A médica e professora Helena Serra Azul Monteiro, uma das fundadoras da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia (ABMMD) e viúva do médico sanitarista Francisco das Chagas Dias Monteiro, o Chico Passeata, manifestou ao Portal Vermelho indignação com a decisão de Ciro Gomes (PSDB) de atribuir ao falecido dirigente sindical a autoria da frase “médico é como sal: branco, barato e se encontra em qualquer esquina”.
A declaração de Ciro ocorreu após o governador e candidato à reeleição Elmano de Freitas (PT) resgatar, durante o debate PontoPoder, realizado pelo Diário do Nordeste na última quarta-feira (9), a frase historicamente atribuída ao tucano. Ciro negou ter feito a declaração e chegou a afirmar que renunciaria à candidatura caso fosse comprovado que ela era de sua autoria.
Depois do debate, Ciro apresentou sua versão nas redes sociais e atribuiu a criação da frase a Chico Monteiro, que já é falecido. A afirmação desencadeou reação da família, de antigos companheiros de militância e de entidades ligadas à categoria médica.
“É com muita indignação que toda a família e os amigos mais próximos se colocam diante da posição que foi colocada, a frase que foi dita no debate entre os candidatos a governador aqui no Estado do Ceará, em que um dos candidatos, o Ciro, coloca que o Chico haveria dito, há muitos anos, que o médico era como o sal, que era barato, branco e se encontrava em qualquer esquina. Isso é um verdadeiro absurdo”, afirmou Helena ao Portal Vermelho.
Disputa começou no debate
A polêmica ganhou força quando o tema da Saúde entrou no debate entre Ciro e Elmano. O governador questionou o adversário sobre a frase, atribuída a Ciro desde uma greve dos médicos ocorrida durante seu governo no Ceará, em 1992.
Ciro rejeitou a acusação e propôs que os dois candidatos vinculassem suas candidaturas à veracidade das versões apresentadas. “Eu renuncio a minha candidatura, se você renunciar a sua, se for verdade”, disse. Elmano respondeu que renunciaria porque considerava verdadeira a atribuição.
A controvérsia sobre a autoria não surgiu agora. Em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 2018, o ex-governador Lúcio Alcântara, que foi vice de Ciro no governo cearense, afirmou que, durante uma greve de médicos, a reação do então governador teria sido comparar os profissionais ao sal, dizendo que seriam “branco, barato” e encontrados em qualquer lugar. Na mesma reportagem, a assessoria de Ciro classificou a história como “fake news”.
Assim, a autoria da frase permanece objeto de versões conflitantes. A novidade na atual campanha foi a inclusão do nome de Chico Monteiro na controvérsia — uma atribuição que sua família rejeita de maneira categórica.
“Desrespeito à memória do Chico”
Segundo Helena Serra Azul, o contexto daquela época foi marcado por uma longa mobilização da categoria, motivada pelas condições de trabalho e pelos salários. “A bem da verdade, da história e da memória do Chico, o que aconteceu naquele período é que houve uma greve muito extensa dos médicos. Na época, definiu-se que os médicos fariam um pedido de demissão em março, pelas condições de trabalho e de salário, que realmente estavam muito ruins, inclusive em relação à saúde no Ceará e em Fortaleza especificamente”, explicou.

Chico Monteiro presidia o Sindicato dos Médicos do Ceará e participava diretamente das mobilizações da categoria. Médico sanitarista, também teve atuação na defesa do Sistema Único de Saúde (SUS), da saúde pública e dos direitos dos trabalhadores. A nota divulgada por familiares e companheiros registra ainda sua trajetória como líder estudantil e quadro do PCdoB perseguido pela ditadura militar.
“O Chico era o presidente do Sindicato dos Médicos. Ele tem uma história de defesa do SUS, da saúde pública e da categoria médica. Então, isso foi um verdadeiro desrespeito à família, aos amigos e à memória do Chico”, disse Helena.
O apelido “Chico Passeata”, acrescenta a viúva, nasceu justamente de sua participação política desde os tempos de estudante. “O Chico, desde estudante, sempre teve lado e sempre foi muito dedicado. Daí veio seu apelido, Chico Passeata. Ele sempre defendeu a categoria médica, uma categoria extremamente importante para a qualidade da saúde em nosso país.”
Família e ABMMD reagem
Em nota pública, familiares e antigos companheiros de militância afirmaram que Chico Monteiro “nunca disse nem inventou” a frase e classificaram a atribuição como incompatível com sua trajetória de defesa dos médicos e da saúde pública. A nota pode ser lida aqui.
A reação também chegou à ABMMD, que lançou um abaixo-assinado em defesa da memória do sanitarista e em apoio ao pedido de Desagravo Público In Memoriam encaminhado ao Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará (Cremec). A iniciativa apresenta Chico como uma das lideranças da medicina cearense, defensor do SUS, da democracia, da saúde pública e da valorização da categoria.
Para a entidade, vincular seu nome a uma declaração considerada depreciativa aos médicos representa uma injustiça contra sua história. O abaixo-assinado pede que o Cremec se manifeste publicamente e conceda o desagravo em sua memória. “Quem conheceu sua história sabe exatamente o contrário. Associar seu nome a essa frase é uma injustiça contra sua honra, sua memória e seu legado”, diz a ABMMD.
A disputa, portanto, ultrapassou o embate eleitoral entre Ciro e Elmano. Ao atribuir a autoria da frase a uma pessoa que não pode mais apresentar sua própria versão, a controvérsia passou a envolver também o tratamento público da memória de Chico. É justamente esse aspecto que familiares, amigos e entidades médicas procuram colocar no centro do debate: para eles, uma acusação póstuma exige documentação capaz de sustentá-la e respeito à trajetória de quem já não pode respondê-la.
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