Na ONU, Lavrov diz que hegemonia ocidental está se esgotando e defende nova ordem multipolar

Da Redação

Em discurso na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, Sergey Lavrov afirmou que Estados Unidos e aliados tentam preservar privilégios de uma ordem internacional em transformação e apresentou BRICS e outras articulações do Sul Global como expressão de um sistema mais multipolar. O chanceler russo voltou a responsabilizar a expansão da Otan e governos europeus pela deterioração da segurança no continente, defendeu negociações para a Ucrânia sem aceitar uma paralisação prévia das operações militares e ofereceu participação russa numa arquitetura de segurança para o Golfo e o Estreito de Ormuz. Em um ponto diretamente relevante para o Brasil, Moscou reafirmou apoio a uma cadeira permanente brasileira no Conselho de Segurança da ONU, ao lado da Índia e de maior representação africana.

Sergey Lavrov subiu neste sábado, 26 de setembro, à tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas com uma mensagem que foi muito além da guerra na Ucrânia. Durante seu discurso em Nova York, o ministro das Relações Exteriores da Rússia procurou apresentar o conjunto das crises atuais como manifestações de uma transformação mais profunda: o enfraquecimento de uma ordem internacional organizada durante décadas em torno da primazia política, militar e financeira do Ocidente e a emergência de novos centros de poder na Ásia, África e América Latina.

A formulação central foi direta. Segundo Lavrov, uma ordem mundial “mais justa e multipolar” estaria surgindo diante dos olhos da comunidade internacional. O problema, na interpretação apresentada por Moscou, é que Estados Unidos e seus aliados continuariam tentando preservar privilégios e impor suas próprias regras enquanto essa redistribuição de poder avança. A Associated Press confirmou esse núcleo do pronunciamento e registrou que Lavrov criticou nominalmente a Otan e os Estados Unidos, embora não tenha atacado Donald Trump pelo nome.

A reportagem da RT que acompanha o discurso em tempo real enquadrou a intervenção exatamente nesses três eixos: Ucrânia, segurança internacional e emergência de uma ordem multipolar. O veículo também destacou a intensa agenda diplomática de Lavrov em Nova York, que incluiu reuniões com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, o secretário-geral da ONU, António Guterres, o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, e chanceleres de diversos países.

O discurso russo deve ser lido, porém, como a apresentação da posição de Moscou sobre a ordem internacional, e não como descrição consensual de suas causas. Rússia, Estados Unidos, União Europeia e Ucrânia apresentam interpretações profundamente conflitantes sobre a guerra iniciada pela invasão russa em larga escala de fevereiro de 2022, sobre a expansão da Otan e sobre a responsabilidade pelo fracasso das negociações posteriores.

O que torna a intervenção deste sábado especialmente relevante é outra coisa. Lavrov tentou conectar essas disputas a uma mudança estrutural que ultrapassa a própria Rússia.

BRICS, reforma da ONU, sistema financeiro internacional, sanções, conflitos no Oriente Médio, representação do Sul Global e autonomia dos países sobre seus recursos aparecem, na formulação russa, como partes da mesma reorganização do poder mundial.

Rússia apoia Brasil e Índia no Conselho de Segurança e rejeita Alemanha e Japão

Foi nesse ponto que o Brasil apareceu de maneira explícita.

Lavrov defendeu uma reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas que amplie a representação da Ásia, África e América Latina e reafirmou o apoio russo às candidaturas de Brasil e Índia como membros permanentes.

Ao mesmo tempo, rejeitou a concessão de novas cadeiras permanentes a países ocidentais, mencionando especificamente Alemanha e Japão.

A posição produz uma contradição diplomática interessante para Brasília.

Brasil, Alemanha, Índia e Japão formam o G4, grupo que há anos atua conjuntamente pela reforma do Conselho de Segurança e pela entrada dos quatro países como membros permanentes. Na própria terça-feira, 22 de setembro, os chanceleres do G4 reuniram-se em Nova York e reafirmaram a defesa da ampliação tanto das cadeiras permanentes quanto das não permanentes, com maior presença de países atualmente sub-representados. A

Moscou, portanto, apoia metade do G4 e rejeita a outra metade.

Lavrov argumentou que os países ocidentais já possuem representação desproporcional no Conselho e que uma eventual expansão deveria corrigir a sub-representação da Ásia, África e América Latina. A Rússia já vinha sustentando oficialmente essa posição antes da Assembleia: em entrevista ao jornal O Globo em 2025, Lavrov declarou que considerava o Brasil um candidato adequado a uma cadeira permanente, defendia também a Índia e maior representação africana, mas rejeitava Alemanha e Japão.

A estrutura atual do Conselho ajuda a explicar a disputa. Dos 15 integrantes, cinco são permanentes e possuem poder de veto: Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. Os outros dez ocupam mandatos temporários.

A composição preserva essencialmente a correlação de forças criada depois da Segunda Guerra Mundial, apesar da descolonização, da ascensão econômica da Ásia e do aumento extraordinário da participação de países em desenvolvimento na economia e na política internacionais.

Alterar essa estrutura, contudo, exige muito mais do que apoio político em discursos. Uma mudança na Carta das Nações Unidas precisa ser aprovada por dois terços da Assembleia Geral e posteriormente ratificada por dois terços dos Estados-membros, incluindo todos os cinco membros permanentes do Conselho.

É exatamente aí que a multipolaridade defendida por Lavrov encontra uma de suas contradições institucionais. Rússia, China, Estados Unidos, França e Reino Unido defendem diferentes formas de reforma, mas todos preservam no sistema atual um poder de veto que os distingue dos outros 188 Estados-membros da ONU.

A discussão não é abstrata.

Brasil e Índia representam juntos mais de 1,6 bilhão de pessoas e ocupam posições centrais no BRICS, no G20 e nas articulações do chamado Sul Global. A África, com mais de 1,5 bilhão de habitantes e 54 países reconhecidos pela ONU, continua sem qualquer membro permanente no Conselho.

Para Moscou, alterar essa distribuição seria uma expressão institucional do mundo multipolar que a Rússia afirma já estar emergindo.

Ucrânia expõe o limite entre o discurso multipolar e a disputa militar

A Ucrânia continua sendo o ponto em que o projeto diplomático russo encontra sua contradição mais imediata.

Lavrov voltou a argumentar que a guerra deve ser compreendida a partir de um processo anterior a fevereiro de 2022. Na narrativa de Moscou, a expansão da Otan em direção às fronteiras russas, o fracasso dos acordos de Minsk e a rejeição das propostas de segurança apresentadas pela Rússia aos Estados Unidos e à aliança atlântica em dezembro de 2021 constituem causas fundamentais do conflito.

A Ucrânia e seus aliados rejeitam essa justificativa e sustentam que nenhuma dessas disputas autorizava a Rússia a invadir território ucraniano. A Assembleia Geral da ONU aprovou desde 2022 resoluções reafirmando a soberania e a integridade territorial da Ucrânia e condenando ações russas.

No discurso deste sábado, Lavrov acusou países europeus de tentarem impedir avanços diplomáticos e afirmou que a política de contenção da Rússia contribuiu para desmontar a arquitetura de segurança europeia. A AP registrou que o chanceler defendeu novamente a posição russa sobre a guerra e dirigiu críticas particularmente duras ao Ocidente.

A situação diplomática, entretanto, é mais complexa do que um bloqueio absoluto entre Washington e Moscou.

Três dias antes do discurso, Lavrov se reuniu em Nova York com Marco Rubio. Depois do encontro, o secretário de Estado americano afirmou que Rússia e Ucrânia demonstraram interesse em algum tipo de cessar-fogo limitado relacionado a energia e grãos. Rubio advertiu que alcançar esse acordo seria difícil e não afirmou que existisse um compromisso fechado.

Washington também convidou Vladimir Putin para a reunião do G20 prevista para dezembro nos Estados Unidos. Segundo Rubio, a administração Trump considera o encontro uma oportunidade para que o presidente russo converse tanto com Trump quanto com outros dirigentes internacionais.

Ao mesmo tempo, o Kremlin mantém uma posição que limita o alcance imediato dessa abertura. Pouco antes do encontro Lavrov-Rubio, o porta-voz Dmitry Peskov afirmou que Moscou continuava aberta a negociações, mas que ainda não enxergava condições para passar efetivamente a uma negociação de paz.

Lavrov também havia declarado no Conselho de Segurança que a Rússia não pretende simplesmente interromper suas operações militares enquanto negocia. Moscou argumenta que uma pausa permitiria à Ucrânia reorganizar e rearmar suas forças. Kiev e seus aliados, por outro lado, vêm pressionando por um cessar-fogo e por garantias para a infraestrutura energética e a navegação no Mar Negro.

O resultado é uma diplomacia aparentemente contraditória.

Estados Unidos e Rússia voltaram a conversar em alto nível. Washington afirma que existem áreas limitadas nas quais Moscou e Kiev demonstram interesse em reduzir as hostilidades. Ao mesmo tempo, os combates continuam e não existe acordo sobre os elementos fundamentais de uma solução territorial e de segurança.

Esse cenário ajuda a entender por que Lavrov diferenciou, em suas declarações recentes, a administração Trump dos governos europeus.

Em pronunciamentos anteriores neste mês, o chanceler disse valorizar o fato de Trump ter restabelecido o diálogo direto com Moscou, mas ressaltou que isso não produziu até agora uma transformação material suficiente na relação. Lavrov lembrou que sanções adotadas durante o governo Joe Biden permanecem vigentes e que a administração Trump acrescentou novas medidas contra entidades russas.

Ou seja: a Rússia reconhece uma mudança no método diplomático de Washington, mas não afirma que Estados Unidos e Moscou tenham superado seus conflitos estratégicos.

De Ormuz ao BRICS, Lavrov tenta apresentar uma alternativa à ordem comandada pelo Ocidente

O Oriente Médio forneceu a Lavrov outro terreno para desenvolver sua tese.

Diante da guerra entre Estados Unidos e Irã e da instabilidade no Estreito de Ormuz, o chanceler afirmou que é necessária uma arquitetura regional de segurança baseada na confiança entre países árabes e o Irã. Disse ainda que a Rússia está preparada para contribuir para a estabilização do Golfo e da passagem marítima estratégica.

A importância de Ormuz é difícil de exagerar. A região permanece no centro da crise energética provocada pela guerra iniciada em fevereiro entre Estados Unidos, Israel e Irã, enquanto negociações diplomáticas tentam criar condições para reduzir as hostilidades e normalizar a navegação.

Lavrov encontrou-se nesta semana com o chanceler iraniano Abbas Araghchi. Segundo o Ministério das Relações Exteriores russo, os dois defenderam uma solução diplomática para a crise. Moscou atribui sua origem às ações militares americanas e israelenses, interpretação contestada por Washington e Israel.

A posição russa sobre Gaza segue linha semelhante. Moscou defende a criação de um Estado palestino com base nas fronteiras anteriores a 1967, com Jerusalém Oriental como capital, ao lado de Israel. Em agosto, a representação russa na ONU afirmou que a expansão dos assentamentos israelenses e o projeto E1 ameaçam a viabilidade territorial de um futuro Estado palestino.

Essas posições ajudam a explicar por que Lavrov tentou deslocar seu pronunciamento para além da relação Rússia-Ocidente.

A tese apresentada por Moscou é que BRICS, Organização para Cooperação de Xangai e outras articulações regionais refletem a emergência de centros de poder que não pretendem simplesmente substituir uma hegemonia por outra, mas ampliar a capacidade dos Estados de conduzir políticas externas independentes.

Essa é a formulação russa.

Há uma disputa evidente sobre ela.

Críticos de Moscou argumentam que a defesa russa da soberania entra em choque com sua própria invasão da Ucrânia. A Rússia responde sustentando que o conflito decorreu de ameaças à sua segurança, da expansão da Otan e do tratamento dispensado às populações russófonas. São interpretações antagônicas de uma guerra que já dura mais de quatro anos e para a qual a diplomacia ainda não encontrou uma saída.

Mas existe um elemento do discurso de Lavrov que ultrapassa essa controvérsia.

A distribuição internacional do poder econômico efetivamente mudou. Países da Ásia, África e América Latina reivindicam maior participação em instituições construídas no pós-guerra. O BRICS ampliou sua composição, e Brasil, Índia e países africanos intensificaram a pressão pela reforma do Conselho de Segurança.

É nesse movimento que Moscou procura se inserir.

Lavrov apresentou a Rússia não apenas como uma potência em confronto com o Ocidente, mas como participante de uma coalizão mais ampla interessada em reformar instituições internacionais, reduzir dependências financeiras e ampliar o peso político do Sul Global.

A afirmação de que essa transformação necessariamente produzirá uma ordem “mais justa” é uma avaliação política russa, não uma consequência automática da multipolaridade. Um sistema com vários polos pode ampliar a margem de negociação de países médios, mas também pode produzir novas disputas entre grandes potências.

A própria Assembleia Geral desta semana expôs essa tensão.

Donald Trump utilizou a tribuna para defender uma política americana baseada no poder militar dos Estados Unidos, inclusive prometendo empregar sua capacidade militar no Hemisfério Ocidental contra organizações classificadas por Washington como terroristas

Quatro dias depois, Lavrov ocupou o mesmo púlpito para argumentar que a época em que uma potência ou um pequeno grupo de países conseguia definir sozinho as regras internacionais estaria chegando ao fim.

Entre os dois discursos existe uma parte importante da disputa geopolítica contemporânea.

E o Brasil aparece dentro dela de maneira particularmente interessante: aliado de Alemanha e Japão no G4, parceiro de Rússia, China e Índia no BRICS, interlocutor dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, candidato a uma cadeira permanente no principal órgão de segurança internacional.

Por isso, talvez a passagem de maior consequência concreta para Brasília não tenha sido a crítica de Lavrov a Washington ou à Otan.

Foi a reafirmação russa de que, se o Conselho de Segurança finalmente for reformado para refletir uma distribuição de poder diferente daquela de 1945, o Brasil deve estar entre os países sentados permanentemente à mesa.

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