
O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tentou jogar sobre a Globo o peso de sua relação com Daniel Vorcaro durante a sabatina do Jornal Nacional nesta sexta-feira (28). Questionado sobre o financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, ele comparou o dinheiro destinado ao filme a negócios do ex-controlador do Banco Master com empresas do grupo.
Flávio afirmou que Vorcaro teria destinado R$ 160 milhões a um programa de Luciano Huck e R$ 50 milhões à Editora Globo e a eventos do Valor Econômico, incluindo uma palestra em Nova York. Segundo o candidato, tanto o investimento no filme quanto os negócios com a Globo seriam relações privadas, feitas “de boa-fé” e sem ilegalidade. As cifras foram apresentadas por ele e não foram confirmadas durante a entrevista.
Há relações comerciais já conhecidas, mas os valores exigem ressalvas. O Will Bank, então controlado pelo grupo Master, patrocinou o “Domingão com Huck” em um acordo cujo custo foi estimado entre R$ 120 milhões e R$ 160 milhões. O site também mostrou que Vorcaro patrocinou e ocupou posição central em um evento do Valor Econômico em Nova York. Não há, porém, comprovação pública de um pagamento específico de R$ 50 milhões à Editora Globo nos termos apresentados por Flávio.
O argumento não é novo. Em maio, durante uma entrevista à GloboNews, Flávio já havia citado o suposto patrocínio de R$ 160 milhões para o programa de Huck ao tentar relativizar sua aproximação com Vorcaro. Na sabatina do JN, Renata Vasconcellos perguntou o que ele quis dizer ao escrever ao banqueiro que estaria “sempre contigo”. Flávio respondeu que sua única relação com Vorcaro envolvia o filme e chamou a produção sobre o pai de “obra-prima”.
🚨 Flávio Bolsonaro cita o contrato do Luciano Huck com Daniel Vorcaro em Sabatina da Globo e toma invertida do Tralli.
FLÁVIO NA GLOBO pic.twitter.com/Y8zp4VvvzK
— deok (@lauricadeok) August 29, 2026
César Tralli rebateu a comparação e afirmou que as relações da Globo com anunciantes são pautadas pelo cumprimento das leis, pelas regras de autorregulamentação publicitária e pela transparência. O apresentador acrescentou que a proximidade de Flávio com Vorcaro é relevante para os eleitores porque o banqueiro é investigado no caso Master, descrito por Tralli como “a maior fraude financeira do sistema brasileiro”.
Renata retomou a cobrança e lembrou que Flávio não apresentou o contrato com Vorcaro, uma planilha detalhada dos gastos, a identidade de todos os investidores nem quanto do dinheiro enviado a um fundo no exterior chegou efetivamente à produção. O candidato limitou-se a dizer que “todo o patrocínio que foi feito no filme foi usado no filme”. A prestação de contas prometida por Flávio não foi divulgada dentro do prazo anunciado por ele.
As informações reveladas sobre “Dark Horse” indicam que Flávio negociou com Vorcaro um pacote de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, e que pelo menos US$ 10,6 milhões, aproximadamente R$ 61 milhões, foram transferidos. As contradições sobre o contrato, o fundo no exterior, os investidores e o destino dos recursos já foram reveladas, além do fato de Vorcaro passou a tratar o filme como “prioridade” depois de cobranças feitas por Flávio.
O financiamento é objeto de um inquérito da Polícia Federal autorizado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Além disso, o responsável pela perícia privada apresentada sobre a produção admitiu que o trabalho não permite rastrear o destino final do dinheiro. A comparação com negócios comerciais da Globo, portanto, não respondeu às perguntas centrais sobre o contrato negociado por Flávio, os investidores do fundo e o caminho dos milhões enviados para o filme.