Governo Merz desaba na Alemanha enquanto AfD dispara e abre vantagem histórica sobre conservadores

Nova pesquisa coloca extrema direita em 30,5% e CDU/CSU em apenas 17,5%, ampliando para 13 pontos a distância entre os dois blocos; somente 10% dos alemães aprovam o trabalho do chanceler em outro levantamento, enquanto crise econômica, desgaste social e derrotas regionais aprofundam terremoto político

Da Redação

A crise do governo de Friedrich Merz deixou de ser apenas uma sequência de pesquisas ruins e começa a assumir as dimensões de uma transformação do sistema político alemão. Uma nova pesquisa nacional do instituto INSA divulgada nesta segunda-feira, 5 de outubro, colocou a Alternativa para a Alemanha (AfD) em 30,5% das intenções de voto, o maior índice já registrado pelo partido no levantamento, enquanto a aliança conservadora CDU/CSU, comandada pelo chanceler, caiu para apenas 17,5%. A diferença entre as duas forças chegou a 13 pontos percentuais, consolidando uma situação que, até poucos anos atrás, pareceria extraordinária: o partido situado à direita da democracia-cristã tradicional tornou-se, por ampla margem, a principal força eleitoral do país.

Os números atualizam e tornam ainda mais dramática a pesquisa destacada pela RT no fim de semana. Na rodada anterior do INSA, realizada entre 28 de setembro e 2 de outubro com 1.202 eleitores, a AfD havia alcançado 30%, enquanto CDU e CSU apareciam com 18%, o pior resultado já registrado para a aliança conservadora pelo instituto. O SPD, que governa em coalizão com Merz, tinha somente 14%, mesmo percentual dos Verdes, enquanto a esquerda Die Linke alcançava 10%. A fotografia já mostrava um sistema partidário profundamente alterado. A atualização desta segunda-feira acrescenta meio ponto à AfD, retira outro meio ponto da União e amplia ainda mais a distância entre os dois campos.

A dimensão do desastre para Merz aparece quando esses números são comparados com a situação existente quando ele chegou à chancelaria. O bloco CDU/CSU estava próximo de 30% nas pesquisas antes de sua posse, em maio de 2025. Agora, segundo o INSA, perdeu aproximadamente 12 pontos e aparece pouco acima da metade daquele patamar. A AfD percorreu o caminho inverso e chegou aos 30%, transformando a ultrapassagem sobre os conservadores, inicialmente vista como circunstancial, numa vantagem persistente e crescente.

Outro grande levantamento divulgado nos últimos dias aponta na mesma direção, ainda que apresente números diferentes. O ARD-DeutschlandTrend de outubro, produzido pelo Infratest dimap, colocou a AfD em 27% e CDU/CSU em 20%. Os Verdes aparecem com 16%, o SPD com 13% e Die Linke com 11%. As diferenças entre os institutos são normais e impedem tratar qualquer percentual isolado como descrição exata do eleitorado, mas os dois levantamentos convergem num ponto politicamente decisivo: a AfD ocupa atualmente a primeira posição e o bloco de Merz atravessa uma crise severa.

O problema do chanceler torna-se ainda mais grave quando a pesquisa deixa os partidos de lado e pergunta diretamente sobre seu governo. Apenas 10% dos entrevistados pelo DeutschlandTrend disseram estar satisfeitos com o trabalho de Merz. O índice é o menor registrado para qualquer chanceler desde o início dessa série de pesquisas, em 1997. Nada menos que 88% disseram estar pouco ou nada satisfeitos. A avaliação da coalizão governamental é igualmente ruim: somente 10% aprovam seu desempenho.

O INSA apresenta números um pouco menos devastadores, mas ainda extraordinariamente negativos. Na pesquisa divulgada no fim de semana, 15% manifestaram satisfação com o trabalho de Merz, contra 79% de insatisfeitos. A avaliação do governo como um todo ficou praticamente no mesmo nível: 14% satisfeitos e 79% insatisfeitos. Não se trata, portanto, de uma peculiaridade metodológica de um único instituto. Diferentes levantamentos estão captando um profundo desgaste do chanceler e de sua coalizão.

O fracasso de uma promessa de estabilidade

Merz chegou ao poder prometendo justamente o contrário do cenário que enfrenta agora. Depois da crise do governo anterior, comandado pelo social-democrata Olaf Scholz, o líder democrata-cristão apresentou-se como representante de uma restauração da previsibilidade econômica e política alemã. Empresário antes de retornar à linha de frente partidária, defensor de posições economicamente liberais e de uma CDU mais conservadora, prometeu recuperar competitividade industrial, controlar as contas públicas, reorganizar a política migratória e devolver à Alemanha uma liderança mais assertiva dentro da Europa.

O resultado, menos de um ano e meio depois de assumir a chancelaria, é um governo pressionado simultaneamente por problemas econômicos, conflitos dentro da coalizão e uma população cada vez mais insatisfeita com sua situação material. A Reuters registrou na semana passada que Merz vem sendo responsabilizado dentro e fora da própria CDU por não entregar as reformas econômicas prometidas e por uma sequência de erros de comunicação que reforçou a percepção de distanciamento em relação às preocupações cotidianas da população, particularmente a deterioração do padrão de vida.

A Alemanha chegou a essa crise depois de anos de baixo crescimento, transformação acelerada de seu modelo energético e dificuldades particularmente intensas na indústria. O país construiu durante décadas uma parte importante de sua competitividade sobre uma combinação muito específica: indústria de alta produtividade, exportações globais, forte integração com o mercado chinês e acesso a energia relativamente barata. A ruptura das relações energéticas com a Rússia depois da guerra na Ucrânia, a desaceleração chinesa, a competição crescente dos fabricantes asiáticos e os custos da transição tecnológica atingiram justamente alguns dos setores mais importantes da economia alemã.

A indústria automobilística é o símbolo mais evidente dessa transformação. Fabricantes alemães que dominaram durante décadas segmentos importantes do mercado mundial enfrentam agora a ascensão chinesa dos veículos elétricos, custos domésticos elevados e uma corrida tecnológica que exige investimentos gigantescos. Outros setores intensivos em energia também passaram a conviver com uma estrutura de custos menos favorável. Essas mudanças não começaram com Merz e não podem ser atribuídas exclusivamente ao seu governo, mas a promessa de revertê-las rapidamente tornou-se uma das bases políticas de sua ascensão.

A dificuldade em fazê-lo cobra agora um preço eleitoral.

A resposta apresentada por Merz incluiu também uma mudança profunda nas prioridades fiscais alemãs, com expansão dos investimentos em defesa e infraestrutura. A Alemanha vem acelerando sua militarização diante da guerra na Ucrânia e da deterioração das relações com Moscou. Para o governo, o aumento das despesas militares é uma necessidade diante de uma Rússia que considera uma ameaça direta à segurança europeia. Para seus críticos, porém, o contraste entre centenas de bilhões destinados à defesa e o discurso governamental sobre limitações do Estado social tornou-se politicamente explosivo.

Merz afirmou que o modelo atual do Estado de bem-estar alemão não poderia continuar sendo financiado da mesma maneira e defendeu que os alemães trabalhassem mais. Esse discurso encontrou um país no qual grande parte da população já manifesta insegurança sobre renda, aposentadoria, moradia, energia e futuro econômico. A oposição conseguiu transformar essa combinação numa pergunta politicamente simples: se o Estado dispõe de recursos extraordinários para defesa e rearmamento, por que trabalhadores precisam aceitar sacrifícios em direitos e proteção social?

É nesse espaço que a AfD cresce.

AfD deixa de ser força de protesto periférica e chega aos 30%

O resultado mais importante das pesquisas talvez não seja o colapso da CDU/CSU isoladamente, mas a consolidação da AfD num patamar nacional próximo de 30%. Fundado em 2013, o partido passou por diferentes fases, começando como uma reação conservadora à política europeia e à crise do euro, radicalizando posteriormente seu discurso sobre imigração, identidade nacional, União Europeia e relações com a Rússia.

Durante anos, o sistema político alemão tratou a AfD como uma força eleitoral relevante, porém isolada. CDU/CSU, SPD, Verdes e outros partidos mantiveram a chamada Brandmauer, a “muralha de proteção” que exclui coalizões formais com a legenda. A lógica era que, mesmo crescendo, a AfD permaneceria incapaz de participar da formação de governos nacionais porque os demais partidos poderiam constituir maiorias alternativas.

Os números atuais começam a tornar essa estratégia matematicamente mais difícil.

Na pesquisa INSA do fim de semana, AfD e CDU/CSU somavam 48%. SPD e Verdes apareciam com 14% cada, enquanto Die Linke tinha 10%. Como FDP e BSW ficavam abaixo da cláusula de barreira de 5%, uma parcela significativa dos votos não produziria cadeiras no Bundestag. Nessas condições, coalizões sem a AfD exigiriam combinações cada vez mais amplas entre partidos que disputam entre si e possuem programas bastante diferentes.

A própria coalizão governamental ilustra o problema. CDU/CSU e SPD, as duas forças que durante décadas dominaram alternadamente a política da República Federal, somavam apenas 32% na pesquisa do fim de semana. Pela primeira vez, a soma dos dois grandes pilares tradicionais da política alemã aparece muito distante de uma maioria social.

Isso é uma mudança histórica.

Durante grande parte do período pós-guerra, CDU/CSU e SPD concentravam juntos a enorme maioria do eleitorado. Governos podiam alternar entre centro-direita e centro-esquerda, ou formar grandes coalizões em momentos específicos, sem colocar em questão a estrutura fundamental do sistema. O crescimento dos Verdes, da esquerda e posteriormente da AfD fragmentou progressivamente esse modelo. Os números atuais sugerem algo mais profundo: a erosão simultânea dos dois antigos partidos de massas.

A AfD se alimenta dessa transformação, mas não apenas dela. O partido conquistou resultados expressivos nas recentes eleições regionais e ampliou sua presença particularmente no leste alemão. Em setembro, a CDU sofreu uma derrota histórica em Mecklenburg-Vorpommern, onde não conseguiu sequer ultrapassar a barreira necessária para entrar no parlamento estadual. A Reuters descreveu o resultado como a pior derrota já sofrida pelos democrata-cristãos naquele estado e registrou que a sucessão de derrotas intensificou discussões internas sobre a liderança de Merz.

A crise já começou, inclusive, a produzir especulações sobre possíveis sucessores. Hendrik Wüst, primeiro-ministro da Renânia do Norte-Vestfália e figura de perfil mais moderado dentro da CDU, aparece com frequência crescente nessas discussões. Ele nega interesse em substituir Merz, e aliados insistem que não existe movimento formal nesse sentido, mas sua popularidade contrasta cada vez mais com a do chanceler.

Ucrânia, Rússia e a contradição entre política externa e desgaste doméstico

A crise ocorre enquanto Merz tenta projetar exatamente a imagem oposta no exterior. Neste fim de semana, o chanceler realizou uma visita não anunciada a Kiev, reafirmou apoio à Ucrânia e prometeu assistência adicional, incluindo sistemas destinados a interceptar drones. O governo alemão continua sendo um dos principais sustentáculos europeus da resistência ucraniana e apresenta esse apoio como indispensável à segurança da própria Alemanha.

A RT interpreta o colapso de popularidade de Merz principalmente pela combinação entre militarização, deterioração econômica e insistência numa política externa confrontacional contra Moscou. Essa leitura corresponde ao enquadramento editorial russo e não pode ser apresentada como explicação única dos números. Os levantamentos alemães mostram um conjunto mais amplo de insatisfações, incluindo economia, impostos, imigração, previdência, funcionamento da coalizão e percepção de perda de padrão de vida.

Mas seria igualmente artificial separar completamente política externa e política econômica.

A Alemanha está reorganizando seu orçamento, sua política industrial e sua infraestrutura militar num ambiente de confrontação prolongada com a Rússia. O governo considera esse esforço indispensável para impedir uma ameaça maior no futuro. Uma parcela crescente da sociedade, entretanto, observa simultaneamente problemas domésticos e pergunta quais prioridades devem orientar o gasto público.

Essa tensão cria terreno particularmente favorável à AfD, que defende uma política distinta em relação a Moscou e critica o apoio alemão a Kiev. Merz, por sua vez, acusa a Rússia de tentar fortalecer a AfD justamente para enfraquecer o apoio alemão à Ucrânia. O partido rejeita ser instrumento de Moscou.

A disputa tornou-se, portanto, uma discussão sobre a própria posição internacional da Alemanha.

O país que durante décadas construiu sua política externa sobre integração europeia, relação transatlântica, comércio global e uma relação econômica importante com a Rússia enfrenta agora pressões simultâneas em todas essas dimensões. A relação com Moscou entrou em colapso. A China deixou de ser apenas mercado e passou a ser também concorrente industrial. Os Estados Unidos de Donald Trump são aliados militares, mas também fonte de incerteza econômica e estratégica. A própria União Europeia tenta encontrar uma resposta conjunta para uma economia mundial mais protecionista e militarizada.

Merz prometeu liderança nesse ambiente.

Até agora, grande parte dos alemães parece enxergar outra coisa.

O problema deixou de ser apenas Merz

Existe uma tentação de interpretar pesquisas tão ruins simplesmente como uma crise pessoal do chanceler. Os números mostram que ela existe: 10% de satisfação no DeutschlandTrend é um resultado extraordinariamente baixo. Mas reduzir tudo à personalidade de Friedrich Merz esconderia a dimensão mais profunda da transformação.

A CDU/CSU está em crise.

O SPD também.

A coalizão está em crise.

E o sistema que durante décadas conseguiu manter a AfD fora do poder está sendo submetido a uma pressão matemática cada vez maior.

Isso não significa que a AfD esteja próxima de assumir automaticamente o governo federal. A Alemanha não elege diretamente seu chanceler, e a formação de governo depende da composição parlamentar e da capacidade de construir maioria no Bundestag. Enquanto os demais partidos mantiverem a recusa em governar com a AfD, o primeiro lugar nas pesquisas não se transforma necessariamente em chancelaria.

Mas existe um limite para essa arquitetura.

Quanto maior se torna a AfD, mais complexas precisam ser as coalizões destinadas a excluí-la. Quanto mais partidos ideologicamente diferentes precisam governar juntos, maior tende a ser a dificuldade de produzir políticas coerentes. Quanto mais conflituoso fica o governo resultante, mais a AfD pode apresentar-se aos eleitores como única alternativa ao conjunto do sistema. Forma-se, assim, um mecanismo político que pode alimentar o próprio partido que a estratégia pretende conter.

A pesquisa desta segunda-feira coloca essa contradição diante da Alemanha de maneira particularmente dura.

AfD: 30,5%.

CDU/CSU: 17,5%.

Uma diferença de 13 pontos.

Outra pesquisa nacional mostra apenas 10% de satisfação com o chanceler.

Não é possível saber se esses números permanecerão até a próxima eleição federal. Pesquisas registram um momento, não determinam o futuro, e a política alemã ainda pode passar por mudanças profundas antes que os eleitores voltem às urnas. Mas também seria um erro tratar o quadro atual como simples oscilação estatística.

A AfD não aparece mais dois ou três pontos à frente dos conservadores.

A vantagem chegou aos dois dígitos.

E Merz não enfrenta apenas uma oposição fortalecida. Enfrenta desconfiança dentro de seu próprio campo, derrotas eleitorais regionais, dificuldade para cumprir suas promessas econômicas e um eleitorado no qual quase nove em cada dez pessoas dizem estar insatisfeitas com seu desempenho.

A Alemanha que emerge dessas pesquisas é muito diferente daquela que Merz prometeu governar quando chegou à chancelaria.

O antigo centro político está encolhendo, a direita radical cresce, as antigas coalizões deixam de produzir maiorias confortáveis e questões que durante décadas pareciam resolvidas — o modelo industrial, o Estado social, a relação com a Rússia, o papel militar alemão e até a arquitetura partidária construída depois da Segunda Guerra Mundial — voltaram ao centro da disputa.

É por isso que os 17,5% da CDU/CSU talvez sejam mais importantes do que uma simples pesquisa ruim para Friedrich Merz.

Eles são o retrato momentâneo de uma transformação política muito maior.

A questão que começa a atravessar Berlim já não é somente se Merz conseguirá recuperar sua popularidade.

É quanto do sistema político alemão tradicional continuará de pé se ele não conseguir.

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