Até onde vai a rejeição ao PT? Reflexão questiona voto em Flávio

Flávio Bolsonaro. Foto: Divulgação

Por Daniela Sturzenegger e Luís Carlos Sturzdnegger

Essa reflexão é para você que ainda não sabe em quem votar ou que, por alguma razão, decidiu votar em Flávio Bolsonaro.

Peço que dedique dois minutos do seu dia para atravessar essas reflexões comigo.

Não sei se o que te leva a votar nele é a raiva do Lula ou do PT. E eu entendo. Entendo que Lula não agrada a muitos, assim como o PT.

Mas, não estamos falando deles.

Estamos falando de qualquer outra pessoa que pudesse ocupar o lugar de adversário de Flávio Bolsonaro em um segundo turno. Poderíamos estar falando de Zema, Caiado, Renan, Cury ou qualquer outro.

Porque a questão aqui não é o PT. É o que você está disposto a aceitar para não votar nele.

Essa mensagem é especialmente para você que, assim como eu, pertence à classe média e desfruta de inúmeros privilégios.

Você que é médico (a), policial, professor (a), advogado (a), ou que, independentemente da profissão, teve acesso à educação e à informação. Você que tem condições de desenvolver senso crítico, discernir informações falsas e compreender a realidade do país em que vive.

Dito isso, me pergunto:

Qual é o tamanho da sua raiva do Lula ou do PT para que você comece a considerar razoáveis determinadas escolhas?

É razoável relativizar denúncias de envolvimento com milícias?

É razoável ignorar acusações gravíssimas de violência sexual contra uma menina de 13 anos?

Aqui somos pais, mães, alguns avôs e avós.

É razoável flexibilizar a proteção garantida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA?

É razoável imaginar nossas matas e florestas sendo destruídas sem controle, enquanto povos indígenas são retirados de seus territórios para abrir espaço ao desmatamento, ao agro e ao abuso de nossas terras raras?

É razoável aceitar propostas de alteração da Constituição sem considerar quais direitos fundamentais podem estar ameaçados?

É razoável apoiar projetos políticos que se posicionem contra os direitos das mulheres, dos trabalhadores, das pessoas neurodivergentes, da população LGBTQIA+ e dos povos indígenas?

É razoável relativizar a própria democracia?

Desde quando tudo isso se tornou razoável?

Desde quando se tornou razoável naturalizar a presença de armas na vida das crianças?

Eu, assim como você, talvez não precise recorrer a muitas das políticas públicas existentes no Brasil.
Mas a minha funcionária precisa. A sua também.

A mulher que limpa seu banheiro, cuida da sua casa, lava suas roupas e contribui para que você tenha uma vida confortável não dispõe das mesmas condições que você.

As decisões políticas que parecem distantes da sua realidade podem transformar profundamente a vida dela.
E a de milhões de brasileiros.

Lula e apoiadores. Foto: Divulgação

Farmácia Popular? SUS? Direitos trabalhistas? Políticas de proteção social?

Estamos falando de direitos e serviços que fazem diferença concreta na vida de grande parte da população brasileira.

É sério que a sua rejeição a um partido pode ser maior do que a sua preocupação com os direitos dessas pessoas?

É razoável defender propostas sem considerar o impacto que terão sobre aqueles que vivem em condições muito diferentes das suas?

Qual é o limite entre uma escolha política legítima e a indiferença diante do sofrimento do outro?

E me pergunto ainda:

É razoável aceitar discursos que defendem ou relativizam a tortura?

É razoável naturalizar manifestações de apoio à ditadura?

É razoável tratar a democracia como algo negociável?

O presidente ocupa o governo para representar e defender o povo de seu país. Todo o povo. Inclusive aqueles que não votaram nele e aqueles que ele pessoalmente possa não gostar.

Ele não está lá para gostar ou não gostar de determinado grupo social. Ele está lá para proteger, defender e contribuir para seu desenvolvimento.

Como você pode aceitar que o desprezo por determinados grupos da população seja tratado como uma posição política qualquer?

É realmente esse o país que você quer para nossas famílias? Para nossos filhos? Para aqueles que virão depois de nós?

Não estou dizendo que você precisa gostar de Lula ou do PT. Não estou pedindo que abandone suas convicções políticas.

Estou perguntando o que acontece com suas convicções éticas quando a rejeição a um partido passa a justificar aquilo que, em qualquer outra circunstância, você consideraria inaceitável.

Porque, se a raiva do PT é suficiente para fazer você relativizar direitos, violência, desigualdade e democracia, talvez a questão já não seja mais o PT.

Talvez seja necessário olhar para seus próprios valores.

Para aquilo que você defende publicamente, para aquilo que ensina aos seus filhos e para aquilo que pede em suas orações.

Afinal, o que significa falar de amor ao próximo, de justiça, de família e de dignidade humana se esses princípios deixam de valer quando o outro não pertence ao seu círculo de privilégios?

A pergunta que fica não é apenas em quem você pretende votar.

É o que você está disposto a considerar razoável para sustentar esse voto.

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