
A Meta recebeu ao menos R$ 1,1 milhão para veicular centenas de anúncios eleitorais que violam regras da própria empresa e a legislação brasileira, segundo estudo da organização inglesa Eko. O levantamento identificou 26 perfis que fizeram os pagamentos entre 25 de agosto e 2 de setembro.
Os anúncios incluíam deepfakes sem identificação de que haviam sido produzidos por inteligência artificial. Em setembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vedou conteúdos verossímeis gerados por IA, favoráveis ou contrários a candidatos.
A Eko coletou os dados na Biblioteca de Anúncios da Meta e calculou entre 2,2 milhões e 2,6 milhões de impressões para as peças analisadas. Parte do conteúdo saiu do ar somente depois de alcançar ampla circulação no Facebook e no Instagram.
Pesquisadores afirmaram que a empresa “está lucrando com desinformação e conteúdo gerado por IA e o está fazendo abertamente”.

Perfis reativados e anúncios pagos do exterior
O estudo encontrou páginas administradas a partir de Peru, Colômbia e Guatemala, além de anúncios pagos em moeda estrangeira. A legislação eleitoral proíbe essas práticas, que dificultam a identificação da origem dos recursos usados na campanha.
Diversos perfis se apresentavam como veículos noticiosos ou jornalísticos, classificação que permite a plataformas promoverem conteúdo produzido por redações profissionais. A Eko relatou que algumas contas passaram por longo período sem atividade, voltaram a operar e impulsionaram dezenas de anúncios em poucos dias, num padrão que chamou de “central de anúncios eleitorais ilegais”.
A página “Soldados do Capitão”, criada em 2023 e sem atividade até agosto de 2026, mudou de nome pouco antes de veicular 62 anúncios que custaram R$ 6 mil. O perfil, que não tinha seguidores nem outras publicações, impulsionou material que atacava Fábio Luís, filho de Lula conhecido como Lulinha.
Já a página “A Voz do Povo”, criada em 2023 e com 2.500 seguidores, pagou 20 anúncios com conteúdo sintético sem rótulo de IA. Um dos vídeos mostrava Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente argentino Javier Milei com corpos musculosos, enquanto Lula e a primeira-dama Janja carregavam sacolas de marcas de luxo em uma cena situada em Paris.
Outra página, “Contra a Maré”, gastou mais de R$ 140 mil em 90 dias com publicações que questionavam se a família Bolsonaro seria uma organização criminosa. A Eko apontou que esse tipo de material confronta a proibição de usar IA sem identificação para ataques políticos.
No Brasil, apenas candidatos, partidos e campanhas podem pagar por propaganda político-eleitoral digital. Mesmo esses atores não podem atacar adversários com anúncios nem usar conteúdo gerado por IA, e campanhas não podem receber recursos de origem estrangeira. Nas 48 horas anteriores à votação, a Justiça Eleitoral também proíbe qualquer anúncio digital.
Em nota, a Meta declarou que está “comprometida em proteger o processo eleitoral” e disse que seus sistemas classificaram corretamente a maior parte das peças como conteúdo sobre temas sociais, eleições ou política. A empresa afirmou ainda que removeu anúncios que violaram suas políticas e que a análise manual de 30 anúncios “não reflete a escala” de suas ações de revisão.