Em BH, Lula define escolha entre “governar com verdade” ou “lacrar no celular”

Na caminhada desta sexta-feira (2), da Praça da Liberdade em direção à região da Savassi, o presidente e candidato à reeleição apresentou a disputa de domingo como uma escolha entre projetos para o país e encadeou uma série de temas que marcaram sua campanha: trabalho, apostas on-line, saúde, salário mínimo, combate à violência contra as mulheres, investigação de fraudes e políticas sociais.

Belo Horizonte não foi apenas um palco de campanha neste final de semana; foi o cenário de uma aula de política comparada. Ao caminhar pela Avenida Afonso Pena, sob a estátua de Tiradentes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro que o pleito deste domingo (4) transcende a disputa por cargos.

Para ele, trata-se de uma encruzilhada civilizatória. “Domingo não é uma simples eleição. Domingo a gente vai ter que escolher um projeto de Brasil”, afirmou, listando dicotomias que vão desde a manutenção da escala 6×1 até o combate definitivo às casas de apostas (bets).

A agenda em Minas reuniu Lula, o candidato ao governo mineiro Patrus Ananias e as candidatas ao Senado Marília Campos e Áurea Carolina. A atividade foi realizada depois de uma caminhada no Rio de Janeiro e sob chuva em Belo Horizonte.

A retórica do contraste: trabalho versus “lacração”

O discurso de Lula em Minas teve um alvo claro: a atual gestão estadual e a postura da extrema-direita. Ao defender Patrus Ananias, ex-prefeito de Belo Horizonte e seu antigo ministro, o presidente traçou um paralelo entre a experiência administrativa e o populismo digital. “Companheiro que tem história, que tem biografia, um companheiro que tem uma história de luta, que não é um companheiro de ficar postando coisinha dele no celular. Ele é de trabalho.”

“Alguém pode ganhar uma eleição com mentira, mas não se governa com mentira! Governar é coisa séria!”, disparou, criticando indiretamente o governador Romeu Zema e seu potencial sucessor apoiado pelo bolsonarismo, Cleitinho Azevedo.

“Os mineiros não podem cometer o erro de votar numa pessoa como se votou no Zema 8 anos atrás. Não é possível que a gente tenha um homem da qualidade do Patrus, o melhor prefeito que essa cidade já teve, o companheiro que foi meu ministro do Combate à Fome, e eleger alguém que a única coisa que sabe fazer é lacrar no celular para espalhar para a sociedade.”

Lula aproveitou para desmontar narrativas econômicas, lembrando que o Brasil foi pentacampeão mundial de futebol sem o financiamento das bets, setor que, segundo ele, drenou R$ 141 bilhões da economia nacional no último ano. “Ninguém vai agora ter que jogar gastando o dinheiro do leite do filho”, disse, conectando a macroeconomia ao orçamento doméstico das famílias mineiras.

Do salário mínimo ao Banco Master

A economia entrou no discurso pela comparação entre a política de valorização do salário mínimo defendida por Lula e o período que ele caracterizou como de estagnação da renda.

“A gente vai votar num projeto que vai aumentar o salário mínimo acima da inflação ou vai ficar como no passado, 10 anos sem aumentar? É uma escolha que a gente tem que fazer.”

Em seguida, Lula levou o discurso para os casos Banco Master e INSS, dois dos episódios que passaram a ocupar espaço na campanha na reta final. Ele afirmou que o eleitor teria de escolher entre projetos políticos distintos também diante dessas investigações.

“A gente vai votar num projeto que criou um banco como o Banco Master ou vai votar num projeto que mandou prender o Vorcaro e os seus… a sua quadrilha?”

Sobre as fraudes contra aposentados e pensionistas, afirmou:

“A gente vai ter que escolher se a gente vai votar num projeto que criou aquela quadrilha lá no INSS, que roubou 5 milhões de aposentados e pensionistas, e que nós tivemos que pagar 3 bilhões e meio, tivemos que prender a quadrilha.”

O “Bloco da Vitória” e a resposta de Janja

Se o discurso presidencial manteve a firmeza institucional, a intervenção da primeira-dama, Janja Lula, trouxe a temperatura das redes sociais para as ruas. Em um momento de alta energia, ela liderou o que chamou de “bloco da vitória”, respondendo às ofensas sofridas pela campanha com uma frase que ecoou entre os apoiadores: “Um salve para todo mundo de Minas Gerais, menos para o piá de bosta!”.

A declaração de Janja ocorreu após o deputado Nikolas Ferreira publicar um vídeo criticando uma fala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre exames preventivos e saúde da mulher. A fala, direta e sem rodeios, foi recebida com aplausos, sinalizando que a campanha decidiu não mais ignorar os ataques pessoais, mas revidá-los com humor e assertividade.

Áurea Carolina e Marília Campos, candidatas ao Senado, reforçaram a tese de que Minas Gerais não pode ser governada por “likes”. “Ninguém pode governar Minas Gerais do TikTok… O Cleitinho não consegue governar nem a cabeça dele!”, criticou Áurea, pedindo votos para formar uma bancada progressista capaz de apoiar tanto Lula quanto Patrus.

Marília Campos enfatizou a participação das mulheres no Senado e associou sua candidatura à de Áurea Carolina.

Um apelo à responsabilidade histórica

Nos minutos finais, Lula baixou o tom combativo para um apelo quase paternal. Preocupado com a abstenção, pediu aos mais jovens que convençam os idosos — cuja votação é facultativa acima dos 70 anos — a irem às urnas. “Eu tenho 80 anos. Eu poderia parar de votar, mas eu não só vou votar, como eu quero ser votado por vocês”, emocionou-se.

Ao se despedir, já com os olhos voltados para a reta final em São Paulo, o presidente fez sua promessa final: “Enquanto eu tiver perna, tiver força e saúde, eu não vou permitir que a extrema-direita volte a governar esse país. Americano nenhum vai mandar aqui!”. Entre santas jogadas da plateia (que ele pediu cuidado para não machucar) e bandeiras agitadas, Lula deixou BH com a convicção de que a civilidade ainda tem chance de prevalecer sobre o negacionismo.

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