Ao lado de Lula no Rio, Cultura quer ser política de estado na Constituição

O encontro desta quarta-feira (23), na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, começou com um vídeo que sintetizava quatro anos de angústia seguidos por um respiro coletivo: a cultura voltando a ser livre. Era o começo de uma noite em que a palavra cultura seria repetida tantas vezes que quase perderia o sentido abstrato. Ali, ela aparecia como teatro, cinema, livro, museu, biblioteca, samba, audiovisual, hip hop, ponto de cultura, festa popular e trabalho.

No auditório, a emoção era palpável. Não era apenas um ato político; era um reencontro de gerações. De Chico Buarque e Paulinho da Viola a Russo Passapusso e Delacruz, a plateia era um microcosmo do Brasil que resiste, cria e insiste em existir. 

Como bem lembrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não há nada que abra mais a cabeça de um ser humano do que a atividade cultural. E ali, naquele espaço, a cabeça e o coração do país pareciam finalmente estar no mesmo lugar.

Ele defendeu a criação de uma emenda à Constituição para transformar a política cultural em uma política de Estado, e não de governo. Segundo Lula, a medida teria o objetivo de impedir que as políticas para o setor sejam alteradas ou descontinuadas a cada troca de presidente. “Para que a gente transforme a Cultura totalmente perene, é preciso que a gente coloque na Constituição aquilo que a gente quer de cultura”, afirmou.

Ao falar sobre sua experiência na Presidência, ele criticou alterações feitas durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). “O Bolsonaro destruiu o ministério não apenas da Cultura; ele destruiu o Ministério do Trabalho, ele destruiu o Ministério da Indústria e Comércio”, afirmou.

23.09.2026 – Paulinho da Viola e Chico Buarque com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante o ato “Cultura com Lula”, na Fundição Progresso, Rio de Janeiro – RJ. Foto: Ricardo Stuckert.

A reconstrução pelos números e pela memória

A certa altura, o apresentador pediu que levantassem a mão aqueles que haviam visto projetos culturais interrompidos ou ficado sem apoio durante os anos anteriores. Braços se ergueram pela plateia.

A cena serviu como passagem para Márcio Tavares, representante do Ministério da Cultura, que recuperou a história recente das políticas culturais. Ele lembrou a extinção do Ministério da Cultura durante o governo Jair Bolsonaro e citou a mobilização do setor durante a pandemia, quando foram aprovadas as leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc. 

Ele e a ministra Margareth Menezes trouxeram a materialidade da política pública. O dado é contundente: pela primeira vez na história, o MinC investiu em todas as cidades brasileiras. A Lei Rouanet, desmoralizada no governo anterior, foi democratizada. Segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas citada por Margareth, os R$ 3 bilhões em patrocínios em 2024 geraram um impacto de R$ 25 bilhões na economia, alcançando 89 milhões de brasileiros.

O argumento era direto: cultura não termina quando a cortina fecha. Ela deixa empregos, circulação econômica, formação, memória e público.

“Não é pouco dinheiro”, enfatizou a ministra, lembrando que a desconstrução encontrada no início do governo visava aniquilar a Ancine, o IPHAN e o IBRAM. A resposta foi a rearticulação federativa, os Comitês de Cultura e a expansão dos Pontos de Cultura de três mil para dezessete mil. A cultura, provou-se ali, é identidade, mas também é economia, emprego e dignidade.

23.09.2026 – Carla Camurati, Marieta Severo e Fernanda de Freitas com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante o ato “Cultura com Lula”, na Fundição Progresso, Rio de Janeiro – RJ. Foto: Ricardo Stuckert.

Soberania cultural e o fim da praga das bets

Um dos pontos mais altos e aplaudidos da noite foi a posição firme e definitiva contra as casas de apostas esportivas (bets). Lula não deixou margem para dúvidas: “Nós vamos acabar com as bets”. 

Com relatos pungentes de jogadores endividados, jovens perdendo o sono e famílias destruídas pela ludopatia, o presidente equiparou o combate a essa indústria à defesa da juventude brasileira. “Os times que aprendam a virar time de empresários”, disparou, lembrando que os grandes títulos mundiais do futebol brasileiro foram conquistados muito antes dessa praga moderna. 

“Eu vi um documento entregue pelos clubes de futebol que eu ainda não recebi, dizendo que se acabar com as BETs eu vou acabar com o futebol”, afirmou, provocando risos na plateia.

A mensagem foi clara: a soberania nacional também passa por proteger o povo da exploração financeira velada de entretenimento. O endividamento das famílias também impede o consumo cultural ao afastar as pessoas dos palcos, telas, shows e exposições.

23.09.2026 – Zeca Pagodinho com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante o ato “Cultura com Lula”, na Fundição Progresso, Rio de Janeiro – RJ. Foto: Ricardo Stuckert.

A periferia no centro do palco

A escuta ativa foi a tônica quando a palavra passou às novas gerações. Russo Passapusso, com sua poesia visceral, lembrou que a cultura é o pão e o suco do ponto de cultura no Pelourinho, é o gado que vem quando o pai chama no sertão. Delacruz, de Vigário Geral, questionou como transformar a cultura em porta de futuro para a juventude das comunidades. A resposta de Lula veio carregada de sua biografia: a necessidade de levar a cultura para onde o povo está, e não o contrário.

Bibliotecas nos conjuntos do Minha Casa Minha Vida, incentivo ao audiovisual e a valorização da “mega diversidade cultural” brasileira foram apresentadas como antídotos contra o algoritmo que atrofia a sensibilidade e o radicalismo que se alimenta da ignorância. Lula argumentou que equipamentos culturais não podem ficar concentrados no centro das cidades. Se o morador precisa enfrentar horas de transporte para chegar ao teatro, ao cinema ou à biblioteca, disse, o acesso deixa de ser efetivamente universal.

Em agosto, foram anunciadas regras para ampliar a proteção do público em eventos culturais e enfrentar práticas abusivas na venda de ingressos.

O presidente defendeu a construção de políticas de baixo para cima e falou sobre a presença da cultura nas periferias como instrumento de pertencimento. “Quando a pessoa abre a boca pra dizer ‘eu existo’”, afirmou, “tá fazendo cultura”.

23.09.2026 – Daniela Mercury com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante o ato “Cultura com Lula”, na Fundição Progresso, Rio de Janeiro – RJ. Foto: Ricardo Stuckert.

A urgência democrática e o 4 de outubro

A campanha eleitoral atravessou os discursos. Artistas e integrantes do governo defenderam a continuidade das políticas culturais e fizeram críticas ao bolsonarismo. Daniela Mercury declarou apoio à candidatura de Lula, enquanto Margareth Menezes conclamou o setor cultural a atuar politicamente. 

O ato ganhou contornos de urgência histórica com as intervenções de Benedita da Silva, Bete Mendes e Eduardo Cavaliere (PSD), prefeito do Rio. A mensagem foi uníssona: não se trata apenas de reeleger um presidente, mas de defender a democracia contra o “ovo da serpente” do extremismo que ainda ronda o país. Chico Buarque, com sua elegância habitual, resumiu o sentimento da sala: a cultura produzida pelo povo é a prova viva de que o Brasil tem um projeto de nação que não cabe no quintal de ninguém.

Ao encerrar, Lula falou de milagres, de sua mãe Dona Lindu e da autoridade moral que o Brasil reconquistou no mundo. “Não estamos aqui para brincar”, avisou, convocando a todos a garantir a vitória já no primeiro turno, no dia 4. Porque, como ecoou na plateia com as mãos doendo de tanto aplaudir, um país que escolhe a cultura, o livro e o abraço em vez da arma e do ódio, é um país que já venceu. E, como prometeu o presidente, quando a vitória vier, haverá dança, haverá hip hop, haverá funk e haverá uma explosão de cultura. O futuro, afinal, ainda não alcançou todo o amor que esse passado de luta construiu.

Foram ao evento lideranças políticas e personalidades da cultura como Lenine, Chico César, Mestre Ciça, Malu Mader, Tony Belotto, Cissa Guimarães, Leandro Vieira e Fernanda Abreu.

23.09.2026 – O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante o ato “Cultura com Lula”, na Fundição Progresso, Rio de Janeiro – RJ. Foto: Ricardo Stuckert.

No fim, memória

A noite terminou como havia começado: com memória.

Havia a geração que atravessou a ditadura, os artistas que construíram suas carreiras, os jovens das periferias e os agentes culturais que passaram a atuar nos territórios. Havia também a lembrança de um Ministério da Cultura extinto e a descrição de sua reconstrução.

No palco, a cultura era política pública. Na plateia, era vocação. Para os artistas, era identidade. Para os jovens, possibilidade. Para Lula, uma forma de ampliar cidadania.

No fundo, era também uma disputa sobre o que merece ser lembrado. E talvez por isso o primeiro gesto da noite tenha sido justamente lembrar.

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