Bala de prata pela culatra da Globo fura a blindagem semiótica de Flávio Bolsonaro, por Wilson Ferreira

no Cinegnose

Bala de prata pela culatra da Globo fura a blindagem semiótica de Flávio Bolsonaro

por Wilson Roberto Vieira Ferreira

O inédito cancelamento do debate presidencial na TV Globo, sob a justificativa de “insegurança jurídica”, revelou o espetacular tiro pela culatra de uma operação semiótica frustrada: o plano da emissora de blindar Flávio Bolsonaro ao tentar excluir Renan Santos do estúdio, evitando a sangria de votos da direita para forçar um segundo turno e desidratar a ameaça de uma vitória de Lula logo no primeiro turno. Ao ver sua arquitetura ruir com a liminar de Gilmar Mendes autorizando a presença do candidato do Missão, a emissora foi confrontada com a debandada de Flávio e a ausência do petista — resultando em estúdios vazios no Projac, comentaristas constrangidos em transmissão ao vivo e na demonstração definitiva de que a velha hegemonia analógica da “bala de prata”  perdeu a capacidade de ditar os rumos do jogo político.

“Flávio Bolsonaro pode ser acusado de fugir do Renan Santos, que sabidamente viria para fustigá-lo? Sim, pode ser sim. Ele tinha exigido antes que não viria por causa do Renan Santos, aí vem o Renan Santos e ele saiu. Isso também é verdade.”, falou uma gaguejante Malu Gaspar, tendo ao seu lado um Valdo Cruz tentando fazer a já conhecida “poker face” global para simular imparcialidade (sobre isso, clique aqui). Mas não conseguia segurar uma expressão apalermada.

A voz gaguejante, com o olhar fixo, gestual repetitivo e a boca quase colada no microfone era a própria expressão do tamanho do impacto sentido por uma emissora acostumada com o seu poder de agendamento – montar um cenário, às vésperas da eleição, para dispara a “bala de prata” na opinião pública.

Todos esperavam o modus operandi da “bala de prata” no último debate. Como sempre, o da TV Globo.

Jornalistas ao vivo nas suas posições para receber os candidatos num corredor do Projac que mais parecia a entrada da caverna de Bruce Wayne – talvez um recall subliminar daquele personagem fantasiado de Batman que posava ao lado de bolsonaristas e policiais militares nas jornadas verde-amarelas na Avenida Paulista.

Já calejado, Lula sabia disso e nem apareceu. Preferindo o ecossistema digital dos podcasts (concedeu uma entrevista, sem amarras, no Flow) que atinge de morte o monopólio analógico da Globo.

Na bolha progressista da Internet, a expectativa era de alguma armação sendo preparada, com uma prevista colocação de um púlpito vazio com o nome “Lula” no estúdio e perguntas dos comensais direcionadas ao candidato ausente. “Covarde, foge da Democracia!”, seria o tom das linhas de diálogo do roteiro aguardado.

E a polêmica: Lula deveria ou não aparecer no debate?

E Lula não deveria aparecer mesmo! Como ficou comprovado na noite catastrófica de constrangimento e vergonha alheia vivida pelo entourage de jornalistas e “colonistas” escalados para a que deveria ser “noite de gala” na caverna de Bruce Wayne.

E o pior é que a fala constrangida e nervosa de Malu Gaspar, além de um sintoma, foi um sincericídio: admitiu a condicionante de Flávio imposta aos produtores da emissora – com Renan Santos, eu não vou!

E não apareceu mesmo, após o ministro Gilmar Mendes conceder uma liminar autorizando a participação do candidato do Missão duas horas antes do início do debate.

Restou os rostos de velório dos jornalistas na caverna de Bruce Wayne que, minutos antes, já haviam recebido com pompas e circunstância o candidato Ronaldo Caiado. Como estivessem no “Red Carpet” do Oscar.

E velar o debate cancelado com uma nota da emissora falando em “insegurança jurídica”. Para depois o jornal O Globo refinar a justificativa, colando o discurso do bolsonarismo: “Diante da interferência política da Justiça e das violações à Constituição e à liberdade de imprensa, a TV Globo tomou a única decisão cabível: cancelou o debate entre candidatos à Presidência da República previsto para hoje”.

Busca de rendimento semiótico de consolação

De alguma maneira a Globo tenta agora algum rendimento semiótico nesse tiro pela culatra da sua bala de prata: de uma emissora “com tradição em organização de debates para contribuir com um debate de ideias para o Brasil” (Marcelo Cosme, GloboNews) restou fazer o papel de vítima de “blocos políticos” no STF.

A Globo tenta encontrar algum tipo de rendimento semiótico como uma espécie de recompensa de consolação pelo fracasso de seu plano principal: afastar a ameaça de uma vitória de Lula no primeiro turno.

Até as pedras do cais do Porto de Santos sabem que Flávio Bolsonaro no Planalto representa a instabilidade e imprevisibilidade institucional. Diversas vezes representantes da Faria Lima já manifestaram isso. Nada que ajude o financismo da Febraban. Principalmente com a ameaça de um governo flertar com o nacionalismo e populismo de extrema-direita. Com apoio dos “camelôs” da Faria Lima: as fintechs e lavagem do crime organizado.

Ao contrário, com Lula é mais previsível. Desde que ele ganhe as eleições com a faca no pescoço. Seja reeleito na bacia das almas. Desidratado e sem capital político acumulado num hipotético cenário vitorioso no primeiro turno.

Se até aqui, o Lula amarrado pelo financismo da Selic nas alturas, de Dario Durigan jurando responsabilidade fiscal ao mercado na Fazenda e do BC de Galípolo preocupado em não mexer com os insondáveis humores do mercado, entregou a agenda neoliberal, uma vitória de primeiro turno mudaria o quadro: o medo de um Lula empoderado, flertando, dessa vez, com o nacionalismo e desenvolvimentismo colado aos Brics.

A liminar de Gilmar Mendes colocando Renan Santos no debate fez a Globo apertar o “eject”: o “debate” planejado para servir de escadinha para Flávio, de repente foi tomado pelo pânico de que um feroz opositor (um Renan ávido em acumular seu próprio capital político) roubasse votos do bolsonarista. Diante da reconhecida inapetência de Flávio para debates: seria destruído pela metralhadora verbal de Renan Santos.

Se a Globo fosse realmente tão cônscia do seu papel de “contribuir com um debate de ideias para o Brasil”, tocaria o debate mesmo sem a presença dos líderes nas pesquisas.

Mas teve que ejetar o debate e, mais uma vez, poupar sua bala de prata alegando “insegurança jurídica”, e não o medo pânico de Flávio em debater com um opositor.

A morte de um vampiro semiótico

Mas contra uma coisa a Globo nada pode fazer nesse episódio: a perda do monopólio do agendamento.

O ecossistema de mídia passou de um modelo concentrado (broadcast) para um modelo disperso, celular e reticular (lives, podcasts, redes criptografadas, canais independentes).

Na historiografia política brasileira sob a égide do oligopólio analógico, a TV Globo atuou como o vampiro semiótico por excelência: uma estrutura hegemônica que precisava drenar e monopolizar a energia da esfera pública para sustentar o simulacro de “juiz isento” e “espectro central da democracia”.

A “bala de prata” sempre foi o instrumento clássico desse poder de agendamento (agenda-setting):

  • 1989: A edição manipulada do debate entre Lula e Collor no Jornal Nacional.
  • 2006 e 2014: A amplificação cirúrgica de vazamentos seletivos às vésperas da votação.
  • 2016-2018: A espetacularização da Operação Lava Jato e a criação do ambiente para a ascensão do bolsonarismo.

Nesses episódios, o espetáculo televisivo funcionava porque a emissora retinha o monopólio da atenção concentrada. O estúdio do debate não era apenas um espaço de discussão; era a arena sagrada do simulacro político, onde a emissora definia as regras, a iluminação, o enquadramento e o tom narrativo.

O cancelamento do debate alegando “insegurança jurídica” revelou a fratura exposta do dispositivo.

Quando candidaturas de campos opostos (como Lula e Flávio) recusaram a submissão à arena televisiva, ocorreu a deslegitimação da grande mídia mediadora. Sem os atores centrais, a cenografia do espetáculo desmoronou.

A alegação de “insegurança jurídica” funcionou como um simulacro defensivo. A emissora justificou o cancelamento por imperativos técnicos/legais para ocultar o fato político real: perdeu a capacidade de constrangimento e convocação compulsória dos players políticos.

Ao tentar montar o palco para mais uma intervenção cirúrgica no processo eleitoral, a emissora encontrou um vácuo. O artefato projetado para ferir o processo político ricocheteou contra a própria reputação do canal — a bala de prata disparada no vácuo atingiu o próprio atirador.

O cancelamento do evento não apenas expôs a fragilidade da emissora, mas também acelerou a migração da audiência e da centralidade do debate para os canais alternativos e plataformas digitais.

 A TV Globo não deixou de existir enquanto gigante de infraestrutura ou empresa de entretenimento, mas perdeu sua função histórica central: a de demiurgo absoluto da política nacional. Ao ver seu estúdio esvaziado e ser forçada a cancelar o debate sob pretextos formais, a emissora escancarou que o “velho ecossistema” já não consegue enquadrar a complexidade e a volatilidade da disputa política no ambiente digital.

A bala de prata, que historicamente garantia o controle do enredo eleitoral, desta vez saiu pela culatra e revelou que a grande mídia não tem mais o velho controle total sobre a luz dos refletores.

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunicação Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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