Em 19 de abril de 2017, o poeta E M de Melo e Castro, que faleceu em 29 de agosto de 2020, completou 85 anos; nesse dia, tive a oportunidade de participar do lançamento do livro “Poemas Conceptovisuais”, cuja edição foi de minha responsabilidade. Mas, o que são poemas conceptovisuais? Trata-se de poemas visuais, criados por Ernesto, um defensor da poesia experimental portuguesa da segunda metade do século XX, a PoEx; neles, também encontramos referências à arte conceitual, outra vanguarda do período moderno.
Então, o que caracteriza a poesia visual? Sem dúvida, toda poesia concreta é também poesia visual, pois envolve o uso poético da linguagem, a sonoridade e a visualidade das palavras escritas; porém, será que toda poesia visual é, obrigatoriamente, poesia concreta?
Poesia visual é um conceito amplo; rigorosamente, toda poesia escrita para ser lida se torna poesia visual. Por outro lado, a poesia beat é fundamentalmente verbal, composta para ser ouvida e recitada em voz alta, em vez de ser lida; o poeta beat, que geralmente se relaciona com a performance e o jazz, muitas vezes improvisa a partir de temas preestabelecidos, como ocorre na estrutura de tema-improviso do jazz. Lawrence Ferlinghetti, em “Mensagens orais”, detalha essa técnica de criação, apresentando sete temas verbais, sobre os quais improvisa os sete poemas da série; assim, por serem improvisados, esses poemas se configuram, nas palavras de Ferlinghetti, como formas mutantes. Os temas e os títulos dos poemas em “Mensagens orais” são os seguintes, na ordem tema-título: “estou esperando” – Estou esperando; “vamos” – Obbligato do bicho louco; “eu estou levando uma vidinha mansa” – Autobiografia; “o cachorro vai livre pela rua” – Cachorro; “Cristo abandonou” – Cristo abandonou; “e a rua longa” – Rua longa; “conheça Miss Metrô” – Conheça Miss Metrô.
Ernesto também adota essa abordagem de composição; seu poema “Tempo dos tempos” se desenvolve a partir do tema “Se nos tempos da Bíblia houvesse Jazz!” e suas variações; aqui está a primeira de suas quinze estrofes:
Se nos tempos da Bíblia houvesse Jazz! / Ah! Se nos tempos da Bíblia houvesse Jazz! / Se nos tempos houvesse Jazz / O ritmo renovado do Jazz / O ritmo sincopado do Jazz / O ritmo sanguíneo do Jazz.
A poesia, através da linguagem, ou seja, por meio de uma semiótica verbal, se expressa em significantes prosódicos e fonológicos; no entanto, uma vez escrita, as letras ganham a expressão das semióticas visuais, com as cores, formas e posições das letras na página adquirindo significado, além do registro. Sob essa perspectiva, se o poeta perceber essa plasticidade e fazer com que a expressão poética, além da prosódico-fonológica, inclua também o cromatismo, as formas e a topologia das letras, a poesia se transforma em poesia concreta.
A obra “círculo aberto – ritmo liberto”, de Melo e Castro, é um poema concreto, onde a disposição das letras complementa os significados do texto (o poema está reproduzido ao final deste artigo – primeira imagem). Embora os dois poemas mencionados de Melo e Castro abordem a música, “Se nos tempos da Bíblia houvesse Jazz!” é analítico-discursivo, desenvolvendo-se por meio de observações e argumentos, enquanto “círculo aberto – ritmo liberto” é sintético-ideogramático, ou seja, a ideia é sintetizada na forma visual, conforme a terminologia dos concretistas.
Quando existem correlações entre os significados e os significantes verbais da língua e os significantes visuais da escrita, falamos de poesia concreta e, por envolver composição plástica, trata-se de poesia visual. Portanto, todo poema concreto é um poema visual, mas nem todo poema visual é necessariamente um poema concreto; relacionar poemas a imagens de desenhos, pinturas e fotografias resulta em poemas visuais que não se configuram como poemas concretos, mas, por estabelecer correlações com imagens visuais, formam poesia visual.
Na literatura portuguesa, nos seus “divertimentos com sinais ortográficos”, Alexandre O’Neill associa poesia a imagens gráficas; os versos “Uma alegria de vírgulas em fuga / de um texto mais difícil que uma purga” e “Se alguma janela aberta o incomoda / Peça ao condutor que a feche”, por exemplo, estão ligados, respectivamente, a imagens de vírgulas e pontos de exclamação (os poemas estão reproduzidos ao final deste artigo – segunda e terceira imagens, respectivamente). Na literatura brasileira, no calendário Philips, Décio Pignatari relaciona poesias a fotografias; aqui está um exemplo (a fotografia está reproduzida ao final deste artigo – quarta imagem):
Nem só a cav / idade da boca // Nem só a língua // Nem só os dentes / e os lábios // fazem a língua // Ouça / as mãos / tecendo a língua / e sua linguagem // É a língua / têxtil // O texto / que sai das / mãos / sem palavras
Em ambos os casos, tanto nas obras de O’Neill quanto nas de Pignatari, encontramos poesia visual que não é poesia concreta. Além disso, alguns poetas visuais, como Edgard Braga, criam poesia visual ao atribuir títulos a imagens que ele mesmo concebe; a série “tatuagens”, de Braga, que inclui poemas como “Canto das vogais” (o poema está reproduzido ao final deste artigo – quinta imagem), e os poemas de “concepto incerto”, de Melo e Castro, como “a perspectiva não é uma lei rigorosa” e “o interior dos sólidos é um plano”, são exemplos desse tipo de poema visual (os poemas estão reproduzidos ao final deste artigo – sexta e sétima imagens, respectivamente).
Retornando aos poemas conceptovisuais, nota-se que eles incorporam procedimentos poéticos de “concepto incerto”; no entanto, ao contrário daquele livro, cuja poesia visual de Melo e Castro, embora repleta de ironia, se aproxima da filosofia, em “conceptovisuais” o poeta aposta no humor. Assim, distante da elaboração das imagens de “concepto incerto”, entrelaçadas com máximas filosóficas e paradoxais, onde o poeta cria a imagem para reproduzir o mesmo significado das frases, em “conceptovisuais”, a ironia e os trocadilhos emergem dos paradoxos entre as imagens e os títulos atribuídos; por essas razões, classifica-se como poesia conceitual, pois o poético se manifesta nas interações entre o pensamento e as imagens, que, longe de ilustrar o significado dos títulos, conferem novos sentidos a eles, ao mesmo tempo que, por meio deles, adquirem novos significados.
Para concluir, ao referir-se a essa disseminação semântica, logo na parte inicial do livro, o primeiro poema conceptovisual é intitulado “simulação do simulacro” (o poema está reproduzido ao final deste artigo – oitava imagem); ao discutir a significação, isto é, o mundo enquanto linguagem, Ernesto nos envolve em reflexões semióticas, afinal, a linguagem é um simulacro, de um simulacro, de um simulacro…







