Governo chama clubes para negociar impacto do fim das bets e estuda crédito para reestruturar dívidas do futebol

Da Redação

Representantes das Séries A e B serão recebidos pelo governo na terça-feira, 29, depois que a medida provisória assinada por Lula proibiu apostas de quota fixa, publicidade e novos patrocínios do setor. As casas de apostas destinaram R$ 1,143 bilhão aos 20 clubes brasileiros de maior receita em 2025, e 14 equipes da atual Série A têm uma bet como patrocinadora máster. Fazenda e Esporte querem dimensionar a perda antes de definir medidas. Entre as propostas em discussão estão linhas de financiamento para passivos e investimentos futuros, enquanto um programa de crédito de até R$ 20 bilhões para clubes e SAFs ainda está em negociação e não foi formalmente aprovado.

O futebol brasileiro terá apenas alguns dias para começar a desmontar uma relação financeira que levou anos para ser construída.

Na próxima terça-feira, 29 de setembro, representantes dos clubes das Séries A e B devem sentar-se com integrantes do governo federal para discutir o impacto da medida provisória que determinou o fim das bets no Brasil. O encontro está sendo organizado pelos ministérios do Esporte e da Fazenda e terá como ponto de partida uma realidade objetiva: as empresas de apostas se transformaram, em poucos anos, em uma das principais fontes de dinheiro publicitário do futebol profissional brasileiro. Brasil 247

O problema imediato não está apenas nos contratos que deixarão de existir no futuro. Está nos orçamentos de 2026, nos compromissos assumidos pelos clubes, nos contratos plurianuais já assinados e, em alguns casos, nos recebíveis que foram antecipados junto a instituições financeiras.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo pretende primeiro medir o tamanho dessa dependência antes de decidir se haverá alguma medida específica. Segundo ele, não existe, neste momento, um mecanismo de compensação automática para os clubes.

“Por determinação do presidente Lula, vamos chamar tanto os clubes de futebol quanto as federações para entender qual é o real impacto”, declarou Durigan depois do anúncio da proibição. O ministro disse que, somente depois desse diagnóstico, o governo avaliará se será necessária uma resposta adicional. UOL

A posição pública do governo é que a perda de patrocínios não altera a decisão tomada em relação às apostas. O presidente Lula já havia afirmado, antes da assinatura da medida provisória, que os clubes “vão ter que arrumar dinheiro de outro jeito” e que não deveriam sustentar suas receitas a partir do endividamento provocado pelas apostas entre parcelas da população. O ministro do Esporte, Paulo Henrique Perna Cordeiro, adotou argumento semelhante ao afirmar que “o futebol sempre viveu sem as bets”. Brasil 247

Ao mesmo tempo, o Executivo abriu uma segunda frente: discutir como administrar a transição financeira de um setor que incorporou o dinheiro das casas de apostas aos seus contratos, salários, investimentos e planejamento.

É isso que começará a ser negociado na terça-feira.

R$ 1,143 bilhão em um ano: o tamanho das bets dentro do futebol

Os números ajudam a explicar a reação dos dirigentes.

Levantamento da Sports Value aponta que as empresas de apostas destinaram R$ 1,143 bilhão em patrocínios aos 20 clubes brasileiros de maior receita em 2025. Em 2024, haviam sido R$ 618 milhões. Em apenas um ano, portanto, o valor dos patrocínios provenientes do setor cresceu substancialmente. Exame

O peso é ainda mais visível quando se observa a principal divisão do Campeonato Brasileiro.

Atualmente, 14 dos 20 clubes da Série A possuem casas de apostas como patrocinadoras máster. Outro levantamento, da consultoria Convocados, estima que o dinheiro das bets corresponda a aproximadamente 33% do faturamento comercial e de marketing do futebol brasileiro. No orçamento total dos clubes, a participação varia de acordo com cada equipe. CNN Brasil

Essa diferença é importante.

Dizer que um clube possui uma bet como patrocinadora principal não significa que um terço de toda sua receita venha das apostas. Direitos de televisão, premiações, bilheteria, programas de sócio-torcedor, negociação de atletas, publicidade e outras fontes continuam compondo os orçamentos.

Segundo os dados divulgados pela CNN, para a maior parte dos clubes o dinheiro proveniente diretamente desses contratos representa algo entre 5% e 8% do orçamento total. Em algumas equipes, entretanto, a participação é maior. CNN Brasil

A dimensão comercial é diferente. Considerando apenas marketing e patrocínio, a presença das bets é muito mais elevada.

Esse processo ocorreu rapidamente.

A legislação de 2018 autorizou as apostas esportivas de quota fixa. Em 2023, uma nova lei estruturou o mercado e ampliou sua regulamentação. A partir de janeiro de 2025, passaram a operar nacionalmente as empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.

Em pouco tempo, marcas de apostas passaram a ocupar camisas, placas de estádio, transmissões esportivas, programas de televisão, canais digitais, propriedades comerciais de competições e campanhas publicitárias com jogadores e influenciadores.

O futebol tornou-se uma das principais vitrines do setor.

Os clubes argumentaram, antes da publicação da medida provisória, que o impacto não ficaria restrito ao patrocínio estampado na parte frontal das camisas. Em manifesto articulado por dirigentes e federações, representantes do futebol afirmaram que as empresas de apostas também financiam publicidade nas transmissões, placas em estádios e outras propriedades comerciais relacionadas ao esporte. Defenderam a continuidade do mercado regulado, acompanhada de fiscalização e políticas de proteção aos apostadores. UOL

Essa é a posição apresentada pelos clubes e por representantes do setor. A decisão adotada pelo governo foi diferente.

Na sexta-feira, 25, Lula assinou a Medida Provisória 1.394, proibindo a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa no país. A proibição alcança apostas esportivas e jogos online e também afeta autorizações estaduais e distritais. Outras modalidades lotéricas legalmente existentes não foram incluídas na proibição. Presidência da República

Desde a publicação da MP, as plataformas não podem receber novos aportes dos apostadores.

Também ficou imediatamente proibida a contratação de nova publicidade, patrocínio ou promoção comercial relacionada às bets. Os materiais e patrocínios já existentes têm prazo de transição até 5 de outubro. Serviços e Informações do Brasil

Isso significa que o efeito visual da medida será rápido.

Camisas, estádios, peças promocionais e outras formas de exposição das marcas terão de se adaptar às novas regras. A partir de 6 de outubro, os sites e aplicativos de apostas abrangidos pela MP deverão sair do ar no Brasil. Serviços e Informações do Brasil

Para os clubes, entretanto, retirar uma marca da camisa é a parte mais simples.

A questão financeira vem depois.

Há equipes que utilizaram contratos de patrocínio como receitas futuras em seu planejamento. Em determinadas operações, clubes anteciparam recebíveis junto a instituições financeiras. Nesses casos, o encerramento do contrato pode atingir uma receita que já havia sido considerada na programação financeira da temporada. Space Money

Também não é possível assumir que todo o R$ 1,143 bilhão desaparecerá definitivamente do futebol. Parte dos espaços publicitários poderá ser ocupada por bancos, seguradoras, empresas de alimentos, montadoras, cartões, varejistas, companhias digitais e outros anunciantes.

A incógnita é quanto essas empresas estarão dispostas a pagar e em quanto tempo a substituição ocorrerá.

É justamente essa fotografia que o governo pretende levar para a reunião de terça-feira.

Crédito de até R$ 20 bilhões está em discussão, mas não há cheque pronto para os clubes

A principal alternativa que circula dentro do governo não é uma indenização pelos contratos perdidos.

É crédito.

As discussões entre Executivo e dirigentes começaram antes da publicação da MP e envolvem a possibilidade de criação de mecanismos para reorganizar o endividamento dos clubes. Segundo a CNN, o governo trabalha com duas frentes: uma destinada aos passivos já existentes e outra relacionada a crédito para investimentos futuros. CNN Brasil

Uma proposta mais ampla, discutida há meses, ganhou velocidade com o fim das bets.

O projeto vem sendo chamado de Programa Nacional de Reestruturação Financeira do Futebol Profissional e pode envolver uma linha de financiamento de até R$ 20 bilhões para clubes e Sociedades Anônimas do Futebol, as SAFs. UOL

O desenho divulgado até agora prevê financiamento, não perdão de dívida.

A ideia seria permitir que clubes substituíssem determinados passivos mais caros por operações com custo financeiro menor e prazos mais longos. O BNDES aparece nas negociações sobre a estrutura financeira, mas as informações disponíveis até a manhã deste domingo mostram que o programa ainda está em discussão e não deve ser tratado como linha de crédito já aprovada e disponível aos clubes. UOL

Essa distinção é essencial.

Uma coisa é o governo estudar um programa de até R$ 20 bilhões. Outra é haver R$ 20 bilhões liberados para compensar a perda das bets.

Até agora, não existe anúncio oficial de uma transferência dessa natureza.

Durigan foi explícito ao dizer que o governo quer primeiro conhecer os números. O diagnóstico deverá mostrar quais clubes possuem contratos, qual é a participação dessas receitas em seus orçamentos, quais compromissos foram assumidos com base nelas e qual seria o impacto real da interrupção. UOL

A reunião de terça-feira ganha importância justamente por isso.

O governo poderá ouvir diretamente dirigentes das Séries A e B e representantes das entidades esportivas. Segundo informações divulgadas neste fim de semana, Fazenda, Esporte e Planejamento devem participar das discussões, juntamente com representantes da CBF. ICL Notícias

Existe ainda uma diferença conceitual entre financiar a reestruturação das dívidas históricas do futebol e compensar clubes pela perda de patrocinadores.

São problemas diferentes.

Boa parte do endividamento dos clubes antecede em muitos anos a expansão das bets. Dívidas tributárias, bancárias, trabalhistas, cíveis e relacionadas à aquisição de jogadores não nasceram com o mercado de apostas.

Por isso, um eventual programa de reestruturação financeira pode terminar tendo alcance muito maior que a simples substituição de patrocínios.

O que a proibição das bets fez foi acelerar uma discussão que já existia.

O futebol terá de reorganizar seu mercado publicitário enquanto a MP passa pelo Congresso

Há ainda uma variável institucional.

A Medida Provisória 1.394 está em vigor desde sua publicação, mas precisará ser apreciada pelo Congresso Nacional. Como ocorre com qualquer medida provisória, seus efeitos são imediatos, porém sua continuidade depende do processo legislativo previsto constitucionalmente.

Enquanto isso, o cronograma estabelecido pelo governo continua valendo.

As plataformas já não podem receber novos aportes. Os apostadores podem retirar voluntariamente seus saldos até as 23h59 de 5 de outubro. No dia seguinte, sites e aplicativos deverão ser bloqueados. Posteriormente, as empresas terão de encaminhar informações individualizadas para que os recursos remanescentes sejam devolvidos aos usuários por intermédio do sistema financeiro. Serviços e Informações do Brasil

A publicidade segue cronograma igualmente curto.

Novos contratos estão proibidos. O material publicitário anteriormente contratado deverá ser retirado até 5 de outubro. Serviços e Informações do Brasil

A medida também extingue as autorizações concedidas às empresas por motivo de interesse público. Segundo dados oficiais, haviam sido concedidas 85 outorgas, cada uma no valor de R$ 30 milhões, totalizando R$ 2,55 bilhões pagos pelas operadoras no processo de autorização. O texto estabelece que a extinção não gera automaticamente direito a indenização por lucros cessantes, investimentos realizados ou expectativa de continuidade da atividade. Serviços e Informações do Brasil

Para o futebol, o calendário produz uma transição particularmente concentrada.

Em poucos dias, dirigentes precisam revisar contratos, retirar publicidade, procurar novos patrocinadores, recalcular receitas e verificar eventuais obrigações financeiras assumidas com base nos acordos existentes.

O governo, por sua vez, terá de decidir até onde pretende participar dessa reorganização.

A reunião marcada para terça-feira deverá ser o primeiro momento institucional dessa nova etapa.

Os clubes chegarão à mesa com um mercado que movimentou mais de R$ 1,1 bilhão em patrocínios em 2025 e com contratos incorporados aos seus planejamentos. O governo chegará com uma decisão já tomada sobre a atividade das bets, mas ainda sem definição sobre quais instrumentos financeiros serão oferecidos ao futebol. Exame

Há, portanto, duas questões separadas.

A primeira já foi respondida pela MP: o governo decidiu retirar as apostas de quota fixa do mercado legal brasileiro.

A segunda começa agora: como o futebol brasileiro reorganizará uma estrutura comercial que passou a depender, em diferentes proporções, de um setor que deixará de operar legalmente no país.

É essa conta que clubes, CBF e governo começarão a colocar sobre a mesa na terça-feira.

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