Defender a democracia: um papel que vai além da esquerda

A Folha de S. Paulo trouxe nesta segunda-feira (20) um texto assinado por Joel Pinheiro da Fonseca, intitulado A esquerda perdeu o pulso do Brasil?, onde o autor analisa o desgaste da esquerda no país. O que a pequena burguesia parece não compreender é que a esquerda se enfraquece quando adota posturas semelhantes à direita ao governar.

Fonseca começa seu artigo afirmando que “a economia do Brasil não está em crise. A inflação fechou 2025 abaixo do teto da meta. O PIB cresceu 2,3%. O desemprego está na mínima histórica, e os empregos com carteira assinada, na máxima. A renda média do trabalho em 2025 subiu acima da inflação. Há milhões de pessoas que não tinham emprego e agora têm. Que pagavam Imposto de Renda e agora não pagam. E, no entanto, a aprovação do governo vai mal”.

Entretanto, a economia brasileira enfrenta sérias dificuldades, e a indústria, que já foi robusta, foi quase totalmente desmantelada durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Um exemplo claro do impacto negativo é que, durante a pandemia de COVID-19, não havia capacidade para produzir nem mesmo uma simples máscara de pano, sendo necessário recorrer à produção caseira ou à importação.

Sem um setor industrial forte, um país não consegue se desenvolver, e a China é um exemplo claro disso.

Os bancos assumiram o controle do Banco Central, resultando em juros exorbitantes no Brasil, e as famílias estão extremamente endividadas. Além da dívida pública, que consome mais da metade do orçamento, isso tem levado à deterioração dos sistemas de saúde, educação e serviços públicos.

No que diz respeito aos empregos, muitos brasileiros desistiram de buscar trabalho, e os salários estão extremamente baixos. Aproximadamente 25% da população depende do Bolsa Família para evitar a fome, sem perspectivas de deixar o programa.

As causas

Segundo Fonseca, a baixa aprovação do governo se deve a “algum fator que vai além da economia e que pode inclusive estar colorindo a percepção das pessoas sobre a economia”, questionando se pode ser “cansaço com Lula, por ele ter sido presidente por tantos mandatos”.

A ideia de que a longevidade de um governo causa desgaste é um mito. Na Alemanha, Angela Merkel permaneceu 16 anos no poder sem enfrentar contestação. Na Venezuela, o imperialismo teve que sequestrar Nicolás Maduro. No Brasil, após dez anos, o grande capital se viu forçado a promover um golpe para afastar o PT da presidência, pois não acreditava em sua vitória nas eleições.

Fonseca menciona que “olha para as eleições em nosso continente do ano passado até agora: a direita levou praticamente todas. A esquerda cansou”. É importante, no entanto, reconhecer que as eleições nem sempre ocorrem de forma livre e sem interferências. A América Latina tem sido palco de verdadeiros golpes de Estado em disputas eleitorais.

Mudanças…

O autor defende que “vivemos uma mudança de valores na sociedade. E no centro dessa mudança está a valorização da responsabilidade individual. O indivíduo é capaz de agir e responde por seus atos. Isso vale tanto na hora de exaltar o empreendedor construindo sua ascensão social quanto na hora de punir o criminoso, visto como o responsável por suas más escolhas. As pessoas querem trabalhar, crescer e receber a recompensa de seus atos”. Mas de onde surgiu essa ideologia?

Há uma campanha em prol da “valorização da responsabilidade individual”, com personagens de novelas apresentadas como “empreendedoras”. Já existem cursos em escolas técnicas estaduais direcionados ao “empreendedorismo”.

O golpe de 2016, que colocou Michel Temer no poder, garantiu o uso do dinheiro público em prol dos bancos, por meio do teto de gastos, e promoveu o surgimento de “empreendedores”, que são trabalhadores que perderam direitos. Uma grande quantidade de pessoas se vê forçada a buscar sustento de formas improvisadas, como vendendo bolo de pote.

A afirmação de que “o indivíduo é capaz de agir e responde por seus atos” esconde a realidade de que hoje cada um está por conta própria, abandonado. O Estado deve ser mínimo para o cidadão e maximizar os interesses do capital.

Diante desse cenário preocupante, a ideologia procura transferir a responsabilidade pela situação atual para os indivíduos, esvaziando o conteúdo político de suas condições. A burguesia não é responsabilizada. Não são os bancos ou o grande capital, via aparato estatal, que empurram a população para a pobreza; isso é atribuído a cada pessoa, o que é absurdo.

Mérito é ilusão

Fonseca destaca que “a esquerda atual não tem nada para quem acredita no indivíduo”. Isso é uma realidade. O problema é que a maioria da esquerda abandonou o socialismo em favor da democracia liberal. A má notícia é que isso implica que a “democracia” também não apresenta soluções, o que leva muitas pessoas a buscarem refúgio na extrema direita, que se posiciona como antissistema.

Para a esquerda, Fonseca escreve, “aquele que almeja subir na vida pelo trabalho ou estudo é visto como um coitado iludido pelas mentiras da meritocracia.” E essa afirmação é verdadeira. Basta observar a situação atual. Os cursos de engenharia formam profissionais que não encontrarão empregos, dada a crise na indústria. Os jovens da classe trabalhadora perderam a esperança.

É fundamental ressaltar que a ideia de “subir na vida” foi desmentida há muito tempo, com diversos livros abordando o tema.

Não adianta, Fonseca deveria perceber que tentar simplificar a luta de classes em uma generalização como “aquele que tem fortuna é um vilão que só está onde está por conta da exploração. E, por fim, aquele que delinque é uma vítima do sistema a ser tratado com compreensão. O cidadão, indefeso, só encontra sua salvação no Estado, que para isso deve taxar, regular, censurar e distribuir” não resolve a questão.

O indivíduo

Joel Pinheiro da Fonseca insiste na ideia de que no protestantismo “o indivíduo ganha voz própria”, entre outras afirmações. No entanto, é preciso considerar a realidade. No Brasil, a média de renda real dos “donos de negócio” (abrangendo desde trabalhadores informais até empregadores com CNPJ) é de aproximadamente R$ 3.162,00. Isso sem benefícios como férias, décimo terceiro ou Previdência.

No universo do empreendedorismo, as mulheres negras representam 52% e têm um rendimento médio de R$ 2.090,00. Quando poderão “subir na vida”? Muitas delas são chefes de família, e um dos fatores que contribui para a baixa remuneração é a necessidade de dividir o tempo com o cuidado dos filhos, para os quais não há creches disponíveis.

Por que não existem creches? Porque os bancos, esses “vilões que têm fortuna”, desviam o dinheiro público. Entretanto, as empreendedoras não devem reclamar; se ganham pouco, é porque trabalham pouco ou não se dedicaram aos estudos.

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