Frente evangélica cobra Mendonça: “Fé não pode ser escudo e palanque”

A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito divulgou nesta quinta-feira (10) uma carta aberta ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), na qual cobra a retirada do sigilo das investigações do caso Master. O documento também questiona a associação entre a identidade religiosa do ministro e a disputa eleitoral.

Formado por fiéis e lideranças de diferentes denominações evangélicas que declararam apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições deste ano, o movimento se dirige a Mendonça como “irmão na fé em Jesus Cristo”. A partir dessa condição, a carta faz uma cobrança política e institucional: diante da gravidade das denúncias, o ministro deve conduzir o processo com transparência, serenidade e imparcialidade.

A manifestação ocorre depois de um episódio envolvendo a imagem de Mendonça em um culto realizado na segunda-feira (7). Na ocasião, o apóstolo Valdemiro Santiago exibiu uma gravação do ministro feita em 26 de março como se fosse atual. O evento contou com a presença de Flávio Bolsonaro (PL) e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o vídeo foi apresentado de forma a sugerir apoio político de Mendonça ao candidato do PL.

A líder do PCdoB na Câmara, Jandira Feghali (RJ), classificou o episódio como uma tentativa de instrumentalizar a fé dos fiéis em favor da candidatura de Flávio. A deputada também questionou a permanência de Mendonça na relatoria do caso Master.

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“A verdade não pode aparecer aos pedaços”

Um dos principais pontos da carta são os vazamentos seletivos de informações sobre o caso Master. Para a Frente, a divulgação fragmentada dos dados prejudica a apuração dos fatos, alimenta versões parciais e pode transformar uma investigação judicial em instrumento de disputa política durante a eleição.

“A verdade não pode aparecer aos pedaços, escolhida conforme a conveniência do momento”, afirma o documento. Na sequência, a Frente sustenta que a divulgação seletiva de informações durante uma eleição pode atingir adversários e comprometer a compreensão pública sobre o que está sendo investigado.

A organização defende, por isso, a retirada do sigilo e a divulgação dos elementos da investigação. A posição coincide com a manifestação de Lula, que também pediu a quebra completa do sigilo das apurações envolvendo todos os envolvidos no caso Master.

O “terrivelmente evangélico” sob cobrança

A Frente também recupera a forma como Mendonça foi apresentado por Jair Bolsonaro no processo de indicação ao STF. O ex-presidente o chamou de “terrivelmente evangélico”, expressão associada à escolha do então advogado-geral da União para a Corte. Para a organização, porém, a identidade religiosa não reduz a responsabilidade de quem ocupa uma função pública. Ao contrário: aumenta.

A carta lembra que Mendonça é pastor presbiteriano e afirma que esse reconhecimento religioso “traz uma responsabilidade ainda maior”. O documento estabelece uma relação direta entre a atuação pública do ministro e a fé que ele professa: “Quando um cristão ocupa uma função pública, seus atos também alcançam o nome da fé que professa”.

A argumentação recorre também às próprias referências bíblicas. A Frente cita o Evangelho de Lucas para sustentar que a verdade não deve permanecer encoberta e recorre a uma passagem de Efésios para defender o compromisso com a verdade.

A organização faz também uma distinção entre a fé pessoal de Mendonça e sua responsabilidade como magistrado. A carta sustenta que, diante da dimensão atribuída ao caso Master, cabe ao relator garantir que a investigação seja conduzida de forma aberta, equilibrada e capaz de permitir que a sociedade conheça os fatos.

No encerramento, a Frente estabelece o limite político da manifestação. A fé, afirma o documento, não deve ser utilizada para levantar suspeitas contra outros cristãos nem para proteger interesses eleitorais. “Também não pode servir de escudo, palanque ou instrumento eleitoral”, conclui a carta.

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