A possibilidade de interferência de Donald Trump nas eleições brasileiras em favor de Flávio Bolsonaro escalou, ganhando contornos mais nítidos a poucos dias do primeiro turno das eleições presidenciais. Sinais bastante claros, vindos de diferentes fontes, apontam para esse grave risco à democracia e à soberania nacionais, por meio de uma ação sem precedentes desde a redemocratização.
Nesta quinta-feita (24), conforme noticiou a Folha de S. Paulo, Bernie Sanders, senador independente dos Estados Unidos, e outros 30 deputados democratas enviaram carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, cobrando explicações sobre ações dos EUA que poderiam servir como uma forma de ingerência no pleito.
De acordo com o jornal, a mensagem diz que “as ações mais recentes da administração apontam para uma aparente tentativa de interferir e potencialmente minar as eleições gerais do Brasil em outubro”.
Na segunda-feira (21), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com, em Nova York, com Sanders e o prefeito da cidade, Zohran Mamdani. Na ocasião, Sanders apoiou, de maneira incisiva, o direito soberano de o povo brasileiro decidir sobre sua política, economia e sociedade e defendeu que setores progressistas dos EUA defendam essa agenda.
Nível crítico
Também nesta semana, foi tornado público o relatório “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”, da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). O informe foi encaminhado ao Palácio do Planalto, ao Ministério da Justiça e ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) no final de agosto. Nele, o órgão afirma que tal hipótese atingiu “nível de criticidade”.
O documento ainda aponta para a “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil” e para a “intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA”.
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Segundo a Agência, a intromissão estadunidense se daria por meio de um movimento “gradual, combinado e adaptativo”, capaz de atingir empresas, instituições e pessoas por meio do sistema financeiro, do comércio exterior e de medidas sancionatórias.
A Abin aponta, como motivações, o interesse dos Estados Unidos de hegemonizar a América Latina, bem como evitar a influência da China sobre ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestrutura. Neste momento, o foco central são as terras raras.
Como exemplos dessa tentativa de ingerência, cita tarifas impostas a produtos brasileiros, sanções contra pessoas e empresas, restrições diplomáticas e a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, o que amplia a possibilidade de intervenções indevidas no País.
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Além disso, a Abin indica que as sanções anunciadas em julho contra brasileiros e empresas acusados pelos EUA de vínculos com redes de lavagem de dinheiro associadas ao PCC representaram uma “mudança de fase” por produzirem consequências financeiras concretas.
De acordo com apuração feita pela CNN Brasil, o governo brasileiro avalia que a ingerência, de fato, já está acontecendo e poderá aumentar até o segundo turno, por meio de quatro eixos principais. O primeiro seria via pressão política direta de Trump e de Rubio, como ocorreu nas eleições de outros países da região, como Colômbia e Honduras.
Outro eixo seria o impulsionamento de perfis favoráveis a Flávio Bolsonaro a partir dos EUA. O terceiro consiste no financiamento da candidatura pelo fundo Rockbridge, do vice-presidente americano J.D. Vance — o que motivou denúncia do PT junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) — e, por fim, articulações entre autoridades dos EUA e influenciadores brasileiros.
Reações
Entre as denúncias e reações mais recentes contra a ingerência dos Estados Unidos estão as ações apresentadas pela campanha de Lula e o PT junto ao Supremo Tribunal Federal (STF), solicitando medidas urgentes para verificar a existência de interferência por parte dos EUA no processo eleitoral brasileiro.
Ao mesmo tempo, o PT ajuizou ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em que acusa o senador Flávio Bolsonaro e seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, ambos do PL, de abuso de poder político, econômico e dos meios de comunicação. A alegação é que ambos se articulam com Trump para influenciar as eleições em favor de Flávio.
“Desse arranjo decorrem danos diretos à soberania nacional, à liberdade do voto e à normalidade do processo eleitoral brasileiro e, mais do que isso, a própria interferência externa no resultado do pleito”, diz a ação.
Em reação contundente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva denunciou tal tentativa na abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral, em Nova York, na terça (22).
“Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais. Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão. Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país”, afirmou.
Lula prosseguiu dizendo que “sob o olhar atento de uma cidadania plural e de uma imprensa livre, não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros”.
Em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional, exibida na véspera da abertura da Assembleia Geral, Lula enfatizou: “É muito importante que os Estados Unidos não se metam nas eleições do Brasil, como eu não me meto nas eleições de vocês”, afirmou. “As eleições brasileiras são do interesse do povo brasileiro. As dos americanos são do interesse do povo americano.”
Também nesta semana, tendo como base outro relatório da Abin sobre o tema, o Instituto Vladimir Herzog encaminhou carta ao secretário-geral da ONU, Antonio Guterres. A mensagem denuncia a existência de “sinais concretos de uma dinâmica de ingerência externa sobre o processo político e eleitoral brasileiro e de uma tentativa de condicionar decisões soberanas tomadas por nossas instituições”.
E prossegue: “Mais grave ainda: tememos que, caso essas pressões não produzam o resultado político pretendido antes da eleição, possam ser sucedidas por uma estratégia destinada a desacreditar o pleito, questionar sua legitimidade, retardar seu reconhecimento internacional e produzir instabilidade política depois da votação”.