Da Redação
Pesquisa Focaldata para o Financial Times registra o menor índice desde que a série começou, em maio: apenas um terço dos eleitores registrados aprova o desempenho do presidente. Economia, inflação, tarifas comerciais e guerra com o Irã aparecem no centro do desgaste a menos de dois meses das eleições legislativas, enquanto outras pesquisas recentes também encontram Trump na faixa dos 30%.
Donald Trump chega à reta decisiva para as eleições legislativas de novembro enfrentando um dos momentos mais difíceis de seu segundo mandato. Uma nova pesquisa nacional realizada pela Focaldata para o Financial Times mostra que apenas 33% dos eleitores registrados aprovam seu desempenho na Presidência dos Estados Unidos. O índice caiu três pontos percentuais em relação à rodada anterior e é o menor desde maio, quando o jornal começou essa série específica de levantamentos. A pesquisa ouviu 1.914 eleitores registrados entre 28 de agosto e 1º de setembro e possui margem de erro de 2,6 pontos percentuais. Mais importante do que um número isolado é a convergência com outros levantamentos: uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada no fim de agosto também colocou a aprovação de Trump em 33%, enquanto o Economist/YouGov havia encontrado 34% no final de julho.
O dado precisa ser descrito com precisão. Os 33% constituem o pior resultado da série Focaldata/Financial Times iniciada em maio, e não necessariamente o menor índice produzido por qualquer instituto durante todo o segundo mandato. A Reuters/Ipsos já havia encontrado os mesmos 33% no final de agosto, e outros levantamentos chegaram a números próximos. Essa convergência, porém, indica que o desgaste não depende de uma única metodologia: pesquisas diferentes estão captando uma Presidência com aprovação baixa e desaprovação elevada às vésperas das chamadas midterms, marcadas para 3 de novembro.
O núcleo mais consistente dessa deterioração está na economia cotidiana. Quase dois terços dos entrevistados pela Focaldata consideram que a economia americana está seguindo na direção errada, enquanto 57% afirmam estar financeiramente em situação pior durante a Presidência Trump. No levantamento anterior, eram 53%. A insatisfação chegou também à base republicana: apenas 53% dos eleitores do partido disseram aprovar a maneira como Trump administra emprego e economia, uma queda de quase oito pontos em relação à pesquisa anterior. Até a aprovação geral do presidente entre republicanos recuou para 72%, o menor resultado desse grupo desde o início da série do FT.
Esses números ajudam a explicar uma contradição importante do segundo governo Trump. A economia e, particularmente, o custo de vida foram componentes centrais de sua volta à Casa Branca. O republicano explorou politicamente a inflação durante o governo Joe Biden e prometeu reduzir rapidamente despesas que atingiam diretamente as famílias. Em setembro de 2026, entretanto, uma parcela expressiva do eleitorado diz não perceber essa melhora. O problema político deixa de ser uma discussão abstrata sobre indicadores macroeconômicos quando aparece no preço do combustível, dos alimentos, do crédito e de outros gastos cotidianos.
A guerra com o Irã tornou essa equação mais complexa. O conflito afeta o mercado energético, encarece combustíveis e aumenta a incerteza sobre inflação e crescimento. Na sexta-feira (4), segundo dados citados pelo Financial Times, o diesel nos Estados Unidos chegou a US$ 5,85 por galão, um recorde nominal apontado pela associação automobilística AAA. Para uma economia continental fortemente dependente do transporte rodoviário, diesel mais caro não permanece restrito aos postos: pode repercutir nos custos de agricultura, indústria, logística e distribuição de mercadorias.
O desgaste produzido pelo conflito aparece de forma ainda mais direta em outras pesquisas. A Reuters/Ipsos encontrou aprovação geral de Trump em 33% e identificou forte insatisfação tanto com a guerra quanto com o custo de vida. Na pesquisa, 71% desaprovavam a maneira como o presidente administrava o custo de vida, incluindo 40% dos próprios republicanos. Apenas 36% aprovavam sua condução da guerra com o Irã. O levantamento ouviu 1.167 adultos americanos e tinha margem de erro de aproximadamente três pontos percentuais.
Outro levantamento divulgado neste domingo, da NBC News, encontrou aprovação geral um pouco maior, de 36%, mas registrou 64% de desaprovação. Nesse estudo, 69% desaprovavam a condução da guerra com o Irã e 31% a aprovavam. A diferença entre 33% e 36% é um lembrete importante de como pesquisas variam conforme amostra, metodologia, período de campo e formulação das perguntas. O quadro comum aos diferentes institutos, entretanto, é uma avaliação negativa da Presidência e uma dificuldade particularmente acentuada em relação ao conflito iraniano.
A política tarifária de Trump aparece como outro foco de resistência. No levantamento Focaldata/FT, 56% dos eleitores registrados disseram desaprovar a imposição de tarifa de 50% sobre aproximadamente US$ 20 bilhões em produtos canadenses. A rejeição ultrapassava 60% entre independentes e alcançava quase um terço dos republicanos. A medida provocou retaliação do Canadá, adicionando outra fonte potencial de pressão sobre preços.
Esse é um dos dilemas centrais da estratégia econômica trumpista. A Casa Branca utiliza tarifas simultaneamente como instrumento comercial, industrial e geopolítico: busca pressionar parceiros, proteger setores domésticos, reorganizar cadeias produtivas e obter concessões. Mas tarifas possuem custos distributivos. Parte pode ser absorvida por exportadores e empresas, enquanto outra parte pode chegar aos importadores, às cadeias produtivas e aos consumidores. Quando isso ocorre num ambiente já pressionado por energia cara e incerteza internacional, uma política apresentada como defesa da economia nacional pode enfrentar resistência exatamente entre eleitores preocupados com o custo de vida.
A queda entre republicanos talvez seja um dos sinais politicamente mais relevantes do levantamento, embora 72% ainda represente uma maioria ampla dentro do partido. Durante anos, Trump demonstrou capacidade excepcional de manter uma base partidária altamente coesa mesmo em momentos de forte rejeição nacional. A redução desse apoio não significa ruptura do Partido Republicano com o presidente, mas mostra que o desgaste econômico e internacional não está limitado aos democratas e independentes. O Economist/YouGov também vinha identificando erosão em segmentos historicamente importantes para Trump, como americanos brancos sem diploma universitário e eleitores entre 45 e 64 anos.
A consequência imediata dessa situação está nas eleições legislativas de novembro. Todos os 435 assentos da Câmara dos Representantes estarão em disputa, além da parcela constitucionalmente prevista do Senado. Trump não estará pessoalmente na cédula, mas presidentes inevitavelmente influenciam eleições de meio de mandato, porque seus governos se tornam uma das referências pelas quais o eleitor avalia o partido que controla a Casa Branca.
A pesquisa do Financial Times oferece sinais dessa associação. No chamado voto genérico para o Congresso — pergunta sobre qual partido o entrevistado pretende apoiar sem apresentar candidatos específicos —, os democratas aparecem 7,5 pontos à frente dos republicanos. Na rodada anterior, a vantagem era de cinco pontos. Além disso, 46% dos entrevistados disseram que a participação de Trump torna mais difícil a eleição de candidatos republicanos, contra 17% que consideram que sua presença facilita. Entre independentes, 53% afirmaram que Trump dificulta a situação dos candidatos de seu partido.
O endosso presidencial também aparece como uma variável polarizadora. Segundo o levantamento, 43% dos entrevistados afirmam que ficariam menos propensos a votar em um candidato apoiado por Trump, enquanto 23% dizem que esse apoio aumentaria sua propensão ao voto. Entre independentes, 47% relatam efeito negativo de um endosso presidencial. Isso não permite prever automaticamente o resultado das eleições de novembro: disputas congressuais são decididas estado por estado e distrito por distrito, com candidatos, recursos, comparecimento e questões locais diferentes. Mas indica que a figura de Trump pode mobilizar simultaneamente apoio intenso e rejeição significativa.
A Reuters/Ipsos encontrou outro elemento relevante: 46% dos democratas disseram estar muito entusiasmados para votar nas midterms, diante de 31% dos republicanos. Entre independentes, 36% afirmaram preferência por candidatos democratas e 22% por republicanos. Mais uma vez, esses dados constituem uma fotografia do momento, não uma previsão do resultado de novembro. Mobilização eleitoral pode mudar rapidamente durante as semanas finais de uma campanha.
O ponto mais profundo da atual crise de popularidade está na combinação de política externa e economia doméstica. Trump voltou à Presidência prometendo utilizar o poder americano de maneira mais agressiva para defender interesses nacionais, reorganizar relações comerciais e reduzir custos internos. Em 2026, contudo, a guerra com o Irã e as disputas tarifárias mostram como essas dimensões podem entrar em tensão. Uma política externa que aumenta o risco sobre petróleo e transporte marítimo pode pressionar combustíveis; tarifas destinadas a fortalecer a produção doméstica podem elevar custos de insumos no curto prazo; e a incerteza geopolítica pode atingir crédito, investimentos e expectativas.
Há ainda uma contradição internacional maior. Os Estados Unidos continuam sendo a maior potência militar do mundo e um dos principais centros financeiros e tecnológicos do sistema internacional, mas a capacidade de converter poder coercitivo em resultados políticos rápidos encontra limites. A guerra com o Irã, as disputas comerciais com aliados e adversários e a competição estratégica com a China fazem parte de uma transformação mais ampla da ordem internacional, marcada pela crescente contestação da predominância americana e pelo fortalecimento de polos econômicos e políticos no Sul Global. Isso não significa uma substituição imediata dos Estados Unidos por outra potência, mas torna mais caro exercer poder simultaneamente em diferentes frentes.
Para América Latina e Brasil, a evolução política americana possui consequências concretas. Mudanças na política tarifária, nas sanções, na estratégia hemisférica, no dólar, no preço internacional da energia e nas relações dos Estados Unidos com China e países do Sul Global repercutem muito além da política doméstica americana. O Brasil mantém relações econômicas importantes com Washington ao mesmo tempo que integra BRICS, amplia comércio com a China e busca preservar margem própria de atuação internacional. A estabilidade política e econômica dos Estados Unidos, portanto, é uma variável relevante para Brasília independentemente de quem ocupe a Casa Branca.
Os números atuais também mostram por que seria precipitado anunciar antecipadamente qualquer resultado das eleições legislativas. Trump conserva apoio majoritário entre republicanos, possui enorme capacidade de mobilização e continua sendo o centro político de seu partido. Pesquisas nacionais não determinam automaticamente dezenas de disputas locais para Câmara e Senado. Além disso, ainda faltam quase dois meses para a votação, período suficiente para mudanças econômicas, militares ou políticas alterarem o ambiente eleitoral.
O que já pode ser afirmado é mais delimitado e, ao mesmo tempo, significativo. Três levantamentos recentes colocam a aprovação de Trump entre 33% e 36%; a pesquisa Focaldata/Financial Times registra seu pior resultado desde o início dessa série, em maio; e diferentes institutos identificam insatisfação especialmente forte com custo de vida, economia e guerra com o Irã.
A menos de dois meses das midterms, portanto, a principal vulnerabilidade da Casa Branca não está apenas nos confrontos diplomáticos ou militares que dominam as manchetes. Está na maneira pela qual esses conflitos chegam ao cotidiano do eleitor. Quando guerra, tarifas e geopolítica reaparecem sob a forma de gasolina, diesel, alimentos, crédito e renda disponível, política externa e política doméstica deixam de ser compartimentos separados. É precisamente essa conexão que os levantamentos de setembro começam a registrar — e que deverá permanecer no centro da política americana até as urnas de novembro.