javier Milei com Nayib Bukele.
Essa diversidade permanece. Mas ocorreu uma mudança fundamental: Flávio Bolsonaro conseguiu ocupar o centro eleitoral da direita.
Na pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto, Lula aparece com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 31% de Flávio. Caiado e Renan Santos têm 4% cada; Zema, 2%.
A distância entre Lula e Flávio existe e é relevante. Mas não autoriza tranquilidade. No segundo turno, Lula aparece com 43% e Flávio com 40%. Outra pesquisa recente, da Futura, encontrou 46,5% para Lula e 44% para Flávio, configurando empate técnico.
A mensagem é inequívoca: apesar dos percalços e do desgaste associado ao caso Master/Vorcaro, Flávio Bolsonaro tornou-se eleitoralmente competitivo. Subestimá-lo seria repetir um dos erros mais frequentes diante da extrema direita: confundir rejeição política ou intelectual com inviabilidade eleitoral.
Jair Bolsonaro foi subestimado em 2018. Donald Trump foi subestimado nos Estados Unidos. Javier Milei foi tratado durante meses como uma excentricidade argentina. A extrema direita contemporânea cresceu repetidamente nos espaços deixados pela incapacidade de seus adversários de compreender que indignação, ressentimento, medo e frustração também produzem maiorias eleitorais.
Flávio não é Jair Bolsonaro. Não possui o mesmo carisma político do pai nem a mesma capacidade de transformar brutalidade em espetáculo. Mas dispõe de uma base bolsonarista já construída, de um sobrenome convertido em identidade política, de uma estrutura partidária poderosa e de um eleitorado para o qual a família Bolsonaro continua simbolizando a oposição radical ao PT.
E não precisa reproduzir integralmente o pai. Precisa apenas chegar ao segundo turno. Ali começa outra eleição.
O paradoxo do “antissistema”
O caso Master/Vorcaro introduz uma contradição que Flávio terá dificuldade de administrar. O candidato que pretende se apresentar como voz do cidadão comum, inimigo das elites e representante de uma ruptura com “tudo o que está aí” terá de explicar sua relação com um episódio que envolve justamente os circuitos de poder, dinheiro e influência que o discurso antissistema costuma denunciar.
Esse é o paradoxo: o bolsonarismo se apresenta como oposição ao sistema, mas seus principais representantes já fazem parte, há anos, do sistema político; ocupam cargos, controlam estruturas partidárias, negociam apoios e dependem de redes econômicas e institucionais.
A retórica antissistema não pode ser apenas uma embalagem eleitoral. Flávio terá de responder às perguntas sobre o caso, esclarecer responsabilidades e demonstrar que a promessa de ruptura não significa apenas substituir grupos no comando, preservando os mesmos mecanismos de privilégio e opacidade.
A questão não é explorar eleitoralmente qualquer denúncia sem provas. É exigir transparência. Quem pretende governar o país precisa explicar suas relações, suas escolhas e os interesses que pretende representar.
A eleição das rejeições
Talvez o dado mais preocupante das pesquisas atuais não esteja nas intenções de voto, mas nas rejeições.
Na Quaest, 54% afirmam que não votariam em Flávio Bolsonaro. Em Lula, são 52%. Esses números dizem muito sobre o país que chegará às urnas em outubro: o Brasil continua profundamente dividido.
Isso significa que Lula não poderá depender apenas da memória do desastre bolsonarista. Tampouco será suficiente organizar a campanha em torno da defesa das instituições democráticas, embora essa defesa continue absolutamente necessária.
Em 2022, derrotar Bolsonaro era, para milhões de brasileiros, uma urgência democrática. Havia um governo concreto a ser derrotado, uma tragédia sanitária ainda presente na memória coletiva, ataques ao Supremo Tribunal Federal, ameaças ao sistema eleitoral, isolamento internacional, destruição ambiental e uma atmosfera permanente de conflito institucional.
2026 é diferente.
Agora Lula é governo. O eleitor não compara apenas Lula com Bolsonaro. Compara as promessas de 2022 com sua própria vida em 2026.
Quanto custa o supermercado? Quanto custa o crédito? É possível comprar uma casa? Há emprego? O salário chega ao fim do mês? O filho consegue estudar? A escola é de qualidade? A família se sente segura? O pequeno empresário consegue financiar seu negócio? O jovem acredita que terá uma vida melhor que a dos pais?
É nesse terreno que a eleição será decidida.
A democracia precisa ser defendida. Mas, para sobreviver politicamente, precisa também chegar à mesa, ao salário, à escola, ao hospital, ao transporte e à esperança das pessoas.
Lula precisa disputar o futuro
O governo possui realizações para apresentar. Recuperou políticas sociais, recompôs relações internacionais, restaurou instituições degradadas e devolveu ao Brasil uma presença diplomática compatível com a importância do país.
Mas uma eleição presidencial não é um relatório de governo. E tampouco se vence apenas dizendo ao eleitor que o adversário seria pior.
Lula precisa responder a uma pergunta simples:
para onde pretende levar o Brasil nos próximos quatro anos?
A resposta precisa ser tão clara que possa ser compreendida por um trabalhador de fábrica, uma mãe da periferia, um agricultor, um pequeno empresário, um estudante universitário e um jovem em busca do primeiro emprego.
A campanha precisa falar de salário, emprego, moradia, educação, segurança, crédito e desenvolvimento. Precisa enfrentar os juros extorsivos e explicar por que uma economia submetida durante anos ao custo exorbitante do dinheiro transfere renda da produção para o rentismo.
Precisa dizer que equilíbrio fiscal não pode significar paralisia do Estado. Que investimento público não é desperdício quando constrói infraestrutura, escolas, hospitais, universidades, capacidade tecnológica e oportunidades. E que desenvolvimento não pode continuar sendo uma palavra ausente do debate brasileiro.
O Brasil não pode se resignar a administrar pobreza, desigualdade e baixo crescimento um pouco melhor que os governos anteriores. Precisa voltar a imaginar sua transformação.
Essa é uma disputa na qual Lula possui uma vantagem histórica extraordinária. Poucos líderes brasileiros conseguem falar simultaneamente aos trabalhadores, aos empresários, aos movimentos sociais e ao mundo político.
Mas essa capacidade precisa ser mobilizada. A campanha não pode transmitir a sensação de que pede apenas mais quatro anos para continuar fazendo o que já faz. Precisa oferecer uma segunda etapa.
Jovens e classe média não se conquistam pelo medo
Há um desafio adicional: reconquistar jovens e setores da classe média que não são bolsonaristas, mas estão insatisfeitos.
Esse eleitorado não necessariamente deseja a volta do passado. Muitas vezes, rejeita o bolsonarismo e, ao mesmo tempo, não se sente representado pelo governo. Está cansado da polarização, desconfia dos partidos, enfrenta dificuldades materiais e não vê uma perspectiva convincente de futuro.
Para os jovens, não basta falar em defesa da democracia. É preciso falar de autonomia, trabalho, ciência, tecnologia, cultura, saúde mental, mudança climática, mobilidade urbana e acesso à moradia. É preciso mostrar que o país terá lugar para eles — e que esse lugar não será apenas o de consumidores endividados ou trabalhadores submetidos à precarização.
Para a classe média, tampouco basta repetir que o adversário é uma ameaça. É necessário apresentar respostas para o custo de vida, a segurança, os impostos, a qualidade dos serviços públicos, o acesso ao crédito e a possibilidade de ascensão social.
A campanha de Lula precisa reconhecer a insatisfação sem tratá-la como ingratidão ou despolitização. Quem está frustrado não é automaticamente de direita. Mas pode ser capturado pela direita quando o campo progressista não oferece horizonte, linguagem nem respostas concretas.
Soberania também estará em disputa
A eleição será atravessada ainda pela interferência trumpista. A extrema direita brasileira tentará importar não apenas slogans e métodos de comunicação, mas uma visão de mundo na qual a política externa se transforma em instrumento de lealdade ideológica e submissão a interesses estrangeiros.
A questão da soberania, portanto, não será abstrata.
O Brasil terá de decidir se pretende formular sua política externa de acordo com seus interesses nacionais — defendendo sua economia, seus recursos, sua democracia e sua capacidade de negociação — ou se aceitará que decisões estratégicas sejam condicionadas por pressões externas e pela agenda de governos estrangeiros.
A influência de Donald Trump sobre a direita radical internacional não se limita às redes sociais. Ela envolve ataques às instituições, deslegitimação de eleições, nacionalismo econômico seletivo, desprezo pelo multilateralismo e a ideia de que a força deve substituir regras e compromissos.
O Brasil não pode terceirizar sua democracia nem sua soberania.
Defender a autonomia nacional não significa isolamento. Significa negociar com todos sem se subordinar a nenhum. Significa compreender que relações internacionais, política industrial, proteção ambiental, segurança energética e desenvolvimento tecnológico fazem parte da mesma disputa sobre o futuro do país.
O bolsonarismo tentará apagar a própria história
Flávio Bolsonaro enfrentará um problema inverso: terá de herdar Bolsonaro sem carregar integralmente o peso do governo Bolsonaro.
Precisará mobilizar a memória do pai e, simultaneamente, convencer parte do eleitorado moderado de que não significará a repetição de seus excessos.
É uma contradição enorme.
E é justamente aí que a campanha democrática precisa ser politicamente implacável. Não se pode permitir que o bolsonarismo reapareça em 2026 como se tivesse nascido ontem. Há uma história, responsabilidades e uma concepção de Estado, democracia, política social, relações internacionais e convivência institucional que foi colocada à prova quando esse grupo esteve no poder. O sobrenome Bolsonaro não pode servir simultaneamente como principal ativo eleitoral e como algo do qual o candidato se distancia quando a memória do governo anterior se torna inconveniente.
Flávio terá de responder pelo projeto político que pretende herdar.
O eleitor tem o direito de saber: o que permaneceria? O que mudaria? Qual seria sua relação com o Supremo Tribunal Federal? Qual sua posição diante dos ataques ao processo eleitoral? Qual sua política para a Amazônia? O que pensa sobre privatizações, universidades, SUS, salário mínimo e programas sociais? Qual seria sua política externa? Qual o papel do Estado?
É para isso que servem os debates.
Não para produzir frases de efeito destinadas às redes sociais, mas para obrigar os candidatos a responder pelo país que pretendem governar.
Os debates e a guerra digital
A proximidade dos debates introduz uma variável nova. Até agora, as campanhas puderam controlar cenários, discursos, vídeos e aparições. O debate reduz esse controle. É quando o candidato precisa reagir, quando contradições aparecem e perguntas incômodas não podem ser resolvidas com uma postagem cuidadosamente editada.
A decisão de Flávio de limitar sua participação nos debates do primeiro turno é politicamente reveladora. Quanto menos se expuser ao confronto simultâneo com Lula e com candidatos de direita que precisam retirar votos dele para sobreviver, menor o risco de se transformar no alvo preferencial de todos.
É uma estratégia compreensível. Mas também pode se tornar uma fragilidade. Quem pretende governar um país com mais de 200 milhões de habitantes não deveria temer o contraditório.
Lula, por sua vez, não deve tratar os debates apenas como um risco a administrar. Eles podem ser uma oportunidade para recolocar a eleição no terreno em que historicamente é mais forte: a comparação entre projetos de país.
Haverá ainda um campo provavelmente mais difícil que em 2022: o ambiente digital. A inteligência artificial tornou muito mais simples produzir imagens, áudios e vídeos falsos. Conteúdos emocionais circulam mais rapidamente que desmentidos. Algoritmos recompensam indignação, medo e conflito. A mentira política adquiriu capacidade industrial.
A campanha ocorrerá nas ruas, na televisão e nos debates — mas também milhões de vezes por dia nas telas dos celulares.
Nesse ambiente, defender a democracia significa defender também uma realidade compartilhada. Uma sociedade na qual ninguém consegue distinguir fato de fabricação torna-se especialmente vulnerável ao autoritarismo.
O problema, entretanto, não poderá ser resolvido apenas pelo TSE. Será uma disputa política pela verdade.
Não existe vitória antecipada
Há uma tentação perigosa no campo progressista: olhar as pesquisas, constatar que Lula aparece em primeiro lugar e concluir que a dinâmica fundamental da eleição está resolvida. Não está. Pesquisas são fotografias. Campanhas são filmes. E o filme de 2026 mal começou.
Nas próximas semanas haverá debates, propaganda eleitoral, denúncias, crises reais ou fabricadas, erros de campanha, acontecimentos internacionais, oscilações econômicas e uma guerra digital de intensidade provavelmente inédita.
O Brasil entrará em outubro submetido a uma disputa feroz pela interpretação da realidade.
De um lado estará um projeto que procura preservar a democracia, reconstruir políticas sociais, reduzir desigualdades, recuperar a capacidade de desenvolvimento e manter uma política externa soberana.
Do outro estará um campo político que tenta apresentar como novidade uma experiência que o Brasil já conhece — agora revestida de discurso antissistema e submetida à influência de uma extrema direita internacional.
É preciso dizer isso sem medo. Mas também é preciso reconhecer algo igualmente importante: o medo da volta do bolsonarismo não basta para construir o futuro. Uma campanha progressista precisa oferecer esperança. Precisa dizer não apenas aquilo que o Brasil não quer repetir, mas aquilo que o Brasil pode ser.
A verdadeira encruzilhada
Em julho, escrevi que o país se aproximava de uma encruzilhada. Hoje é possível dizer algo mais: o Brasil já chegou a ela.
A escolha de outubro não será entre um país perfeito e outro desastroso. Democracias reais nunca oferecem escolhas tão simples. Será entre projetos, prioridades, valores e concepções profundamente diferentes sobre quem deve pagar pela crise, quem deve se beneficiar do crescimento e qual deve ser o papel do Estado na construção do futuro.
Será também uma escolha sobre democracia — mas não apenas sobre a democracia das instituições. Será sobre democracia econômica. Sobre quem tem acesso à riqueza que produz. Sobre quem paga impostos e quem recebe juros. Sobre quem tem direito à educação de qualidade, pode sonhar com uma casa e envelhecer com dignidade. Sobre as oportunidades oferecidas aos jovens. Sobre se o Brasil continuará sendo uma das sociedades mais desiguais do planeta ou transformará sua enorme riqueza em instrumento de desenvolvimento coletivo.
É essa dimensão que a campanha de Lula precisa colocar no centro da eleição.
Não basta perguntar aos brasileiros se querem voltar ao passado. É preciso convidá-los a construir o futuro.
E talvez essa seja a verdadeira encruzilhada brasileira de 2026: escolher entre administrar nossas frustrações ou recuperar a capacidade de imaginar um país.
A campanha começou. Agora começa também a disputa pelo futuro.
Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).
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