Atiradores “comuns” como o do jantar de Trump vão se multiplicar — até que um consiga

Cole Tomas Allen com traje de formatura. Foto: LinkedIn/Reprodução

Cole Allen nunca apareceu no radar do aparato antiterrorismo doméstico do FBI. O suposto atirador de 31 anos que tentou invadir o jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, realizado no sábado, parecia, em todos os aspectos, uma pessoa comum — até deixar de ser.

O próprio Allen se mostrou chocado com o que chamou de falta de segurança “insana” no Washington Hilton, local que recebe o evento há décadas e onde, em 1981, ocorreu a tentativa de assassinato do presidente Ronald Reagan. Vídeos mostram que, depois que os convidados já estavam sentados, agentes do Secret Service e policiais locais conversavam de forma descontraída enquanto Allen passava correndo.

Rapidamente surgiram rumores de que ele seria um fanático anticristão ligado a uma rede de esquerda. O procurador-geral interino Todd Blanche afirmou que o FBI investiga se Allen agiu sozinho. Mas a questão central permanece: quem era ele — e o que representa?

A resposta é perturbadora justamente por sua banalidade.

Allen se formou em 2017 no California Institute of Technology (Caltech), uma das principais instituições científicas dos EUA, responsável por dezenas de laureados com o Nobel e pelo laboratório de propulsão a jato da NASA. Engenheiro mecânico, trabalhou em uma pequena empresa da Califórnia desenvolvendo hardware de precisão para estabilização de câmeras e sensores — tecnologia usada em drones, satélites e sistemas militares — além de software de comunicação por feixes de laser.

Antes disso, havia estagiado em uma startup biomédica, projetando peças impressas em 3D e equipamentos usados na fabricação de dispositivos médicos. Também desenvolvia videogames do zero: seu principal projeto, Bohrdom, incluía sistema físico próprio, centenas de gráficos originais e trilha sonora composta por ele mesmo.

Colegas o descrevem como estudioso, educado e profundamente religioso. Participava ativamente de um grupo cristão da universidade. “Se eu não tivesse visto a imagem dele sendo imobilizado no chão, não acreditaria”, disse um ex-colega.

Esse detalhe — sua fé — contradiz diretamente a versão apresentada pelo presidente Donald Trump. Em entrevista, Trump afirmou que Allen “odeia cristãos”. A narrativa foi ecoada por autoridades e parte da mídia.

Convidados do Jantar do Correspondente abaixados após barulho. Foto: New York Times

Mas o manifesto atribuído a Allen sugere algo diferente. O texto recorre à teologia cristã para justificar a violência, reinterpretando passagens bíblicas. Ao discutir o ensinamento de “dar a outra face”, ele argumenta que isso não se aplica quando outros estão sendo oprimidos. Em outro trecho, questiona a ideia de submissão à autoridade política (“dar a César o que é de César”), defendendo que leis injustas não devem ser obedecidas.

Ele também agradece à família e à igreja, e em redes sociais teria se identificado como protestante, além de comparar Trump ao anticristo — citando o livro bíblico do Apocalipse.

Talvez a maior ironia esteja em seu passado universitário: Allen presidiu um clube de armas de brinquedo (Nerf) e se posicionava contra a “militarização” desses objetos, tentando evitar que parecessem armas reais. Ainda assim, segundo relatos, teria atravessado o país com armas de verdade com a intenção de matar o presidente.

O choque entre quem ele era e o que fez levanta uma questão incômoda. Allen não se encaixa no estereótipo clássico do atirador isolado e marginalizado. Assim como Luigi Mangione, que fulminou o CEO de uma suguradora de Saúde, trata-se de indivíduos inteligentes, funcionais, socialmente integrados e, muitas vezes, idealistas. Não têm histórico criminal relevante e, em alguns casos, até demonstram preocupação em evitar vítimas colaterais.

O ponto em comum não é o perfil psicológico caricatural, mas uma convicção: a de que o sistema político falhou completamente — e que alguém precisa agir.

Enquanto isso, a resposta institucional tende a seguir outro caminho. A retórica de Trump, que associa “anticristianismo” ao terrorismo doméstico — como em sua diretriz de segurança NSPM-7 — deve prevalecer, independentemente dos fatos. Com isso, agências de segurança devem ampliar vigilância, pedir mais recursos e reforçar mecanismos de controle.

A pergunta mais difícil, porém, permanece sem resposta: por que pessoas cada vez mais comuns estão chegando à conclusão de que a violência é a única saída?

Os EUA são uma sociedade doente e a saída para muita gente é atacar o tumor, na esperança de vencer o que já é uma metástase.

Artigo Anterior

O encontro do chanceler do Irã com Putin após entrave com os EUA

Próximo Artigo

Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Curaçá-BA celebrará 50 anos com grande festa aberta ao público

Escrever um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter por e-mail para receber as últimas publicações diretamente na sua caixa de entrada.
Não enviaremos spam!