
O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) encontrou indícios de que o ex-comandante-geral da Polícia Militar, José Augusto Coutinho, pode ter falhado ao investigar vazamentos relacionados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Essa análise foi apresentada pela Promotoria de Justiça Militar durante a apuração de um inquérito sobre a possível colaboração de agentes da Rota com a organização criminosa.
Conforme o relatório, obtido pela Folha de S.Paulo, não existem provas de uma conexão direta do oficial com o grupo criminoso. A suspeita é de que ele não tenha tomado medidas diante de possíveis irregularidades no período em que esteve à frente da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) entre 2020 e 2021, o que poderia configurá-lo como prevaricador ou condescendente com as ações de seus subordinados.
Essa conclusão se fundamenta, entre outros aspectos, em declarações do promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado), que informou ter alertado o então comandante sobre os vazamentos, mas sem que fossem tomadas ações. Segundo ele, a preocupação surgiu após a fuga de um alvo de uma operação contra o PCC em 2020, sugerindo um possível acesso antecipado a informações confidenciais.

Em 2021, um informante revelou que uma gravação de uma reunião com autoridades foi vendida por R$ 5 milhões ao mesmo investigado que havia escapado da operação. De acordo com Gakiya, os áudios sugeriam a participação de um policial militar da Rota no vazamento.
“Nos áudios que me foram apresentados, ficou evidente que ele mencionava que algum policial militar da Rota seria o responsável pela venda dessa gravação e que seria o mesmo policial que o havia avisado sobre sua prisão na operação Sharks [de 2020]”, declarou o promotor.
Após receber a informação, Coutinho atribuiu o possível vazamento a um agente penitenciário, uma hipótese que foi contestada por Gakiya, que afirmou confiar plenamente no profissional. A conversa entre os dois ocorreu em novembro de 2021, segundo as declarações.
A defesa do coronel argumentou que ainda não teve acesso aos documentos do caso, mas ressaltou que “reitera a total idoneidade de sua conduta, sublinhando que se trata de um oficial da Polícia Militar com 34 anos de carreira, sem nunca ter sido alvo de qualquer processo ou investigação por irregularidades ao longo de sua trajetória profissional”.