O último debate televisivo entre Elmano de Freitas (PT) e Ciro Gomes (PSDB), realizado nesta terça-feira (29) pela TV Verdes Mares, colocou frente a frente duas estratégias distintas para a disputa pelo Governo do Ceará. Segurança pública dominou boa parte do confronto, mas educação, emprego, desenvolvimento econômico, transporte e gastos públicos também entraram em discussão.
Elmano procurou sustentar sua candidatura na combinação entre resultados apresentados da atual gestão e propostas para um eventual segundo mandato. Ciro, por sua vez, apostou sobretudo na crítica ao governo estadual e na apresentação de mudanças de estratégia, especialmente no combate às facções criminosas.
Elmano ancora discurso em resultados e novas entregas
Um dos pontos mais objetivos da argumentação de Elmano foi a educação. Diante da crítica de Ciro sobre indicadores de municípios, o governador recorreu ao desempenho estadual na alfabetização e afirmou que o Ceará alcançou mais de 85% das crianças alfabetizadas na idade certa.
O dado não se restringe ao discurso eleitoral: o Ceará recebeu, em 2025, a Comenda Governadores pela Alfabetização das Crianças na Idade Certa, do Senado, com o registro de mais de 85% de crianças alfabetizadas.
No debate, Elmano utilizou esse resultado como ponto de partida para anunciar novas metas. Propôs ampliar o programa Pé-de-Meia para todos os estudantes do ensino médio, levar intercâmbios internacionais aos alunos da rede pública e transformar as escolas estaduais em unidades profissionalizantes.
Segurança: Elmano responde com estrutura e inteligência
Na área em que Ciro concentrou boa parte de seus ataques, Elmano defendeu a ampliação do efetivo policial e dos investimentos em inteligência. Também prometeu novos presídios e reforço das forças de segurança.
A resposta procurou deslocar o debate de uma avaliação genérica sobre o avanço das facções para medidas concretas de estruturação do aparato estadual. Segundo informações apresentadas anteriormente pelo governo, mais de 3 mil agentes de segurança haviam sido incorporados desde 2023, além de processos seletivos para novos profissionais.
Ciro concentra fogo na segurança, mas abre flancos
A principal linha argumentativa de Ciro foi a tentativa de responsabilizar a atual administração pelo crescimento da criminalidade. O candidato também questionou o efetivo da Polícia Civil, o aluguel de viaturas e a compra de tornozeleiras eletrônicas.
O problema argumentativo aparece quando números e denúncias são apresentados sem que o debate consiga estabelecer toda a cadeia de evidências necessária para relacioná-los à responsabilidade pessoal do governador ou à eficácia de determinada política.
Em contraposição, Elmano apresentou a ampliação da inteligência e do efetivo como respostas institucionais.
Emprego: Elmano associa obras e investimentos à economia
Na discussão econômica, Elmano ligou investimentos estruturantes a geração de emprego. Citou a Transnordestina, o Porto do Pecém, a implantação de data centers, o potencial energético e investimentos tecnológicos.
Há respaldo nos indicadores para a afirmação de que o mercado formal cearense vem apresentando saldo positivo. Em 2025, o Ceará registrou saldo de 49.184 empregos formais, segundo dados do Novo Caged compilados pelo governo estadual. Em abril de 2026, foram criados mais 3.509 postos formais no estado. Isso dá sustentação factual ao argumento de Elmano de que houve expansão do mercado formal durante o período.
Ciro questionou a aposta nos data centers e no hidrogênio verde e defendeu maior atenção à industrialização vinculada ao agronegócio. Nesse ponto, a fragilidade da argumentação de Ciro esteve menos na proposta em si e mais na distância entre a crítica aos projetos em andamento e a demonstração, no debate, de como sua alternativa produziria empregos em escala comparável e em que prazo.
“Vai de Graça” amplia a agenda social de Elmano
Outro momento relevante foi o anúncio do programa “Vai de Graça”, pelo qual Elmano propôs transporte público gratuito aos fins de semana, abrangendo ônibus, metrô, VLT e topics. A proposta foi associada pelo candidato ao fim da escala 6×1 e à ampliação do tempo de descanso dos trabalhadores.
Ciro rebateu a proposta atacando a relação política do governo com empresários do setor de transporte, em vez de concentrar sua resposta nos aspectos fiscais, operacionais ou de financiamento da gratuidade.
Esse episódio sintetizou uma diferença recorrente no debate: Elmano procurou apresentar políticas e compromissos concretos; Ciro frequentemente respondeu deslocando a discussão para denúncias sobre aliados e relações políticas do adversário.
O contraste no encerramento
Nas considerações finais, Elmano resumiu sua campanha pela ideia de continuidade das políticas públicas e associou sua candidatura a Lula, Camilo Santana, Cid Gomes e Luizianne Lins.
“Esse é o time que faz. Esse é o time da entrega e não da intriga”, afirmou.
Ciro encerrou sua participação apresentando-se como candidato de mudança e enfatizando sua trajetória política. Também afirmou estar enfrentando as máquinas federal, estadual e municipal e denunciou uma suposta interferência de facções no processo eleitoral.
O debate, portanto, terminou sem convergência sobre os principais problemas do estado. Elmano sustentou sua defesa principalmente em indicadores, obras, políticas públicas já executadas e novas propostas; Ciro estruturou sua candidatura na crítica à gestão atual e na promessa de ruptura em segurança e desenvolvimento.
A diferença mais visível esteve na forma de argumentação: enquanto o governador recorreu repetidamente a resultados e programas específicos, o adversário combinou propostas próprias com acusações sobre gestão, contratos e alianças políticas — algumas das quais demandam comprovação e contextualização além do que foi apresentado no confronto.