Da Redação
Responsável por 62 escolas na região de Mogi das Cruzes, Roselaine Batalha Silva afirmou diante de diretores que Hitler teria sido um “líder excepcional” e classificou a leitura de Mein Kampf como “estimulante”; após o caso ser revelado pelo DCM, Secretaria da Educação determinou a cessação de sua função e abriu apuração
Uma reunião de gestão da rede pública de ensino de São Paulo transformou-se em um episódio grave sobre os limites entre o estudo histórico do autoritarismo e a apresentação de ditadores responsáveis por alguns dos maiores crimes do século XX como referências de liderança. Roselaine Batalha Silva, então coordenadora de uma Unidade Regional de Ensino da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP), citou Adolf Hitler e Benito Mussolini ao falar sobre liderança para diretores escolares e chegou a definir Hitler como um “líder excepcional”. Após a divulgação do caso pelo Diário do Centro do Mundo, a Secretaria informou que determinou a cessação da função de dirigente exercida pela servidora e instaurou procedimento para apurar os fatos.
As declarações foram feitas em uma reunião fechada com educadores realizada em 12 de agosto. Segundo o DCM, que afirma ter obtido um vídeo do encontro, 32 diretores participaram da reunião virtual. Roselaine ocupava uma posição de considerável responsabilidade administrativa: coordenava a Unidade Regional de Ensino de Mogi das Cruzes e, nessa condição, respondia por 62 escolas da rede estadual.
Ao desenvolver sua concepção sobre liderança, a dirigente argumentou que seria estimulante conhecer inclusive a biografia de personagens históricos considerados “maus”. Foi nesse contexto que mencionou António de Oliveira Salazar, Benito Mussolini e Adolf Hitler. Roselaine ainda cometeu um erro histórico ao localizar Salazar na Espanha — o ditador comandou Portugal, enquanto a ditadura espanhola esteve sob Francisco Franco.
O ponto mais controverso, entretanto, veio quando a dirigente passou a falar diretamente de Hitler e de Mein Kampf. De acordo com a gravação reproduzida pelo DCM, Roselaine classificou a obra como “estimulante” por sua capacidade de convencimento e, na sequência, afirmou sobre Hitler: “Ele era um líder excepcional e ninguém pode negar!”
A declaração exige contextualização rigorosa. É perfeitamente legítimo — e necessário — estudar historicamente como líderes autoritários conseguem mobilizar populações, construir propaganda, explorar ressentimentos, destruir instituições e conduzir sociedades democráticas ao totalitarismo. Hitler, Mussolini e outros ditadores fazem parte indispensável do ensino de História justamente porque compreender os mecanismos que possibilitaram sua ascensão é uma das ferramentas para impedir sua repetição.
Outra coisa é apresentar essas figuras, sobretudo diante de gestores da educação pública, como exemplos positivos ou excepcionalmente admiráveis de liderança sem estabelecer de maneira inequívoca a natureza criminosa dos regimes que construíram.
Hitler não pode ser separado do nazismo que liderou. Sob seu comando, o Estado alemão organizou o Holocausto, perseguiu judeus, pessoas com deficiência, populações Roma e Sinti, opositores políticos e outros grupos, suprimiu liberdades políticas e participou da deflagração de uma guerra que devastou a Europa. Mussolini, fundador do fascismo italiano, destruiu instituições democráticas, perseguiu adversários e construiu um regime ditatorial aliado posteriormente à Alemanha nazista.
É justamente essa dimensão que torna a fala especialmente delicada quando pronunciada dentro da estrutura educacional de um Estado.
A dirigente não estava participando de um seminário historiográfico sobre a capacidade de mobilização dos regimes totalitários. Segundo o relato publicado, falava com gestores escolares sobre aquilo que esperava deles enquanto líderes. A referência aos ditadores apareceu, portanto, dentro de uma exposição sobre gestão e liderança.
Em outro momento, Roselaine afirmou que não queria “discurso” nem “justificativa”, mas um líder. A fala estava associada à cobrança por trabalho e desempenho dentro das escolas.
Esse contexto torna particularmente importante evitar uma interpretação artificialmente isolada das palavras. A questão jornalística não está simplesmente no fato de uma professora de História pronunciar os nomes de Hitler e Mussolini. Evidentemente isso, sozinho, não representaria qualquer problema. O elemento central é como esses personagens foram mobilizados dentro do argumento apresentado aos diretores.
A própria formação da servidora torna o episódio ainda mais surpreendente. Segundo o DCM, Roselaine possui licenciatura em História e Pedagogia, é mestranda em Educação pela Universidade Cidade de São Paulo e tem especialização em Gestão da Rede Pública pela Universidade de São Paulo.
Na mesma exposição, ela também teria citado o empresário norte-americano Jack Welch, que comandou a General Electric durante duas décadas e se tornou uma das figuras mais conhecidas da cultura empresarial orientada por desempenho, competitividade e resultados. Welch ficou famoso também pelas políticas agressivas de redução de custos e de pessoal adotadas durante sua gestão.
A combinação das referências ajuda a compreender a lógica apresentada na reunião. A discussão aparentemente buscava enfatizar capacidade de liderança, obtenção de resultados, mobilização de subordinados e desempenho. É justamente nesse enquadramento que surge o problema: ao abstrair a capacidade de liderança de Hitler do conteúdo histórico, político e moral daquilo que essa liderança produziu, corre-se o risco de transformar uma categoria instrumental — capacidade de convencer e comandar — em qualidade independente das consequências humanas de seu exercício.
Essa separação é particularmente perigosa na educação.
Uma liderança não pode ser avaliada exclusivamente pela capacidade de conseguir seguidores. Se esse fosse o critério suficiente, ditadores, chefes de organizações criminosas, líderes de seitas e dirigentes de movimentos genocidas poderiam ser tratados como modelos administrativos sempre que demonstrassem capacidade de persuasão.
A pergunta fundamental é liderar para quê, por quais meios e em direção a quais valores.
Em uma instituição pública submetida à Constituição democrática, essa distinção é ainda mais necessária. Gestores escolares não administram empresas privadas orientadas exclusivamente por metas. Lidam com crianças, adolescentes, professores, famílias e comunidades e possuem responsabilidades relacionadas à formação cidadã, ao pluralismo, aos direitos humanos e à convivência democrática.
Secretaria afasta dirigente e abre apuração
A reação da Secretaria da Educação paulista veio depois da publicação da reportagem.
Procurada pelo DCM, a Seduc-SP informou ter determinado “a cessação da função de dirigente exercida pela servidora” e anunciado a abertura de uma apuração destinada a verificar os fatos e as circunstâncias das declarações. A pasta acrescentou que não compactua com manifestações incompatíveis com os princípios e valores da educação pública estadual e afirmou que as declarações não representam seu posicionamento.
A resposta é relevante também para delimitar corretamente a responsabilidade política pelo episódio. Até o momento, o material disponível sustenta que as declarações partiram de Roselaine Batalha Silva. Não há, na reportagem consultada, evidência de que a utilização de Hitler ou Mussolini como referências de liderança constitua orientação da Secretaria da Educação ou do governo Tarcísio de Freitas. Pelo contrário, a manifestação oficial conhecida rejeita as declarações e informa o afastamento da dirigente.
Essa distinção não elimina, porém, a necessidade de discutir o ambiente institucional no qual o episódio ocorreu.
Roselaine não falava como uma cidadã em uma conversa privada. Exercia função dirigente na estrutura estadual e se dirigia a dezenas de diretores submetidos à rede que coordenava. A questão administrativa que a apuração terá de esclarecer envolve exatamente essa dimensão: em que circunstâncias a reunião ocorreu, qual era seu objetivo, qual foi a integralidade das declarações e de que maneira esse discurso se relacionava às orientações transmitidas aos gestores.
Há também uma dimensão pedagógica muito maior.
O Brasil viveu uma ditadura militar durante 21 anos e ainda enfrenta disputas sobre memória histórica, autoritarismo e democracia. Em todo o mundo, movimentos de extrema direita voltaram a disputar significados de acontecimentos históricos, enquanto conteúdos negacionistas e revisionistas encontram enorme capacidade de circulação nas plataformas digitais.
Nesse ambiente, a escola possui papel decisivo.
Ensinar sobre Hitler não significa ocultar sua capacidade política. Pelo contrário: compreender como um regime genocida conseguiu conquistar adesão social é fundamental para estudar o nazismo. É preciso analisar propaganda, crise econômica, nacionalismo, antissemitismo, violência política, ressentimento social, destruição institucional e todos os mecanismos que permitiram a ascensão nazista.
Mas justamente por isso a História não pode ser transformada num manual empresarial de técnicas de liderança descoladas de seus fins.
Hitler demonstrou capacidade de mobilização porque essa capacidade foi utilizada para construir uma ditadura racial, promover perseguição sistemática, organizar genocídio e conduzir a Europa à guerra. Retirar o método do resultado significa retirar da História aquilo que lhe dá sentido.
O episódio ocorrido na estrutura educacional paulista toca, portanto, em algo maior do que uma frase infeliz.
Ele coloca em discussão qual concepção de liderança deve orientar a escola pública.
A liderança democrática não pode ser medida apenas pela obediência que produz, pela produtividade que extrai ou pela capacidade de convencer subordinados. Ela precisa ser construída pela responsabilidade pública, pelo respeito às instituições, pela participação, pelo conhecimento, pela liberdade e pela dignidade humana.
Ditadores também conseguem seguidores.
A democracia exige algo muito mais difícil: formar cidadãos capazes de compreender por que seguir alguém jamais pode ser considerado uma virtude independentemente do caminho para o qual essa liderança pretende conduzi-los.
A Secretaria da Educação tomou a primeira medida administrativa ao afastar a dirigente e abrir uma apuração. Agora, além de esclarecer integralmente as circunstâncias da reunião, o episódio oferece ao próprio sistema educacional paulista uma oportunidade necessária de discutir aquilo que aconteceu.
Porque estudar Hitler é indispensável.