O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-RJ) foi demitido nesta segunda-feira (21) da Polícia Federal por abandono de cargo. A decisão do Ministério da Justiça foi publicada no Diário Oficial da União e encerra o vínculo do ex-deputado com a corporação, onde ingressou como escrivão em 2010, por concurso público. O processo administrativo concluiu que ele faltou ao serviço, sem justificativa, por mais de 30 dias consecutivos.
Licenciado da PF para exercer o mandato de deputado federal, Eduardo perdeu a cadeira em dezembro de 2025 por excesso de faltas. Deveria, então, ter voltado ao cargo de escrivão no Rio de Janeiro. Não voltou. Permaneceu nos Estados Unidos, onde já estava desde o primeiro semestre de 2025.
Enquanto a Polícia Federal esperava pelo retorno do servidor, Eduardo estava ocupado em outra frente: de Washington, articulava com o governo Trump pressão sobre uma instituição brasileira. Na semana passada, reuniu-se com integrantes do Departamento de Estado dos EUA, ao lado de Paulo Figueiredo, para defender sanções contra os ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes.
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O contraste é difícil de ignorar. O servidor que deveria ter voltado ao cargo na Polícia Federal preferiu permanecer nos Estados Unidos e atuar junto a autoridades estrangeiras para pressionar integrantes do Judiciário brasileiro. Decisões sobre o funcionamento e a atuação da Justiça brasileira pertencem às instituições brasileiras — não a negociações conduzidas em Washington nem à tutela de um governo estrangeiro.
Jandira questiona quem banca Eduardo nos EUA enquanto investigação rastreia milhões de Vorcaro ligados a Dark Horse
A demissão da PF traz de volta uma pergunta feita pela deputada Jandira Feghali ao comentar a saída de Eduardo da corporação: “Quem sustenta a vida luxuosa de Eduardo Bolsonaro nos EUA?”
Na mesma publicação, Jandira chama atenção para a permanência de Eduardo nos Estados Unidos e afirma que ele está “na terra de Trump tramando contra o Brasil desde fevereiro de 2025”. Em seguida, aponta uma coincidência: “neste mesmo mês começaram os repasses de Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse”.
A data aparece também nos documentos da investigação sobre o Banco Master. Em 13 de fevereiro de 2025, o Havengate Development Fund, fundo registrado no Texas e ligado a pessoas próximas de Eduardo, recebeu US$ 2 milhões de uma empresa relacionada a Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”. Segundo documentos da investigação, foram sete transferências, que chegaram a US$ 12,3 milhões. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República investigam a destinação dos valores e se o dinheiro foi usado exclusivamente na produção de Dark Horse ou também para outras despesas, incluindo a permanência de Eduardo nos Estados Unidos.
Os documentos colocam o próprio Eduardo no meio da engenharia financeira do filme. Segundo a investigação, ele discutiu como os recursos deveriam chegar aos EUA e indicou pessoas ligadas ao Havengate para participar das negociações. Em uma mensagem atribuída a ele, Eduardo chegou a defender que os recursos estivessem “já nos EUA”, justamente para evitar as dificuldades e a demora das remessas a partir do Brasil.
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A investigação ainda não concluiu que os recursos tenham financiado despesas pessoais de Eduardo. Essa é uma das hipóteses sob apuração. O que os documentos mostram é que milhões destinados ao projeto cinematográfico passaram por uma estrutura nos Estados Unidos ligada a pessoas próximas do ex-deputado, enquanto ele próprio permanecia no país.
Eduardo perdeu o mandato. Perdeu a cadeira na Câmara. Agora, perde também o cargo que mantinha na Polícia Federal. A agenda nos Estados Unidos, no entanto, continua e é justamente nesse período que aparecem os repasses de Vorcaro, as tratativas sobre o dinheiro de Dark Horse e a permanência de Eduardo no país.
Não há, até aqui, conclusão de que o dinheiro tenha bancado suas despesas pessoais. Há, porém, uma investigação em curso e uma pergunta que continua sem resposta: quem paga a conta de Eduardo nos Estados Unidos?