Desconfiança em Alta

principal agrotóxico da Monsanto
Foto: Reprodução

Da Revista Pesquisa – FAPESP

A revista Regulatory Toxicology and Pharmacology anunciou a retratação de um artigo publicado em 2000 que afirmava que o herbicida glifosato não apresentava risco de câncer. O estudo revisou a literatura científica existente sobre o agrotóxico e seus potenciais efeitos à saúde humana, servindo como base para a renovação da autorização de uso do glifosato pelo Ministério da Saúde do Canadá. Esse trabalho recebeu 614 citações em outros estudos, conforme dados da Web of Science. Componente ativo de diversas marcas de herbicidas, o glifosato é o principal ingrediente do Roundup, produzido pela Monsanto, que desde 2018 é parte da Bayer, empresa alemã.

Martin van den Berg, editor-chefe da revista, esclareceu na nota de retratação que surgiram diversas preocupações éticas relacionadas ao estudo, como a seleção possivelmente tendenciosa das pesquisas que fundamentaram o artigo. Ele observou que as conclusões foram baseadas apenas em estudos realizados pela própria Monsanto, sem considerar outras investigações sobre toxicidade crônica e carcinogenicidade que já existiam na época da redação da revisão, em 1999.

A Monsanto também teria influenciado diretamente a elaboração do artigo, apesar de não ter sido mencionado. Um processo judicial nos Estados Unidos revelou e-mails entre funcionários da empresa, nos quais o grupo se parabenizava pelo “trabalho árduo” na coleta de informações, redação e revisão do artigo. Uma colaboradora da empresa destacou que aquele trabalho se tornaria “a referência” sobre a segurança do Roundup e que o objetivo era utilizá-lo tanto para defender o produto quanto para competir com versões genéricas. Essa contribuição não foi mencionada no artigo. “Essa omissão sugere que os autores podem ter distorcido seus papéis individuais e a natureza cooperativa do trabalho apresentado”, afirmou o editor-chefe da revista.

A revista buscou esclarecimentos do único autor ainda vivo, o patologista Gary M. Williams, ex-professor do New York Medical College, mas ele não se manifestou. Diante da falta de resposta, Van den Berg expressou a perda da confiança nos resultados e conclusões do artigo, levando à decisão de retratá-lo. “O artigo teve um impacto significativo nas decisões regulatórias relativas ao glifosato e ao Roundup por décadas. Dada a sua importância na avaliação da segurança do glifosato, é fundamental que a integridade desse artigo de revisão e suas conclusões permaneçam intactas. As preocupações levantadas aqui tornam necessária essa retratação para preservar a integridade científica da revista”, declarou.

O editor ressalta, no entanto, que a retratação se relaciona a falhas de integridade no estudo, mas não reflete uma posição da revista sobre os riscos do glifosato à saúde humana, que ele considera um “debate em andamento”. Segundo o site Retraction Watch, a Bayer emitiu uma declaração afirmando que acredita que a participação da Monsanto foi adequadamente mencionada nos agradecimentos, que reconhecem: ‘agradecemos aos toxicologistas e outros cientistas da Monsanto que contribuíram de maneira significativa para o desenvolvimento das avaliações de exposição e em muitas outras discussões’. O comunicado também afirma que “o consenso entre os órgãos reguladores ao redor do mundo, que realizaram suas próprias avaliações independentes com base no conjunto de evidências, é que o glifosato pode ser utilizado com segurança conforme as instruções e não é cancerígeno”.

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