As movimentações, posições e disputas dos primeiros quinze dias de campanha têm confirmado o prognóstico que parte da esquerda vinha evitando reconhecer: o caminho para a vitória de Lula e do povo brasileiro contra o imperialismo será tudo menos um passeio. A profunda fratura social e política que divide o país há uma década tem mantido os setores capturados pelo bolsonarismo praticamente impermeáveis a tudo aquilo que foge a seu lacre ideológico. A tendência, confirmada pelas pesquisas até aqui, é de estabilidade na intenção de votos entre os dois campos em disputa, de modo que o resultado será decidido por muito pouco. De outro lado, a elite da burguesia tem demonstrado crescente – mas não surpreendente – indiferença com os perigos da recolonização e do neofascismo, e requenta contra Lula o lavajatismo mais abjeto na tentativa de equipará-lo à família Bolsonaro. Em paralelo, dá palco e projeção para uma expressão ainda mais radicalizada do neofascismo brasileiro, que é Renan Santos e seu partido. Na disputa se o Brasil sobreviverá ou não como um projeto de país, não há nada decidido. E o campo popular pode contar com muito pouco além de suas próprias forças.
As sabatinas e programas de rádio e TV são ilustrativas do que está em jogo. Enquanto Flavio Bolsonaro defende a anistia a todos os envolvidos no 8 de janeiro, a articulação de sua família com o governo dos EUA em favor do tarifaço e a guerra civil, a grande imprensa está empenhada em fazer da “corrupção” o tema central das eleições. Apesar destes esforços, Lula tem feito bem em qualificar a discussão sobre qual o destino do país diante das intensas transformações geoestratégicas e históricas em curso. Contra a despolitização do semi-interrogatório da TV Globo, o presidente defendeu o papel do Estado, rejeitou os dogmas do neoliberalismo senil, e reafirmou o futuro digno que o Brasil pode oferecer ao seu povo. Esse futuro só é possível se vencermos as eleições.
Em seu primeiro programa de TV, Lula ainda foi além. Defendeu suas medidas mais progressivas, como a isenção do imposto de renda para a ampla maioria da classe trabalhadora com a taxação dos super-ricos; a soberania nacional contra os traidores da pátria e o imperialismo; a luta pelo fim da 6×1; o combate ao feminicídio; e a reindustrialização e o desenvolvimento tecnológico como alternativas ao rentismo. Todos estes são temas em que temos expressiva maioria social, e incidem até mesmo sobre setores populares capturados pelo bolsonarismo. Essa política deve ser aprofundada. Para vencer, a esquerda precisa reconquistar maioria política, convencendo e encantando os setores populares de que há alternativa ao miserável horizonte oferecido pelo bolsonarismo e pelo neoliberalismo.
Semana decisiva
Nesse sentido, a semana que se inicia será decisiva. No Congresso Nacional serão pautados temas de interesse estratégico para as eleições e o futuro do país, a exemplo do marco legal dos minerais críticos. O mais importante dos temas é o fim da escala 6×1, que até agora esteve travado no Senado e poderá finalmente ser colocado em votação. Estamos diante da possibilidade de uma vitória histórica para a classe trabalhadora brasileira, que não tem sua jornada reduzida há décadas, e da maior demonstração prática de que, desde já, outro futuro pode ser construído com a reeleição de Lula.
Não há qualquer motivo para confiança em Alcolumbre e na maioria do Senado, e se o tema não for posto em votação nesta semana, poderá sequer ser votado no futuro. Os movimentos sociais fizeram manifestações em diversas cidades do país neste domingo, e durante a semana devemos intensificar a mobilização nas ruas e nas redes, com panfletagens e agitação nos comércios, terminais, universidades e escolas
Essa não é, no entanto, uma vitória garantida de antemão. Não há qualquer motivo para confiança em Alcolumbre e na maioria do Senado, e se o tema não for posto em votação nesta semana, poderá sequer ser votado no futuro. Os movimentos sociais fizeram manifestações em diversas cidades do país neste domingo, e durante a semana devemos intensificar a mobilização nas ruas e nas redes, com panfletagens e agitação nos comércios, terminais, universidades e escolas. Se é verdade que não há bala de prata nessas eleições, não se deve ignorar o imediato salto qualitativo que o fim da escala 6×1 representa para milhões de trabalhadores e trabalhadoras. As forças populares e nossas campanhas devem concentrar todos seus esforços na garantia desta vitória.
É na batalha dessa semana que começa a ser decidido o futuro do Brasil. Podemos vencer.