Na primeira quinzena de agosto, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) instalou seu quartel-general de campanha em um apartamento de luxo localizado no Edifício l’Adresse, na Vila Nova Conceição, zona sul, um dos bairros mais caros de São Paulo.
Do endereço na Avenida República do Líbano saíram as articulações de estratégia, gravações de vídeos para o horário eleitoral, podcasts e compromissos na região da Faria Lima.
A revista Piauí revelou que o imóvel de 158,87 metros quadrados, contudo, carrega uma teia de transações imobiliárias e judiciais que entrelaçam personagens do clã Bolsonaro, do mercado financeiro e de investigações em curso no Supremo Tribunal Federal.
A presenca do parlamentar movimentou a rotina do condomínio que conviveram com agentes da Polícia Legislativa à paisana nas áreas comuns e no hall do prédio, além de viaturas estacionadas em uma escola vizinha.
A cerca de cinco minutos do local ficava o comitê oficial da candidatura, para onde o senador se deslocava para transmissões ao vivo.
Antes de servir de base para a campanha eleitoral, o apartamento pertenceu a Fabiano Campos Zettel, ex-pastor da Igreja Batista da Lagoinha, cunhado e apontado pela Polícia Federal como operador e laranja do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Zettel comprou o imóvel em 17 de abril de 2025 por R$ 5,5 milhões, valor condizente com o preço médio de marcado.
Amigo de Flávio compra o imóvel após sequestro de bens do quadrilha do Master
Em 14 de janeiro de 2026, o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli autorizou a segunda fase da Operação Compliance Zero, que determinou o sequestro e bloqueio de bens na ordem de R$ 5,7 bilhões do grupo ligado ao Banco Master. Menos de um mês após o bloqueio amplo, em 10 de fevereiro de 2026, Zettel vendeu o apartamento por R$ 3,5 milhões para a WT Administração de Imóveis e Bens, empresa pertencente ao advogado Willer Tomaz.
A transação registrou um deságio nominal de R$ 2 milhões, equivalente a uma redução de cerca de 36% em relação ao preço pago dez meses antes.
O cartório concluiu o registro da transferência em 4 de março de 2026, exatamente no mesmo dia em que Zettel teve sua prisão preventiva decretada pelo ministro André Mendonça na terceira fase da operação.
A concretização da venda após a ordem de bloqueio patrimonial do STF levantou questionamentos sobre a lisura dos trâmites do negócio.
A empresa compradora, a WT Administração, pertence a Willer Tomaz de Souza, advogado também investigado pela Polícia Federal na Operação Sem Desconto, que apura fraudes contra aposentados do INSS, como estruturador de um arranjo logístico e patrimonial voltado para a cessão de bens e suporte a políticos – uma espécie de hub financeiro.
A Polícia Federal mapeou um padrão operacional que envolve a manutenção de imóveis, aeronaves e veículos em nome da empresa, mantendo o uso efetivo por figuras públicas sem que estas apareçam na titularidade dos bens.
O uso do apartamento na Vila Nova Conceição é o quinto episódio documentado de utilização da infraestrutura da WT e de Willer Tomaz por Flávio Bolsonaro.
O bom amigo de Flávio Bolsonaro
Em fevereiro de 2026, o senador celebrou o aniversário da filha em uma mansão à beira-mar em Angra dos Reis (RJ) cuja cota pertence à WT, gerida pela Prime You – empresa de compartilhamento de bens de luxo da qual Vorcaro foi sócio até setembro de 2025. À época, Tomaz afirmou ter cedido a propriedade sem contraprestação financeira.
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A relação inclui ainda a atuação do senador como testemunha de Tomaz numa disputa pela posse de uma mansão em ilha de Angra dos Reis (RJ). O imóvel, de cerca de 11 suítes, praia e cachoeira, foi ocupado a partir de 2020 pelo grupo do jogador Richarlison (empresa Sport 70, com 75%) e pelo então sócio Alencar Silveira Júnior (25%). Richarlison afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões no local. A posse acabou nas mãos da WT Administração, de Willer Tomaz, em decisões favoráveis ao advogado, inclusive no STJ. Flávio visitou a casa, publicou imagens do imóvel em 2021 e nega ser dono ou sócio.
A mesma órbita em torno de Tomaz aparece em viagens de jatinhos privados da família Bolsonaro do Ceará a Brasília após o acidente de quadriciclo, do trecho Brasília-Rio e a viagem à Flórida, e na indicação de Letícia Caetano dos Reis para administrar a sociedade individual de advocacia do senador e em interlocuções políticas na capital federal.

Flávio e Vorcaro
As revelações sobre a logística em São Paulo conectam a campanha presidencial a apurações que tramitam no Supremo Tribunal Federal. Zettel e Vorcaro são alvos centrais do caso Master, enquanto Flávio Bolsonaro é investigado na Petição 16.369, vinculada ao Inquérito 5.026 no STF, sob relatoria do ministro André Mendonça.
O inquérito apura a suspeita de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas no financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia fictícia de Jair Bolsonaro financiada com recursos atribuídos a Vorcaro.
Em relatórios da Polícia Federal, Flávio Bolsonaro é descrito como interlocutor direto do banqueiro nas tratativas sobre os repasses para a produção do longa-metragem.
Documentos e mensagens captadas pelos investigadores indicam reuniões presenciais e cobranças de parcelas do projeto, cujos aportes negociados alcançaram US$ 24 milhões, dos quais mais de R$ 61 milhões foram efetivamente transferidos entre fevereiro e maio de 2025 com a intermediação de Zettel.
A revista Piauí informou que procurou Flávio Bolsonaro para comentar o uso do imóvel na capital paulista e que a assessoria do senador afirmou que ele apenas se hospedou em hotéis da região durante seus compromissos, sem responder sobre as atividades realizadas na unidade da Vila Nova Conceição.
Segundo a Piauí, por telefone, Willer Tomaz negou que o candidato tenha utilizado o imóvel.
Em nota posterior, declarou à imprensa que não conhece Zettel ou Vorcaro e afirmou que a aquisição do apartamento ocorreu dentro das regras de mercado, com certidões negativas regulares.