Aliado dos Bolsonaro liga extrema direita a robôs e narcotráfico

A Promotoria da Bolívia abriu uma nova investigação para apurar se o consultor político argentino Fernando Cerimedo participou de um esquema de proteção a voos ligados ao narcotráfico. 

Preso preventivamente por tentativa de feminicídio, o aliado da família Bolsonaro e ex-assessor de Javier Milei também é investigado por enriquecimento ilícito e acusado de operar redes de robôs para interferir em eleições e no debate político de países da América Latina.

A frente mais recente foi aberta pelo Ministério Público do departamento boliviano de Beni. Os investigadores apuram se Cerimedo participou de uma estrutura de proteção a voos irregulares supostamente ligados ao transporte de drogas em Santa Ana de Yacuma, no norte do país.

O procurador departamental Alexander Mendoza confirmou que a investigação envolve a possível cobertura oferecida a aeronaves de pequeno porte relacionadas ao tráfico de substâncias controladas. 

O Ministério Público tenta identificar a eventual participação de Cerimedo e de agentes públicos ou civis nas operações.

“Trata-se de uma certa proteção que supostamente está sendo oferecida no município de Santa Ana, em relação a voos irregulares. Estão dando cobertura. Esse é o termo que tem sido usado em relação a certas aeronaves de pequeno porte que supostamente estão ligadas ao tráfico de substâncias controladas”, declarou Mendoza.

A apuração ainda está em fase inicial e Cerimedo não foi formalmente acusado nesse caso. Segundo o procurador, qualquer denúncia dependerá da obtenção de provas concretas sobre sua participação.

Voos irregulares e narcotráfico

A investigação em Beni retomou elementos de um processo conhecido como “narco-encomendas”, relacionado ao envio de 350 mil bolivianos [moeda] a partir de Santa Ana de Yacuma. 

O caso envolve um piloto e três policiais e levantou suspeitas sobre a atuação de uma rede que ofereceria cobertura a voos clandestinos.

De acordo com o jornal espanhol El País, Nadia afirmou às autoridades que Cerimedo facilitava operações com aeronaves sob o pretexto de instalar radares. O Ministério Público investiga possíveis vínculos dos voos com o transporte de substâncias controladas e ainda busca documentos, depoimentos e outras provas que confirmem as denúncias.

A suspeita soma-se aos processos abertos contra o argentino por tentativa de feminicídio, violência doméstica e enriquecimento ilícito. As autoridades também avaliam uma possível investigação por lavagem de dinheiro.

Prisão por tentativa de feminicídio

Cerimedo foi preso em 18 de agosto no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra. A Justiça boliviana determinou que ele permaneça detido preventivamente por 180 dias enquanto é investigado como suposto mandante do ataque contra Nadia.

Como mostrou o Vermelho, a advogada foi atraída à frente de um hotel e baleada três vezes por homens que se apresentaram como entregadores. Ela afirma que Cerimedo insistiu para que comparecesse ao local e estava ao telefone com ele quando sofreu o ataque.

A investigação encontrou no celular apreendido do argentino uma anotação na qual ele afirma que Nadia os havia “vendido”, diz que seria necessário “eliminá-la” e pergunta a um interlocutor se conhecia alguém capaz de “fazer o trabalho”. Cerimedo nega envolvimento no atentado, enquanto sua defesa sustenta que a emboscada teria sido encenada pela própria vítima.

Nadia também relatou episódios anteriores de violência física e disse ter sido estrangulada pelo então companheiro. Cerimedo responde ainda a uma investigação separada por violência doméstica.

Dinheiro e estrutura de robôs

As buscas realizadas em quatro imóveis e um escritório ligados ao consultor encontraram mais de US$40 mil em dinheiro — o valor inicialmente divulgado pelas autoridades chegou a ser estimado em aproximadamente US$50 mil, considerando diferentes moedas — e uma estrutura formada por dispositivos utilizados para operar contas automatizadas nas redes sociais.

Cerimedo negou que os equipamentos constituíssem uma fazenda de robôs e afirmou que eram apenas modems móveis guardados em caixas. Em entrevista ao jornal argentino La Nación em 2023, porém, ele admitiu utilizar contas automatizadas para interferir no funcionamento dos algoritmos.

“O serviço dos ‘trolls’ não é usado para fazer política, e sim para interferir nos algoritmos”, declarou na ocasião. “Com os ‘trolls’, criamos essa relevância artificial. O algoritmo a detecta e conseguimos que mais pessoas vejam a postagem.”

Segundo Nadia, Cerimedo mantinha duas estruturas desse tipo na Bolívia e outra maior em Buenos Aires, com capacidade para operar campanhas em diferentes países da América Latina. 

As contas seriam sincronizadas para publicar mensagens diferentes, fazer comentários, inundar as redes, segmentar públicos e denunciar em massa perfis considerados adversários.

Ela afirma que a estrutura foi usada em Honduras, Chile, Bolívia, Argentina e Brasil. Questionada pela Folha de S.Paulo se os robôs atuaram na campanha de Jair Bolsonaro em 2022, Nadia respondeu: “Pelo que entendi, foi essa campanha. Ele me disse que foi isso”.

Dos ataques às urnas à campanha de Flávio

Cerimedo ganhou projeção no Brasil depois da vitória de Lula em 2022, quando realizou transmissões e difundiu informações falsas para desacreditar as urnas eletrônicas. Ele foi indiciado pela Polícia Federal na investigação sobre a tentativa de golpe, mas não entrou na denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República.

A PGR reconheceu sua participação na circulação das acusações infundadas contra o sistema eleitoral, mas manteve sua conduta sob investigação separada por considerar que, naquele momento, não havia provas suficientes de seu conhecimento e adesão ao projeto golpista.

O argentino mantém uma relação próxima com Eduardo Bolsonaro. Em julho deste ano, os dois participaram de uma transmissão na qual voltaram a lançar suspeitas contra as urnas. Segundo Nadia, Cerimedo encontrou Eduardo nos Estados Unidos no início de agosto e chegou a mencionar a possibilidade de ambos viajarem a Israel.

A ex-companheira também afirma que Cerimedo pretendia atuar na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Ela disse ter perguntado se o senador tinha possibilidade de vencer a eleição.

“Ele me disse que estava difícil, mas que eles iriam lutar. Esse foi o único comentário que ele fez para mim”, relatou. Ao ser questionada se havia entendido a resposta como uma promessa de colaboração eleitoral, afirmou: “Foi o que entendi na hora, que eles iam tentar”.

Procurada pela Folha, a campanha de Flávio não respondeu oficialmente. Integrantes da equipe disseram reservadamente que Cerimedo não mantém relação com a candidatura.

Rui Falcão pede cooperação com a Bolívia

Diante da apreensão dos equipamentos, o deputado federal Rui Falcão (PT-SP) pediu ao Supremo Tribunal Federal medidas de cooperação jurídica com a Bolívia para preservar e compartilhar as provas encontradas nos endereços ligados a Cerimedo.

O parlamentar quer que as autoridades brasileiras identifiquem os operadores, as contas, as fontes de financiamento, os clientes e os beneficiários da estrutura. Também solicita que seja investigada uma possível ligação da fazenda de robôs com partidos ou candidaturas nas eleições brasileiras de 2026.

Falcão pediu ainda que eventuais provas de natureza eleitoral sejam compartilhadas com o Tribunal Superior Eleitoral e a Procuradoria-Geral Eleitoral. Os equipamentos apreendidos podem ajudar a esclarecer tanto a atuação de Cerimedo após a eleição de 2022 quanto a possível preparação de uma nova operação digital no Brasil.

Além dos Bolsonaro, Cerimedo trabalhou na campanha presidencial de Javier Milei em 2023 e circulou pelo governo argentino. Milei afirma não manter relações com o consultor desde aquele ano, mas registros divulgados pela imprensa argentina apontam que Cerimedo visitou a Casa Rosada pelo menos 13 vezes durante seu governo.

O argentino também apareceu no escândalo de corrupção da Agência Nacional de Deficiência. 

Em depoimento à Justiça, afirmou ter ouvido do então diretor do órgão, Diego Spagnuolo, que fornecedores eram pressionados a pagar propina em contratos de medicamentos e que parte do dinheiro teria como destino a Casa Rosada. Segundo Cerimedo, o próprio Milei teria sido informado do esquema.

Na Bolívia, Cerimedo atuava como assessor informal do presidente de direita Rodrigo Paz, embora não ocupasse um cargo oficial. 

Nadia acusa o ex-companheiro de participar de negócios irregulares envolvendo integrantes do governo boliviano.

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