Comparações entre Ideologias nos Estados Unidos e no Brasil, por Fernando N. da Costa

Comparações entre Ideologias nos Estados Unidos e no Brasil

por Fernando Nogueira da Costa

Comparar o cenário político dos Estados Unidos com o do Brasil exige compreender o seguinte: embora ambos os países passem por fortes processos de polarização, as regras do jogo e a estrutura partidária de cada um moldam comportamentos ideológicos muito distintos.

Enquanto a política norte-americana se organiza sob um rígido bipartidarismo, a política brasileira se destaca por ser uma das mais fragmentadas do mundo. Para decifrar essa complexidade, a análise do GPS Partidário da Folha de S.Paulo, atualizado com dados de 2026 (publicado em 07/09/26), possibilita um paralelo sobre como as esquerdas e as direitas de ambos os países se posicionam e se comportam na prática.

Como dito, a primeira diferença diz respeito à estrutura de sistemas dos partidos: bipartidarismo vs. extrema fragmentação.

Nos Estados Unidos, o sistema eleitoral de voto distrital e bipartidarismo monopoliza os votos entre Democratas e Republicanos. Isso impede o surgimento de terceiros partidos fortes. Historicamente, por exemplo, o Partido Socialista falhou em se estabelecer de forma independente.

Consequentemente, as diferentes correntes — dos democratas moderados aos socialistas radicais (como o DAS – Democratic Socialists of America) — precisam disputar espaço nas primárias e “pegar carona no partido-ônibus” do Partido Democrata, usando-o como uma porta de entrada secundária para alcançar algum poder local. É o caso do atual prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, declaradamente um socialista democrático, filiado ao Partido Democrata.

No Brasil, com cerca de 30 partidos em atividade, o posicionamento oficial de uma legenda muitas vezes não reflete as decisões práticas de seus representantes. O GPS Partidário mapea a posição real das siglas a partir de cinco indicadores comportamentais: votações na Câmara, frentes parlamentares, migrações de partido, coligações eleitorais e doações de campanha.

O primeiro indicador contabiliza como cada parlamentar se posicionou no painel da Câmara dos Deputados. A métrica inclui as votações de janeiro de 2023 a julho de 2026 e contempla 565 deputados presentes, incluindo suplentes.

Essa métrica indica, na maior parte das votações, o bloco da esquerda e o centrão votaram com o governo Lula, somando 423 deputados contra 142 da oposição. Nas 1.097 votações observadas, 9 em cada 10 votos (91,5%) saíram como o líder do partido orientou. De modo geral, quanto mais o parlamentar vota com o governo, mais alinhado à esquerda; do contrário, mais alinhado à direita. Nesta primeira métrica, o PT é o partido mais à esquerda.

Quanto à composição da esquerda, nos Estados Unidos, o “liberalismo de esquerda” (left-liberalism) baseia-se na busca pela social-democracia e pela “não dominação”, exigindo do Estado uma rede de proteção contra monopólios e insegurança econômica. No entanto, a esquerda norte-americana divide-se atualmente entre o establishment moderado, os identitários focados em costumes (Woke 1) e os socialistas do DSA (Woke 2), estes impulsionados por um eleitorado jovem e diplomado com propostas pautas inconsequentes, como o fim das prisões e dos aluguéis.

No Brasil, com o pluralismo de siglas, a esquerda é fragmentada em múltiplos partidos formais. Porém, no atual governo de Frente Ampla Democrática, apresentou forte consistência ideológica nas votações e doações. De acordo com o GPS Partidário, PT e PSOL figuram de forma consistente na ponta esquerda do mapa político em todos os cinco indicadores comportamentais.

O PT é estatisticamente o partido mais à esquerda no painel de votações da Câmara. A esquerda brasileira possui altíssima fidelidade ideológica de financiamento: nas doações de campanha, os pares de partidos de esquerda dividem quase o triplo de doadores em comum do que o previsto pelo mero acaso estatístico.

Partidos mais radicais, como o PSTU (junto ao UP), ocupam a extrema esquerda e vivem em relativo isolamento político. Quase nunca dividem chapas com partidos fora de seu campo ideológico direto, sendo as exceções com Rede ou PSOL.

A direita se diferencia entre o conservadorismo de livre mercado norte-americano e a dinâmica brasileira.

Nos Estados Unidos, a direita divide-se entre a ala tradicional do livre mercado (liberalismo clássico focado em desregulamentação) e o populismo nacionalista de direita (Trumpismo). Este foca na reação cultural contra as pautas identitárias e na oposição direta à burocracia estatal.

No Brasil, o espectro da direita também apresenta subdivisões bem demarcadas. O Novo consolida-se como o partido mais à direita do espectro político brasileiro. Ele faz a defesa pura do livre mercado no liberalismo clássico. O PL é a grande força de oposição e conservadora, abrigando parlamentares de oposição neofascista, como a deputada Julia Zanatta (PL-SC), apontada estatisticamente como a parlamentar mais à direita da Câmara.

Diferente da esquerda, a direita brasileira apresenta menor fidelidade ideológica financeira. O compartilhamento de doadores entre partidos de direita é apenas um quinto (20%) superior ao esperado pelo acaso, demonstrando uma articulação mais dispersa.

Há também contradições práticas individuais: deputados de partidos de direita (como PL, PP e Republicanos) costumam assinar, ao mesmo tempo, frentes parlamentares ideologicamente opostas, como a do Livre Mercado e a da Reestatização da Eletrobras. São ignorantes “sabidos” ou oportunistas.

A grande diferença prática entre os dois países reside em como a governabilidade é construída.

Diante do enfraquecimento de valores individualistas e do avanço de identitarismos rivais, a política americana funciona cada vez mais como blocos rígidos (“batalhões uniformizados”). Travam guerras culturais e legislativas sem espaço para negociação centralizada.

No Brasil, exceto nos impeachments de Collor e o de Dilma, adota-se por prudência, para evitar o impedimento presidencial com pautas-bombas, o Presidencialismo de Coalizão. Para governar, o Executivo federal precisa atrair o chamado “Centrão”.

No painel da Câmara, o bloco de esquerda e o centrão frequentemente votam juntos com o governo petista, somando maiorias folgadas. Siglas de centro, como o MDB e o PSD, mantêm-se equilibradas no meio da régua do GPS Partidário em todos os critérios.

Curiosamente, no Brasil, em raras situações as pontas ideológicas se unem contra o centro. O GPS mapeou, em mais de mil votações analisadas, as duas pontas (PT/PSOL de um lado e PL/Novo do outro) votaram juntas contra os partidos de centro em apenas três ocasiões. O exemplo mais marcante ocorreu, em junho de 2025, quando a esquerda e a direita ideológica votaram unidas para tentar impedir um projeto de lei de aumento o número de cadeiras na Câmara dos Deputados, em benefício dos partidos do Centrão. Perderam, mas o presidente Lula vetou.

Em termos de frentes parlamentares, a divisão brasileira se assemelha à polarização norte-americana: temas de renda, minorias e meio ambiente concentram a esquerda, enquanto livre-mercado, armas, agronegócio e defesa dos costumes tradicionais agrupam a direita.

As principais propostas da esquerda americana não são distintas da brasileira.

  • Saúde pública universal: defesa de um sistema de saúde gratuito ou acessível para todos os cidadãos.
  • Green New Deal: grandes investimentos estatais em energias limpas para combater as mudanças climáticas.
  • Direitos trabalhistas: fortalecimento de sindicatos e aumento real do salário mínimo.
  • Justiça social: expansão de serviços sociais

Distinguem-se pela proposta de redução do financiamento policial tradicional. Aqui, a segurança pública está entre as prioridades da esquerda.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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