Estadão apoia discurso de opositores ao encerramento da escala 6×1, afirma Paulo Henrique Arantes

Manchete do Estadão. Foto: Reprodução

Logo após a Folha divulgar uma “pesquisa” que afirma que os trabalhadores brasileiros são preguiçosos, o Estadão publicou, em 22 de abril, um “estudo” de um Banco Inter, alertando que a aprovação do fim da escala 6 por 1 poderia resultar em uma queda de 0,82% no PIB a médio prazo. É evidente que fatores relacionados à produtividade do trabalho, que vão além da jornada e escala, são desconsiderados. A admiração deste jornalista pelo sociólogo Jessé Souza, que criou o conceito de “elite do atraso” para se referir às classes privilegiadas no Brasil, nunca foi tão forte.

Pesquisadores mais respeitáveis, ou que não têm vínculos com um patronato explorador, entendem que jornadas e escalas mais humanas levam a menos fadiga dos trabalhadores e, consequentemente, a uma redução no absenteísmo, mais oportunidades para aperfeiçoamento técnico e, além de melhorar as condições de vida, um aumento na produtividade, o que não se alinha com a ideia de queda do PIB – pelo contrário. A diminuição das horas trabalhadas também tende a favorecer novas contratações, ampliando a massa salarial e o consumo, impulsionando a economia e contribuindo para o crescimento do PIB.

Não há uma planilha que comprove a relação entre jornada de trabalho e PIB. Entretanto, sabe-se que a baixa produtividade, de fato um obstáculo ao crescimento, é causada por quatro principais fatores, e as horas trabalhadas não estão entre eles: investimento insuficiente em capital humano (educação e formação técnica), escassez de tecnologia e inovação, infraestrutura inadequada e alta informalidade, que representa precariedade.

Carteira de trabalho. Foto: Divulgação

Tanto o Banco Inter quanto o Estadão desconsideram exemplos internacionais que contradizem a ideia de queda do PIB, um argumento bastante forçado, especialmente no momento em que o Congresso começa a debater projetos de redução de jornada e escala. Eles fornecem munição para uma parte do parlamento que historicamente se opõe aos direitos dos trabalhadores e, sem coragem de se declarar publicamente como reacionários, utilizam subterfúgios legislativos para boicotar essas propostas sem votar contra.

Um exemplo positivo é o da Islândia. Entre 2015 e 2022, 51% da força de trabalho adotou a semana de 36 horas, em vez das 40 horas que eram obrigatórias, sem redução de salário. A produtividade aumentou na maioria dos setores e o crescimento anual do PIB ficou entre 2% e 4%, superando a média europeia naquele período, que foi de 1,9% ao ano.

Experimentos realizados nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Canadá, com a redução da jornada de cinco para quatro dias por semana, resultaram em um aumento médio de 15% na receita de 141 empresas que aderiram a esse modelo. Assim, observou-se um crescimento microeconômico que, se ampliado, poderia se refletir em um aumento do PIB. É importante destacar que a redução da jornada foi acompanhada pela eliminação de atividades improdutivas.

Na França, a implementação da Lei das 35 Horas, nos anos 2000, gerou aproximadamente 400 mil empregos nos primeiros anos. Nesse período, o PIB francês cresceu cerca de 2% ao ano, um aumento modesto, mas estudos acadêmicos mostraram um incremento significativo na satisfação e no bem-estar dos trabalhadores, algo que não parece importar para a elite do atraso.

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