Eles sabem tudo e você?, por Manfred Back

Eles sabem tudo e você?

por Manfred Back

Não sabe nada! Às vezes é melhor não saber…do que ter certeza que sabe, não?

É muito mais fácil, rentável e cômodo participar e cantar no coral da obviedade, não é? Porque se você quiser sair desse coral ou cantar outra música, tem um preço e custo alto a pagar, como tudo na economia. É um dever de caráter ético e intelectual, pelo menos mostrar que não existe música certa e apenas um único coral, que repete seu mantra diário: risco fiscal, calote da dívida pública e relação dívida/PIB.

“à busca da verdade deve ser o objetivo de nossa atividade, o único digno dela”. (Poincaré)

Alguns fatos mostram correlação negativa do que eles cantam diariamente na mídia e pesquisas acadêmicas de fetiche técnico-científica e práticas diárias no mundo financeiro e dos ditos agentes econômicos. Como só eles aparecem, escrevem e cantam todo dia, parece que só eles sabem, será? O samba de uma nota só. Alguma coisa está fora da ordem!

Vamos a alguns fatos e dados e vocês leitores tirem suas próprias conclusões e, principalmente reflitam!

Quem carrega a dívida pública federal brasileira? Carregam é o termo correto, não contem para ninguém, título público é lastro de todas as operações de crédito e o garantidor final de qualquer operação. Dados do Tesouro Nacional, gostaria de lembrar que são públicos e de acesso a todos, é só ter a vontade de olhar. Indicam que desde 2003 até 2026, com poucas variações, como gostam a turma do coral, na média: Instituições financeiras (Bancos) 31%, Fundos de Investimentos 20% e Fundos de Pensão e Previdência 20% do estoque total da dívida pública federal. Se você for bom de soma 2/3 da dívida nos últimos 23 anos se concentram nas mesmas mãos, mesmo com o crescimento da dívida de 900 bilhões de reais para 9 trilhões de reais em 2026.

Pergunto: estão com medo de calote?

Nesse ano, mesmo com eleição presidencial, o dito risco de ano eleitoral. O Tesouro Nacional captou 4,5 bilhões de dólares, vendendo títulos públicos em moeda estrangeira: Global 2036 título de 10 anos que levantou US$ 3,5 bilhões, com juros de 6,4% ao ano e cupom de 6,25% a.a. pagos semestralmente e Global 2056 que levantou US$ 1 bilhão em título de 30 anos, com rendimento de 7,30% ao ano. Observo aos leitores, a taxa paga no título de 30 anos, apenas 200 pontos acima do título público americano (Treasurie) de 30 anos. Nos dois bonds brasileiros, a demanda for maior que a oferta.

Pergunto: estão com medo de calote?

Nessa última semana, o Tesouro Nacional realizou seu segundo maior leilão de títulos públicos do ano, há um mês da eleição, captou 26 bilhões de reais. Dois aspectos chamaram a atenção: a demanda foi maior que a oferta, e a mais relevante, a colocação de Notas do Tesouro Nacional – Tipo F (NTN-F), que é um título prefixado e seu prazo de vencimento 2037.A boa teoria econômica ensina que o futuro só a “Deus” pertence e não a econometria. Esse movimento indica previsão de queda da taxa de juros no futuro pelos bancos, porque nesse leilão primário só eles podem participar. Certeza, só tem a turma do coral, parece que as tesourarias bancárias cantam outra música, não?

Pergunto: estão com medo de calote?

Isso tudo apesar de termos reservas internacionais de cerca de 360 bilhões de dólares, assim cantam a turma do coral.

Não chores por mim Argentina, se tivesse com pesar esse nível de reservas.

E a cereja do bolo, que nunca aparece na música do coral, o tal do Credit Default Swap (CDS). Caros leitores, se tiverem paciência façam uma pesquisa na inteligência artificial, quantos artigos na mídia de macroeconomia que levantam a possibilidade de calote na dívida brasileira, mencionam o (CDS). Nenhum, coloco duas possibilidades, falta de conhecimento ou falsidade intelectual. O (CDS) é um indicador internacional precificado e negociado diariamente no mercado de balcão nos Estados Unidos e na B3 (Bolsa Brasileira) do risco de calote ou melhor inadimplência tanto de dívidas públicas e privadas. Vamos aos números agosto de 2026, usando como critério padrão de comparação o (CDS) de 5 anos: Brasil 119,76 pontos-base, uma probabilidade implícita de inadimplência de 2,00 %, segundo negociação de mercado, não nossa opinião.

Pergunto: estão com medo de calote?

Argentina 1030,95 pontos-base, lembrar aos leitores que nossos irmãos portenhos, fizeram todas as recomendações que nosso coral canta por aqui, cortes, cortes e cortes. Desde 2001, nossos irmãos não têm moeda, nem dívida pública para se financiar em moeda nacional, vivem dando calote em moeda estrangeira no Fundo Monetário Internacional, apesar do problema crônico de falta de reservas internacionais.

Mais vale um passarinho na mão do que dois voando. Mais vale um dinheiro na mão do que escutar dois economistas falando. Como dizia Keynes: os números não falam. Nem cantam, desafiam as certezas, as tais “evidências”, de quem? Para quem?

Não passei no teste para entrar no coral, me recusei a cantar a música. Ainda bem! Durmo em paz com minha consciência e dúvidas!

“O sujeito ideal para um governo totalitário é indivíduo para quem a distinção entre fato e ficção e entre verdadeiro e falso deixou de existir” (Hannah Arendt)

Manfred Back bacharel em Ciências Econômicas pela PUC-SP, mestre em Administração Pública pela FGV-SP. Atuou como Trader na bolsa de valores (BOVESPA), como operador na mesa de operação de renda variável e futuros, como economista-chefe, como gestor de carteira e fundo de ações. Professor de microeconomia, macroeconomia, mercado de capitais e derivativos de graduação, pós-graduação e de ensino fundamental.

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