Ameaças fazem site do Pará desistir de cobrir eleição

O site independente Tapajós de Fato, baseado no Pará, decidiu não cobrir as eleições brasileiras de 2026 após uma série de ameaças e episódios de violência contra integrantes da equipe e seus familiares.

A informação foi publicada nesta quarta-feira (30) pelo jornal britânico The Guardian, em reportagem assinada pelo jornalista Tiago Rogero. O veículo continuará funcionando e produzindo reportagens sobre questões ambientais, mas deixará de publicar matérias relacionadas às eleições deste ano.

“Estamos com medo de morrer e de colocar a segurança de nossas famílias em risco”, afirmou o cofundador do site, Marcos Wesley Pedroso, em entrevista.

O primeiro episódio relatado pelo jornalista ocorreu durante a eleição presidencial de 2022. Os pneus da caminhonete utilizada pela equipe do Tapajós de Fato foram cortados. Dias depois, uma cabeça de gato foi deixada nas proximidades do estacionamento, acompanhada de um bilhete com o nome de Pedroso e uma ameaça contra ele.

Em julho deste ano, câmeras de segurança da residência do jornalista registraram ciclistas circulando pela região, assobiando e filmando o carro de Pedroso. Minutos depois, outro veículo bateu no automóvel – para Pedroso, a intenção era fazê-lo sair de casa para uma emboscada.

A polícia não identificou os responsáveis pelos episódios relatados nem estabeleceu se os casos estão relacionados, mas Pedroso considera os acontecimentos parte de uma sequência de ameaças associadas ao trabalho do Tapajós de Fato sobre violações de direitos ambientais e indígenas, conflitos fundiários e contaminação por agrotóxicos no Pará.

Diante do histórico de ameaças, a equipe do Tapajós de Fato decidiu não produzir conteúdo sobre a disputa eleitoral. O veículo, no entanto, permanecerá ativo e continuará cobrindo questões ambientais na região amazônica. A decisão ocorre em um contexto de preocupação de entidades ligadas à liberdade de imprensa com ataques contra jornalistas durante o período eleitoral.

Medo durante a cobertura eleitoral

Segundo Letícia Kleim, coordenadora jurídica da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o caso representa uma das formas de tentativa de silenciamento enfrentadas por jornalistas no país.

Uma coalizão da qual a Abraji participa registrou 4.400 ataques virtuais contra jornalistas, veículos de comunicação e a imprensa no X e no Instagram entre 30 de agosto e 12 de setembro. O número representou aumento de 67% em relação às duas semanas anteriores, de acordo com os dados citados pelo Guardian.

Kleim ressaltou, porém, que ainda não era possível determinar se o número de ataques durante a atual campanha eleitoral superava o registrado em 2022, já que a campanha deste ano ainda estava em andamento.

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