Em defesa de Paulo Galo. Por Luis Felipe Miguel

Paulo Galo em cima de moto, com braço levantado em ponte
Paulo Galo. Foto: Scarlett Rocha

Por Luis Felipe Miguel, publicado no Substack

Nos últimos dias, a esquerda bem pensante caiu em cima de Paulo Galo, líder dos trabalhadores de aplicativos, por conta de uma entrevista em que ele criticou os revolucionários de sofá. Assumindo a persona caricata de “encarnação do espírito do povão”, o que implicava adotar um vocabulário grosseiro e ostentar falta de sofisticação intelectual, conseguiu gerar tretas – mas, nelas, perdeu-se um ponto importante, que merece a nossa reflexão.

Galo reclamou que a esquerda parece incapaz de seccionar suas pautas, a fim de falar com públicos diversos. Cada um de seus porta-vozes deve obrigatoriamente incorporar todas as bandeiras, sem sequer hierarquizá-las. Deu o exemplo do combate à homofobia. Fazendo questão de assinalar (ainda que de forma tosca) que é contra a homofobia e que respeita a luta, observou que esta não é uma pauta que seja particularmente central para os trabalhadores de aplicativos.

Concretamente: se é para mobilizar e organizar a categoria, a melhor maneira é chegar dizendo “mano, temos que lutar contra a homofobia” ou “precisamos de mais direitos, mais segurança, melhor remuneração”?

No afã de parecer popular, Galo ilustrou com a metáfora do time de futebol. Cada um joga na sua posição, para todos alcançarem a vitória. Não sei se foi plenamente exitoso; ele usou a metáfora de forma bem rasa, mostrando pouca familiaridade com o esporte bretão, o que pesou mais contra do que a favor da credibilidade da personagem que incorporou. Mas deu para entender o que queria dizer.

Choveram críticas sobre Galo depois da entrevista. Não faltaram frases como “todo trabalhador tem um corpo e todo corpo tem desejo”, feitas para lacrar nas mídias sociais. Ou textões que nos iluminavam sobre a convergência necessária de todas as lutas.

Num caso, temos uma platitude. No outro, uma inferência a priori que se sustenta na mera vontade. Sempre defendi que, pelo contrário, a relação entre as diferentes pautas emancipatórias precisa ser investigada, em vez de definida de antemão (falo sobre isso, entre outros lugares, nos livros Democracia na periferia capitalista e Marxismo e política).

Se for necessário um argumento de autoridade, tem a Lisa Vogel:

“Devemos abandonar duas suposições muito arraigadas. Primeiro, a suposição de que as várias dimensões da diferença – por exemplo, raça, classe e gênero – são comparáveis. Segunda, a implicação de que as diversas categorias são iguais em peso causal. Querendo ou não, essas duas suposições levam a um interesse em identificar paralelos e semelhanças entre as categorias de diferença e a minimizar suas particularidades”.

(Está no prefácio que ela escreveu para a coletânea organizada por Tithi Bhattacharya, Teoria da reprodução social, publicada por aqui pela Elefante. Eu mexi na tradução para ficar mais colada ao original.)

O mais importante, porém, é que as reações, interessadas sobretudo no aplauso fácil das redes, não prestaram atenção no argumento de Galo. Na verdade, ilustram a situação que ele critica. E não é à toa que ele fala da posição da defesa dos direitos da classe trabalhadora. No amálgama de bandeiras que a esquerda hoje precisa ostentar, são as reivindicações da classe trabalhadora que terminam em segundo plano, exatamente porque são aquelas que não podem ser reinterpretadas em chave individualista e acomodadas à lógica da acumulação capitalista – aquelas que não ganham a simpatia do identitarismo neoliberal e, portanto, enfrentam a oposição de nossos aliados de ocasião contra a extrema-direita.

O fato é que, sim, a esquerda bem pensante julga que é preciso abraçar todas as causas simultaneamente e com isso introduz ruídos muitas vezes desnecessários com o público que deveria atingir. Não se trata de recuar para posições reacionárias em qualquer campo, mas de admitir o fato de que diferentes grupos dominados têm agendas diferentes, com prioridades diferentes. E que mesmo que cada trabalhador incorpore também outras identidades (ou, para usar uma terminologia que julgo mais precisa, remetendo a um texto antigo de Ernesto Laclau, ocupe diferentes posições de sujeito), em cada uma delas o que produz unidade com os outros é diverso.

Trata-se, portanto, de uma observação de caráter muito prático: segmentar o discurso para ampliar a simpatia pelas posições da esquerda. Por que tanta resistência?

Creio que há duas explicações diversas, embora convergentes, para isso. Nas plataformas sociodigitais, entre influenciadores, influenciadores wannabe e mesmo simples seguidores, a competição no campo da esquerda é pela exibição do mais alto grau de pureza moral, com a capacidade de acolher todas as dores do mundo e não deixar escapar uma única militância possível.

Já entre as candidaturas da esquerda, impera a autofagia. Esta é uma das causas principais da estagnação da bancada de esquerda na Câmara dos Deputados, que se explica tanto pelos incentivos próprios da política de imagem na era das plataformas sociodigitais quanto pelas características do nosso sistema eleitoral.

Usamos a representação proporcional com listas abertas, um sistema com muitos detratores, mas que tem a vantagem (importante) de ampliar o poder do eleitor comum diante das burocracias partidárias. No sistema de listas fechadas, os partidos disputam para obter mais cadeiras, mas, uma vez determinada a distribuição, os nomes dos eleitos seguem uma lista de prioridades já decidida pelo partido. No nosso, são os votos dados a cada um que decidem.

O problema é que isso puxa para dentro dos partidos a disputa pelos votos dos eleitores. Para me eleger, meu partido tem que somar muitos votos, mas eu também tenho que fazer mais votos do que meus correligionários.

Em momentos de refluxo, como é o caso da esquerda hoje, isto torna racional a adoção de uma estratégia em que quase toda a energia é direcionada a obter um naco dos eleitores que já simpatizam com a posição em que estou. É mais fácil para um candidato do PSOL tirar votos de outro candidato do PSOL ou do PT e com isso garantir sua vaga do que tentar ganhar o eleitor que estaria inclinado a votar na direita. Esta disputa com o conservadorismo passa a ser feita exclusivamente pelos candidatos a cargos majoritários – que, em tempos de “frente amplíssima”, em geral a fazem de forma muito limitada.

Por exemplo: em 2022, em São Paulo, o PT elegeu 11 deputados federais e a federação PSOL-Rede, outros seis. Pouca gente apostaria que em outubro o resultado será muito diferente – talvez o PSOL diminua de tamanho, sem Boulos, e o PT cresça um pouco. Mas é isso: a esquerda briga por 17, 18, sonhando alto 20 cadeiras. As outras 50 já estão de antemão liberadas para a direita, em seus também 50 diferentes tons, de Tabata Amaral a Marco Feliciano.

Como um candidato por um partido de esquerda faz para tentar garantir uma vaga de deputado federal? Mais fácil do que disputar o eleitor inclinado à direita, o que exigiria um grande esforço de desconstrução de preconceitos e convencimento, é tentar arregimentar o máximo de eleitores de esquerda. Por isso, seu discurso tem que ser um amálgama de todas as lutas contra as opressões, do capitalismo ao capacitismo, da misoginia à gordofobia, do racismo à transfobia, da homofobia ao etarismo, a fim de sensibilizar todos os grupos deste eleitorado.

A autofagia eleitoral da esquerda, que opera contra a expansão de suas bancadas (e pela exacerbação da personalização da disputa), está ligada à incapacidade de setorização do discurso criticada por Galo. Não tem nada a ver com uma visão virtuosa da necessidade de combater as múltiplas opressões. É cálculo, puro e simples.

Caso eu dispusesse de recursos, faria uma pesquisa para determinar os apelos eleitorais dos candidatos da esquerda nas eleições de outubro, a partir do rastreamento de seus perfis nas redes. Minha hipótese é de que há um predomínio de campanhas catch-all (“pega tudo”), transitando entre diversas agendas e falando a diversos públicos, sem foco discernível; e que as candidaturas de maior sucesso eleitoral estarão entre as menos focadas.

Além disso, a pesquisa permitiria identificar outra característica que, suspeito, está presente em uma grande quantidade das candidaturas da esquerda: a apresentação de características identitárias, em vez de propostas e compromissos, como credencial para a ocupação do cargo público.

Um exemplo: a deputada federal Dandara Tonantzin tem, como primeira publicação fixada em sua página no Instagram, um carrossel que destaca, na primeira imagem, o fato de que ela é a única mulher negra da bancada mineira.

Post de Dandara Tonantzin no Instagram. Foto: Reprodução

Ela já é deputada, bastante atuante, tem o que apresentar ao eleitorado. Mas a cartada identitária parece mais fácil. Só que ser uma mulher negra não a diferencia da deputada Rosangela Gomes, por exemplo, bolsonarista do Rio de Janeiro, filiada ao Republicanos.

É isso mesmo que ela está dizendo que importa na decisão do voto, ser mulher e negra? Ou, dirigindo-se a um público que já tem definida sua opção pela esquerda, apresenta sua identidade racial e de gênero como o diferencial que justifica o voto nela? Neste segundo caso, fica claro que ela não está atrás daquele eleitor que poderia votar na direita.

À primeira vista paradoxal, este mix de agenda onívora e marcação identitária está presente no discurso de muitos candidatos da esquerda. Pode funcionar do ponto de vista individual, conquistando mandatos, mas contribui para a dificuldade enorme que a esquerda tem de reconquistar fatias que perdeu do eleitorado.

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