Você provavelmente já fez uma pesquisa no Google e não precisou acessar nenhum site para conseguir a resposta. O chamado “Modo IA” fez isso por você. Parece algo pequeno, mas essa mudança já provoca transformações importantes na forma como a informação circula na internet.
Durante anos, a internet funcionou a partir de um acordo silencioso que parecia beneficiar todo mundo. Pessoas, jornalistas, pesquisadores, criadores de conteúdo e empresas produziam conhecimento. O Google organizava esse conteúdo, indicava os resultados e, em troca, levava milhões de pessoas até os sites.
Era esse fluxo constante de visitantes que ajudava a sustentar economicamente a internet aberta. Quem produzia informação recebia audiência; quem buscava informação encontrava respostas; e o Google consolidava sua posição como principal porta de entrada da web.
Esse modelo, porém, está sendo profundamente alterado. Com a incorporação da inteligência artificial às buscas, o Google deixou de ser apenas um intermediário entre o usuário e os sites. Agora, ele próprio entrega a resposta.
Em vez de abrir uma reportagem, acessar um blog especializado ou visitar um portal de notícias, muitas vezes basta ler o resumo produzido pela IA. O clique deixa de ser necessário e o usuário resolve sua dúvida sem sair da plataforma.
Parece uma evolução tecnológica, mas ela esconde uma mudança muito mais profunda: o maior mecanismo de busca do planeta utiliza o conhecimento produzido por milhares de sites para construir uma resposta própria sem necessariamente devolver o usuário às fontes que produziram esse conhecimento.
Quem controla a informação?
Em tempos de fake news e idolatria, essa mudança na lógica de pesquisa é especialmente perigosa. Milhões de pessoas passam a receber informações sintetizadas por sistemas de inteligência artificial, muitas vezes sem acessar as fontes originais ou conhecer os critérios que determinaram aquela resposta.
Não podemos tratar essas ferramentas como neutras. Elas são desenvolvidas e controladas por empresas que possuem interesses econômicos e políticos. Em uma nova economia cada vez mais concentrada nas mãos das Big Techs, opiniões e informações favoráveis aos interesses dessas empresas podem ganhar maior visibilidade e ser apresentadas como consensos, enquanto outras perspectivas podem ser invisibilizadas ou relegadas a segundo plano.
A questão, portanto, não é apenas quem produz a informação, mas quem controla o sistema que decide como ela será apresentada a milhões de pessoas.
E nenhuma síntese é neutra. Ela é resultado de escolhas: quais fontes utilizar, quais informações destacar, quais interpretações ignorar e qual narrativa apresentar como principal. Essas escolhas deixam de estar distribuídas entre milhares de jornalistas, pesquisadores e produtores de conteúdo e passam a ser concentradas nas mãos de poucas empresas privadas que controlam os modelos de inteligência artificial.
O poder das plataformas
Não é a primeira vez que vemos o tamanho desse poder. O Brasil teve uma amostra importante durante a discussão do PL 2630, de autoria do deputado Orlando Silva (PCdoB). Em 2023, o Google utilizou sua própria página inicial no país para exibir uma mensagem contrária ao projeto, levando seu posicionamento diretamente aos usuários do buscador.
O episódio demonstrou a capacidade de uma empresa privada com enorme alcance de utilizar sua própria infraestrutura para interferir no ambiente em que acontece o debate público.
Agora imagine quando essa mesma empresa deixar de apenas indicar links e passar a ser, para boa parte da população, a principal — ou única — fonte de respostas sobre qualquer assunto.
Menos cliques, menos audiência
Essa mudança já pode ser observada nos dados. Um experimento de campo realizado em 2026 encontrou que, quando uma AI Overview aparecia nos resultados, os cliques orgânicos para fora do Google caíam 39,8%, enquanto as buscas terminadas sem clique aumentavam 34,5%.
Outro estudo, que analisou 161.382 pares de páginas da Wikipédia, estimou uma redução de aproximadamente 15% no tráfego diário das páginas em inglês expostas aos AI Overviews.
Uma análise do Pew Research Center, publicada em 2025, encontrou um resultado ainda mais significativo: nas buscas que apresentavam uma AI Overview, os usuários clicaram nas fontes citadas pelo resumo em apenas cerca de 1% das visitas. A presença desses resumos também esteve associada a menos cliques nos resultados tradicionais e a uma maior probabilidade de a navegação terminar ali.
Não estamos, portanto, diante de uma discussão sobre um futuro distante. As pessoas já estão mudando a maneira como consomem informação e, junto com essa mudança de comportamento, está sendo alterada a relação econômica, social e política que durante décadas sustentou boa parte da internet aberta.
O impacto sobre quem produz informação
A consequência pode ser grave. Se os usuários deixam de entrar nos sites, esses sites perdem audiência. Com menos audiência, perdem receita publicitária, assinantes e relevância. Com menos receita, vêm os cortes, as demissões e, em alguns casos, o fechamento.
Não estamos falando apenas de pequenos blogs independentes, mas também de grandes redações, portais especializados, revistas e veículos que há décadas ajudam a construir o conhecimento disponível na internet.
Existe aí um paradoxo fundamental. Os sistemas de inteligência artificial dependem de uma enorme infraestrutura de conhecimento produzida anteriormente por seres humanos — jornalistas, pesquisadores, escritores, programadores, instituições e milhões de usuários. Mas sua expansão pode reduzir justamente as condições financeiras para que essas pessoas continuem produzindo esse conhecimento.
Uma nova onda de precarização do trabalho desses profissionais da comunicação e pesquisadores pode estar a caminho. Quanto mais eficiente uma plataforma se torna em resumir aquilo que foi produzido por outros, menor é a necessidade de o usuário visitar quem produziu a informação original.
Conhecimento como matéria-prima
O problema também ultrapassa os sites. Livros, artigos acadêmicos e outras obras estão no centro de uma disputa cada vez maior sobre o que pode ser utilizado para treinar sistemas de inteligência artificial e em quais condições.
Pesquisas já demonstraram que determinados modelos conseguem reproduzir trechos substanciais de livros presentes em seus dados de treinamento, mostrando que a discussão sobre propriedade intelectual e apropriação do conhecimento não é meramente hipotética. Em 2026, editoras também passaram a questionar judicialmente o uso de livros protegidos por direitos autorais no treinamento de sistemas de IA.
A questão não é apenas se a inteligência artificial “lê” ou não determinado livro, mas quem tem o direito de transformar conhecimento produzido por outras pessoas em matéria-prima de sistemas capazes de gerar enormes receitas para empresas privadas.
É nesse ponto que o futuro da produção de conteúdo se torna ainda mais preocupante. Os grandes sites podem passar a produzir cada vez mais pensando nos algoritmos que irão consumir seus textos, e não necessariamente nas pessoas que deveriam lê-los.
A produção de conhecimento deixa de seguir uma lógica baseada na relação com o público e passa para uma lógica de alimentação de sistemas automatizados. Um pagamento pode compensar parte do valor econômico de uma reportagem, mas não devolve aos veículos seus leitores, sua comunidade ou sua identidade editorial.
O risco é construirmos uma internet repleta de conteúdo produzido por seres humanos, mas cada vez mais padronizado e acessado por máquinas em vez de pessoas.
A diversidade de vozes em risco
Essa transformação também ameaça uma das características mais importantes da internet aberta: a diversidade de vozes.
Um artigo carrega a experiência de quem escreveu, suas referências, sua forma de organizar argumentos, seus conhecimentos e seus vieses. A riqueza da internet sempre esteve na possibilidade de comparar diferentes interpretações sobre um mesmo assunto, ler autores distintos, discordar, aprofundar um tema e construir uma visão própria.
Quando diferentes fontes são substituídas por uma única resposta produzida por inteligência artificial, esse percurso desaparece.
Isso nos leva a uma pergunta que já era importante nos mecanismos de busca tradicionais, mas ganha uma dimensão muito maior com a inteligência artificial: quem decide o que aparece quando uma pessoa pergunta alguma coisa?
Um estudo de 2026 analisou 55.393 consultas e 98.020 afirmações presentes em AI Overviews e encontrou que 11% das afirmações analisadas não tinham suporte nas páginas citadas. O mesmo estudo apontou que quase 30% dos domínios utilizados como fonte não apareciam sequer na primeira página tradicional de resultados.
Isso demonstra que a IA não está simplesmente reorganizando links para facilitar a navegação. Ela está construindo uma resposta a partir de um processo próprio de interpretação e síntese. E, quando esse processo está concentrado nas mãos de poucas empresas privadas, a discussão deixa de ser exclusivamente tecnológica. Estamos falando de poder político e informacional.
Debate chega aos governos
Esse debate já deixou de ser uma preocupação restrita a pesquisadores e jornalistas e passou a chegar aos governos e órgãos reguladores.
Na França, em agosto de 2026, a Alliance de la Presse d’Information Générale pediu que a autoridade concorrencial francesa intervenha contra os resumos gerados por inteligência artificial pelo Google, argumentando que eles reduzem o tráfego e a receita dos veículos de comunicação.
A entidade citou dados da Arcom segundo os quais os resumos de IA teriam contribuído para uma queda de 33% a 38% no tráfego dos sites de mídia.
Se uma plataforma consegue utilizar o conteúdo produzido por veículos de comunicação para responder ao usuário e, ao mesmo tempo, reduz a necessidade de o usuário visitar esses veículos, existe um problema que precisa ser discutido.
Soberania digital também está em jogo
O Brasil não pode assistir a esse processo de fora. O país já possui o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que prevê R$ 23 bilhões em investimentos e estabelece objetivos relacionados ao desenvolvimento de modelos em português, formação e requalificação de trabalhadores, pesquisa e soberania tecnológica.
O próprio MCTI tem tratado a soberania digital como questão estratégica, defendendo investimentos em supercomputação, semicondutores, modelos nacionais e infraestrutura própria para reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras.
Também está em discussão no Congresso o PL 2338/2023, que estabelece regras para o desenvolvimento, a implementação e o uso de sistemas de inteligência artificial no Brasil.
Essas iniciativas são importantes, mas soberania digital não pode significar apenas possuir servidores ou desenvolver modelos nacionais, nem se resumir a um debate acadêmico. Um país soberano tem capacidade de decidir sobre a tecnologia, seus dados, seus objetivos e os direitos das pessoas afetadas por ela.
O significado de soberania digital precisa chegar ao povo brasileiro, e sistemas como o “Modo IA” do Google ameaçam essa possibilidade.
Outros países também estão tentando construir suas próprias respostas para essa disputa. Na China, o debate oficial sobre inteligência artificial vem sendo tratado como uma questão de desenvolvimento nacional, governança e soberania tecnológica.
Na abertura da Conferência Mundial de Inteligência Artificial de 2026, em Xangai, Xi Jinping defendeu cooperação e compartilhamento para impulsionar a inovação, mas também destacou a necessidade de garantir que a inteligência artificial seja segura, controlável e permaneça sob controle humano. O discurso também abordou questões relacionadas à tomada de decisões algorítmicas, ética e acesso à tecnologia.
Uma internet feita para seres humanos?
Talvez estejamos assistindo ao começo da morte da internet como a conhecemos. Não porque ela vá desaparecer, mas porque sua essência está mudando.
A internet aberta sempre foi construída pela circulação de conhecimento entre pessoas. Se esse processo for substituído por uma dinâmica em que pessoas produzem conhecimento para alimentar sistemas de inteligência artificial, que sintetizam esse conteúdo e respondem por nós, teremos perdido algo muito maior do que os cliques.
Teremos enfraquecido a relação direta entre quem produz conhecimento e quem deseja aprendê-lo e, junto com ela, perdido a diversidade de perspectivas.
É preciso evitar que a chamada “internet morta” domine o ambiente digital, defendendo uma política tecnológica que fortaleça a soberania digital brasileira, valorize quem produz conhecimento e impeça que a infraestrutura informacional do futuro fique subordinada exclusivamente aos interesses de poucas empresas.
A questão, portanto, não é simplesmente se os sites vão sobreviver. É se ainda existirá uma internet feita para seres humanos e uma inteligência artificial colocada a serviço da sociedade, ou se aceitaremos que o conhecimento produzido por muitos seja transformado em matéria-prima para sistemas poderosos controlados por poucos.