Manipulação do cenário nas eleições de 2026, por Ludimila Cindra

da Rede Lawfare Nunca Mais

MANIPULAÇÃO DO CENÁRIO NAS ELEIÇÕES DE 2026 – quando a disputa eleitoral se transforma em disputa pela soberania nacional.

por Ludimila Cindra

Não é de hoje que é possível observar, com crescente inquietação, o modo como as eleições brasileiras são conduzidas. E isso não se refere à dinâmica normal do debate democrático – essa é saudável e necessária. Trata-se de algo mais profundo, mais estrutural e mais perturbador: a manipulação do cenário eleitoral como estratégia deliberada para definir não apenas quem ganha, mas o que o Brasil será nos próximos anos.

Em 2026, o país não está diante de uma simples disputa entre candidatos. Está diante de uma disputa sobre qual será o seu lugar no mundo. E, por incrível que pareça, essa disputa está sendo moldada por forças que vão muito além das fronteiras nacionais.

Quando o Brasil ousou sonhar grande

É preciso recordar um período em que o Brasil pareceu, finalmente, pronto para ocupar o protagonismo que sempre lhe foi negado. Durante os governos Lula, entre 2003 e 2010, o país experimentou uma projeção internacional como nunca antes vista.

Foi descoberto o pré-sal. Uma tecnologia de exploração de petróleo em águas profundas foi desenvolvida e reconhecida mundialmente. As empresas nacionais de engenharia disputavam projetos no exterior. O Brasil fortaleceu laços com a África, a América Latina e a China. Participou ativamente da criação dos BRICS. Chegou, em 2011, à sexta posição entre as maiores economias do mundo.

Pela primeira vez, parecia possível que o Brasil deixasse de ser coadjuvante para se tornar protagonista. Pela primeira vez, tudo levava a crer que o país poderia sentar à mesa das grandes potências em pé de igualdade.

Foi justamente nesse momento de ascensão que surgiu a Lava Jato, a maior operação de lawfare do mundo.

Lava Jato: o discurso e a realidade

Foram muito os brasileiros de todos os matizes políticos que acreditaram que a Lava Jato era uma cruzada necessária contra a corrupção. O discurso era sedutor. “Vamos prender os poderosos. Vamos limpar o Brasil.” Quem não se empolgou?

Mas o tempo passou.  E foi preciso olhar para os fatos, não para o discurso. O que a Lava Jato efetivamente entregou? Empresas brasileiras que competiam internacionalmente foram destruídas ou profundamente enfraquecidas. Milhares de empregos desapareceram. A engenharia nacional perdeu espaço internacional. Cadeias produtivas inteiras foram desmontadas.

E, politicamente, um nome foi transformado no símbolo de toda a corrupção nacional: Luiz Inácio Lula da Silva. Lula foi preso. Foi impedido de disputar as eleições de 2018 – mesmo liderando todas as pesquisas. O principal candidato simplesmente deixou de participar do pleito.

Anos depois, suas condenações seriam anuladas. O Supremo Tribunal Federal reconheceria a parcialidade de Sergio Moro. Mas havia algo que nenhuma decisão judicial poderia devolver: a eleição de 2018. O tempo político não volta.

Assim, é possível indagar:  o combate à corrupção era realmente o objetivo central da Lava Jato ou foi a justificativa perfeita para retirar Lula do caminho e desmontar um projeto de desenvolvimento que começava a incomodar interesses muito maiores?

Depois de Lula, o “Messias”

Com Lula preso, surgiu Jair Messias Bolsonaro. E depois de anos com a mídia corporativa construindo a percepção de que o Brasil estava destruído e precisava ser salvo, apareceu justamente aquele que se apresentaria como salvador. A fórmula é velha, mas funciona: constrói-se a sensação de caos; identifica-se o inimigo; apresenta-se o homem capaz de salvar a nação.

Bolsonaro chegou ao poder com essa promessa. E o que se viu? Um alinhamento subserviente aos Estados Unidos de Donald Trump, o abandono da política externa independente e a transformação do Brasil em mero coadjuvante de uma agenda estrangeira. Até que Lula voltou. E com ele, a defesa de uma política externa soberana, o diálogo com todos e submissão a nenhum.

2026: o mesmo filme, novo elenco

Eis que o país chega a 2026. E o filme parece estar sendo refilmado com novos atores.

A família Bolsonaro construiu uma relação estreita com o trumpismo. O Brasil passou a enfrentar pressões e tarifas comerciais dos Estados Unidos. E quem paga? Não é Lula. São os produtores, as empresas, os trabalhadores brasileiros.

Então, acontece algo politicamente inquietante: Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, apresenta sua proximidade com Trump como uma vantagem para “solucionar” os conflitos entre Brasil e EUA. Existe uma lógica em tudo isso.  O mesmo campo político que ajudou a internacionalizar o conflito agora diz ao eleitor: “Nós somos os únicos capazes de resolver o problema porque temos acesso a Trump.” Primeiro, criam o problema. Depois, apresentam-se como salvadores.

E Lula é apresentado como o responsável pelas consequências de uma pressão que vem de fora. A pergunta que não quer calar: por que o Brasil precisaria eleger o candidato mais conveniente a uma potência estrangeira para não sofrer pressões econômicas dessa mesma potência?

Aceitar essa lógica é deixar de falar de diplomacia e passar a falar de submissão.

Banco Master: as conexões que tentam esconder

O escândalo do Banco Master veio a público com força. Daniel Vorcaro passou a ocupar as manchetes diárias. Rapidamente, começou uma disputa política para associar o caso a Lula e a seu governo. Mas há uma parte da história que insistem em esquecer.

Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, doou R$ 3 milhões à campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2022. E mais R$ 2 milhões à campanha de Tarcísio de Freitas em São Paulo, num total de R$ 5 milhões, dos quais R$ 3 milhões foram direto para a campanha de Bolsonaro. https://www.metropoles.com/sao-paulo/alvo-da-pf-cunhado-de-vorcaro-doou-r-5-milhoes-para-tarcisio-e-bolsonaro

A doação, por si só, não é ilegal. Mas é um fato politicamente relevante. E não é a única conexão existente entre eles.

Reportagens revelaram negociações diretas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para o financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Flávio reconheceu a negociação, embora negue ter oferecido qualquer vantagem em troca. O episódio ganhou relevância política em pleno ciclo eleitoral de 2026.

Como explicar por que as conexões do Banco Master com o campo bolsonarista recebem tratamento tão diferente das conexões com o governo Lula? Se proximidade importa, deve importar para todos. Se financiamento importa, deve importar para todos. Não se trata de substituir uma acusação por outra. Trata-se de exigir o mesmo critério.

O caso Fábio Luís: investigação, indícios e o risco da condenação antecipada

Quando as relações do Banco Master com o bolsonarismo vieram à tona, outra frente de ataque se abriu: investigações contra Fábio Luís Lula da Silva, por suspeita de tráfico de influência.

Até o momento, não foi identificado contrato formalizado nem comprovado o recebimento de dinheiro por Fábio Luís, no âmbito das acusações de tráfico de influência. Ao mesmo tempo, a existência de uma investigação, de movimentações financeiras sob apuração ou de indícios considerados relevantes pela Polícia Federal, não equivale, por si só, à comprovação do crime de tráfico de influência.

Até o momento, o ponto central deve ser preservado: investigação não é condenação, indício não é prova definitiva e suspeita não autoriza antecipar um juízo de culpa.

A Procuradoria Geral da República pediu o envio da investigação para a primeira instância, por não identificar autoridade com foro privilegiado que justificasse a permanência do caso no Supremo Tribunal Federal. O que existe deve ser investigado com rigor — mas, com o mesmo rigor, também deve ser rejeitada a transformação automática de elementos investigativos em sentença política.

O próprio presidente Lula declarou publicamente que seu filho deve ser investigado e, se houver irregularidade, deve ser punido. Mas investigação não é condenação. Suspeita não é prova.

O que ressalta claramente é o timing. As investigações ganham enorme repercussão justamente às vésperas das eleições. O caso tem potencial para causar forte desgaste político. Há desconfiança, até mesmo entre integrantes do governo, de que parte dessa movimentação tenha motivações eleitorais.

O Brasil já viu esse filme. Em 2018, condenações antecipadas pela opinião pública roubaram de Lula a chance de disputar a eleição. Depois, as condenações caíram. Mas a eleição não voltou.

O método se repete

Os personagens mudam. As circunstâncias mudam. Os instrumentos mudam. Mas determinados mecanismos permanecem e parecem assustadoramente familiares: constrói-se a crise; escolhe-se o culpado; repete-se a narrativa até que ela adquira aparência de verdade; apresenta-se o salvador.

Foi assim em 2018. E existe o risco de que, em 2026, a soberania brasileira seja novamente transformada em matéria-prima de uma estratégia eleitoral.

Por que o Brasil vale tanto?

Talvez esta seja a parte mais importante de todas. Por que existe tanta disputa em torno do destino do Brasil? Porque o Brasil possui: petróleo; água biodiversidade; território continental; capacidade agrícola gigantesca; matriz energética estratégica; conhecimento científico; tecnologia; mercado consumidor; posição geopolítica privilegiada; terras raras e minerais críticos essenciais para a economia do século XXI, para a transição energética, para a fabricação de equipamentos eletrônicos e para a indústria de defesa. Quem controlar essas riquezas terá poder econômico e geopolítico.

Por isso, soberania não é uma palavra abstrata. É decidir quem explora o petróleo. É controlar os recursos naturais. É proteger a indústria. É produzir tecnologia própria. É ter empresas competitivas. É fazer política externa de forma diplomática, sem pedir permissão a ninguém.

2026: muito mais que uma eleição

Talvez esta seja a grande reflexão que o Brasil precisa fazer antes de outubro. Uma democracia não precisa de Messias. Não precisa de alguém que ajude a criar um problema e depois apareça oferecendo a solução. Não precisa eleger um presidente por sua submissão a potências estrangeiras. O Brasil precisa de instituições fortes; indústria nacional; empresas competitivas; tecnologia e ciência; diplomacia soberana; desenvolvimento.

Pode-se gostar ou não de Lula. Pode-se criticar seu governo, suas escolhas e seus aliados. Isso é democracia. Mas nas eleições de 2026, é preciso olhar além das manchetes. É preciso perguntar: quem ganha quando empresas brasileiras são destruídas? Quem ganha quando a Petrobras é enfraquecida? Quem ganha quando o Brasil abre mão de controlar seus recursos estratégicos? Quem ganha quando o brasileiro passa a acreditar que precisa eleger alguém capaz de agradar a uma potência estrangeira para que seu próprio país não seja punido? Quem ganha quando uma investigação ainda em curso é apresentada ao público como se já existisse uma condenação?

O Brasil não precisa de permissão para ser grande

O Brasil não precisa ser inimigo dos Estados Unidos. Não precisa ser inimigo da China. Não precisa ser inimigo da Rússia. Não precisa ser inimigo da Europa. O Brasil precisa dialogar com todos. Mas precisa ser aliado de si mesmo.

Esta, talvez, seja a verdadeira escolha histórica das eleições de 2026. Não escolher somente quem ocupará o Palácio do Planalto. Escolher qual é a concepção de Brasil para as próximas décadas. Um país que aceita novamente o lugar de subordinado, ou uma nação que assume suas riquezas, sua capacidade e seu direito de participar da construção do futuro do mundo.

A escolha é do povo

Toda vez que alguém se apresentar como o único capaz de salvar o Brasil de uma ameaça externa, é preciso fazer algumas perguntas antes de entregar o voto: Quem ajudou a criar a ameaça da qual agora promete a salvação? E, diante de cada nova acusação, perguntar também: isso já foi provado ou está sendo usado para influenciar os eleitores?

Em 2026, não será escolhido apenas um presidente. Será escolhido lugar que o Brasil ocupará no mundo. Se será um país protagonista ou coadjuvante. Se o povo brasileiro aceitará ser conduzidos pelo medo ou se, finalmente, assumirá o direito de determinar o próprio destino.

Ludimila CindraAdvogada e ativista de Direitos Humanos. Membra da Rede Lawfare Nunca Mais

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