As eleições brasileiras à luz do neofascimo mundial!

Eleições brasileiras e disputa política
 Lula e Flávio Bolsonaro. Foto: Reprodução

Originalmente publicado no site de Arnobio Rocha

O mundo foi sacudido com a queda do muro de Berlim e a onda neoliberal venceu, moendo sonhos e ilusões. A promessa era de um mundo multipolar e de um novo capitalismo que incorporaria a China e o Leste Europeu, além de frear as alternativas políticas da América Latina e da África. Essa realidade ruiu 20 anos depois com a crise monumental do sistema financeiro e especulativo global, marcada pela queda do “muro de Wall Street” em 2008 e pela crise na Europa em 2009. Uma nova ordem mundial do Capital, muito mais radical, impôs-se ao mundo.

Os últimos 16 anos dessa virada para a extrema-direita e para o ultraliberalismo têm como premissa o fim da democracia como se conhecia, alimentando-se, inclusive, da crise de representatividade e de Estados nacionais frágeis, com instituições apodrecidas, corrompidas e sem projetos que possam romper a imposição de mais lucros à custa do que subsistia do Estado de Bem-Estar Social.

A contraditória trajetória do Brasil, que fez um ajuste neoliberal com FHC — mas sem ir até o fim na redução do Estado —, permitiu que um governo de centro-esquerda pudesse retomar pautas sociais e ganhos econômicos em um processo curto de crescimento. O enfrentamento à crise de 2008 foi de relativo sucesso, dando fôlego para mais duas eleições do PT com Dilma.

No entanto, esse modelo, dentro dos marcos do capitalismo, não era condizente com a estratégia mundial do ultraliberalismo. Atacando pelas franjas, com a Lava Jato e as Jornadas de Junho, um novo cenário político se montou, mas não venceu em 2014. O governo eleito cedeu ao núcleo do Capital; nem assim conteve a sua fúria, derrubando Dilma de forma violenta.

Olhando em perspectiva, o golpe de 2016 (no Brasil) deu certo, só não contava com uma pandemia no meio. Coincide, inclusive, com a virada mais profunda nos EUA com a vitória do histriônico Donald Trump sobre Hillary Clinton, a representante de Obama — este, o gestor da implantação do ultraliberalismo no mundo com guerras e o patrocínio de golpes, como no Brasil.

As eleições de 2016 e 2018 no Brasil consolidaram um país sem rumo e sem projeto, exceto o entreguismo, pronto para o neocolonialismo que os EUA vinham comandando no enfrentamento à China. Esse projeto teve uma “pausa para a democracia” nos EUA e no Brasil por conta da pandemia da covid-19. Em 2020, houve uma conjuntura de instabilidade mundial que levou à derrota de Trump; o tíbio Joe Biden venceu e fez um mandato de crise política e tentativa de golpe, em um mundo abalado pela pandemia.

Nesse cenário, no Brasil, Lula, depois de sair de uma prisão absolutamente injusta, monta uma coalizão mais à direita e vence uma eleição por 1,9% de diferença, em um país marcado pela radicalização da extrema-direita, que tentou o golpe logo antes de ele assumir.

Os seis anos de golpe legaram um país destroçado, desarrumado institucionalmente e sem projetos: dívida pública explodida, déficit fiscal, preços nas alturas, inflação e a infraestrutura em colapso. O projeto de entrega nacional estava exatamente pronto, feito por Temer e Bolsonaro. O modelo era esse mesmo: desestabilizar para melhor vender. O aumento da violência e do crime é subproduto dessa realidade.

O enorme esforço de reconstrução feito por Lula e Alckmin teve marcos importantes com o equilíbrio fiscal, o controle da inflação (embora com preços elevados), a volta do crescimento do PIB, políticas públicas, aumento do salário mínimo, empregos e programas sociais. Não obstante, a crise política não deu trégua, e o projeto ultraliberal tem sedimentado uma espécie de consciência invertida da realidade.

Lula em pronunciamento após o primeiro turno das eleições presidenciais
Lula em pronunciamento após o primeiro turno das eleições presidenciais. Foto: Reprodução

A anomalia é o governo Lula e o seu projeto diante de um mundo dominado por uma lógica política e ideológica completamente distinta da racionalidade, da visão de civilização e da integridade humana. O radicalismo religioso e o discurso de ódio fazem eco nos ouvidos de uma parcela gigante da população, ainda que suas vidas tenham melhorado nesses quatro anos.

Não apenas parece, mas é irracional. Os ganhos econômicos são relativizados pelos preços, mesmo que estes não sejam por conta deste governo. O modelo que eles propõem é o destruidor da Argentina: a pauta de liberdade econômica sem controle levou o país vizinho ao caos, mas é vendida como solução.

A onda política de extrema-direita de renovação tem uma massiva e eficiente propaganda nas redes sociais controlada pelas big techs, sob o interesse direto dos EUA. É uma realidade paralela — assim como a nossa é paralela —, um curto-circuito que explica como uma família de ignorantes e corruptos, ligada às milícias, virou alternativa real de poder no Brasil.

É o que explica o resultado eleitoral devastador na Câmara, no Senado e em vários estados brasileiros — eleições inacreditáveis em situações normais, mas este é o “novo normal”. O resultado geral de uma tentativa de fechar no primeiro turno não funcionou plenamente, mas criou um cenário complexo que precisa ser enfrentado sem medo e sem derrotismo. É possível reverter, não será fácil. Mas a vida não é.

A vitória de Flávio Bolsonaro foi por 1,87%; ele conseguiu esvaziar os demais candidatos, e sobraram ainda mais 7% de votos alinhados, em tese, à extrema-direita, mas que não migraram no primeiro turno. Em 2022, em um cenário parecido, Bolsonaro quase venceu, o que permite objetar se o limite do próprio Flávio Bolsonaro não é esse patamar de 47%.

Extremamente difícil virar, mas não impossível.

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